Nebulosa escura
Barnard 86, o buraco no céu
Uma nuvem de poeira fria que aparece como um buraco negro recortado contra o campo estelar de Sagitário, ao lado de um aglomerado jovem.

Crédito T. A. Rector/University of Alaska Anchorage and NOIRLab/NSF/AURA NOIRLab CC BY 4.0
- Tipo
- Nebulosa escuraSIMBAD: DNe
- Distância
- 6.000 anos-luzdeclarada pelo publicador da imagem, em 2013
- Constelação
- SagitárioSgr
- Tamanho no céu
- 5,0 minutos de arcoextensão catalogada no SIMBAD
- Observado por
- NSF Víctor M. Blanco 4-meter Telescope, MPG/ESO 2.2-metre telescope, Digitized Sky Survey 2
- Imagem publicada
- abril de 2009
- Original do acervo
- 8.300 × 8.269 px69 megapixels
Barnard 86, registrada no SIMBAD como LDN 93, é uma nebulosa escura na constelação de Sagitário, a cerca de 6.000 anos-luz segundo a distância declarada pelo publicador da imagem. Ela ocupa 5 minutos de arco, uma área pequena, e a impressão que causa é a de um rasgo no céu: uma mancha completamente vazia num campo saturado de estrelas. O apelido de buraco no céu descreve bem o efeito visual e descreve mal o objeto.
Não há buraco nenhum. Barnard 86 é o oposto de um vazio: é uma concentração densa de gás molecular frio e grãos de poeira, tão opaca que bloqueia praticamente toda a luz das estrelas que estão atrás. A nuvem só é visível porque está na frente de um dos campos estelares mais ricos do céu, na direção das regiões internas da Via Láctea. Numa direção pobre em estrelas ela passaria despercebida.
Ao lado dela, no mesmo enquadramento, fica o aglomerado aberto NGC 6520, um grupo de estrelas jovens e azuladas. A proximidade no céu convida a uma hipótese natural, que a nuvem seja o material que sobrou da formação daquelas estrelas, mas confirmar isso exige provar que os dois objetos estão à mesma distância, e não apenas na mesma direção.
O que é uma nebulosa escura?
Nebulosas escuras são nuvens interestelares densas o suficiente para serem opacas à luz visível. O código DNe, que o SIMBAD atribui a Barnard 86, significa exatamente isso. A opacidade vem dos grãos de poeira: partículas sólidas de tamanho comparável ao comprimento de onda da luz visível, que absorvem e espalham os fótons que tentam atravessar.
A composição é dominada por hidrogênio molecular, com hélio e uma fração pequena de elementos mais pesados. A temperatura é baixíssima, poucas dezenas de graus acima do zero absoluto, e é essa frieza que permite ao gás permanecer molecular em vez de se dissociar. Nuvens assim são o único ambiente da galáxia onde a densidade e a temperatura permitem que a gravidade vença a pressão interna e inicie o colapso que forma estrelas.
Historicamente esses objetos foram um problema de interpretação. Durante muito tempo se discutiu se as manchas escuras do céu eram regiões genuinamente vazias de estrelas ou nuvens obscurecendo o fundo. A fotografia de longa exposição resolveu a questão: os contornos irregulares e a distribuição das manchas ao longo do plano da Via Láctea só fazem sentido se elas forem material absorvente.
Por que a nuvem parece um buraco?
O efeito depende inteiramente do fundo. A direção de Sagitário aponta para o centro da Via Láctea, e nessa região a linha de visada atravessa uma quantidade enorme de estrelas. O campo fica tão povoado que praticamente não sobra céu escuro entre os pontos. Colocar uma nuvem opaca na frente desse fundo produz um recorte de contraste máximo.
Se a mesma nuvem estivesse projetada contra uma região pobre em estrelas, longe do plano da galáxia, ela seria quase invisível. Nebulosas escuras não emitem luz própria em comprimentos de onda visíveis, e por isso só existem para o olho como ausência. O objeto é definido pelo que ele impede de ver.
Isso muda completamente em comprimentos de onda mais longos. No infravermelho e no submilimétrico, os grãos de poeira frios emitem radiação própria e a nuvem deixa de ser um vazio para virar uma fonte brilhante. É por isso que o mapeamento sério de nuvens escuras é feito nessas faixas, e não em luz visível: só ali dá para medir massa, temperatura e estrutura interna.
Qual a relação com o aglomerado NGC 6520?
A imagem do acervo, feita em 2013 pela câmera de campo largo WFI, cobre 33,6 por 32,6 minutos de arco e mostra a nuvem escura ao lado de um aglomerado aberto de estrelas jovens e azuladas. O título original do registro trata os dois como um conjunto, e a associação é a leitura mais imediata da cena.
A hipótese natural é que a nuvem e o aglomerado façam parte do mesmo complexo de formação estelar: as estrelas teriam nascido de uma nuvem maior, e Barnard 86 seria um resto ainda não consumido nem dissolvido. Cenários assim são comuns na galáxia, e a coincidência de direção é um indício.
Indício não é prova. Na direção do centro galáctico, dois objetos podem parecer vizinhos e estar separados por milhares de anos-luz ao longo da linha de visada. Estabelecer a associação exige medir a distância dos dois de forma independente e comparar velocidades. Enquanto isso não estiver resolvido com margem estreita, o mais honesto é dizer que eles aparecem juntos no céu.
O que significa o desvio para o vermelho ausente?
O catálogo registra z = 0 para Barnard 86. Esse valor não é uma medida de que o objeto está parado em relação a nós: é a forma como o dado ausente aparece no registro. Nuvens escuras não são fontes de luz próprias em visível, e medir a velocidade delas exige espectroscopia de linhas moleculares em rádio ou análise das linhas de absorção impressas na luz das estrelas de fundo.
A distinção importa para quem lê tabelas de catálogo. Tratar zero como medida levaria a concluir que a nuvem não participa da rotação da Via Láctea, o que seria absurdo para um objeto a 6.000 anos-luz dentro do disco galáctico. Todo material do disco orbita o centro, e velocidades radiais de dezenas de quilômetros por segundo são o padrão.
A política editorial deste acervo é não converter ausência em número. Onde o dado não existe, o texto diz que não existe. É preferível uma lacuna declarada a uma estimativa que o leitor não tem como distinguir de uma medida real.
Os números deste objeto
| Distância | 6.000 anos-luzdeclarada pelo publicador da imagem |
|---|---|
| Constelação | Sagitário (Sgr) |
| Identificação principal | LDN 93SIMBAD |
| Outros nomes | Barnard 86, NGC 6520 |
| Classificação | DNe, nebulosa escuraSIMBAD |
| Tamanho aparente | 5 minutos de arcoSIMBAD |
| Coordenadas J2000 | AR 270,7417 graus, Dec -27,8683 graus |
| Desvio para o vermelho | sem medida disponível no catálogo |
| Campo da imagem | 33,6 por 32,6 minutos de arcometadado da imagem |
| Imagens no acervo | 1 |
O que reparar nesta imagem
- O contorno irregular da manchaA borda da nuvem não é lisa nem geométrica. Esse contorno rasgado é a assinatura de material real sendo moldado por turbulência, e foi o argumento histórico contra a ideia de que as manchas escuras fossem vazios.
- O aglomerado azulado ao ladoAs estrelas jovens agrupadas perto da nuvem formam o aglomerado NGC 6520. Elas aparecem no mesmo quadro, mas a associação física entre os dois objetos precisa de medida de distância para ser afirmada.
- A densidade do campo em voltaConte os pontos ao redor da mancha. É essa saturação de estrelas, típica da direção de Sagitário, que torna a nuvem visível: sem fundo brilhante, não haveria silhueta.
- As estrelas dentro da silhuetaAlguns pontos aparecem sobre a área escura. São estrelas que estão à frente da nuvem, entre ela e nós, e não estrelas cuja luz atravessou a poeira.
Por que esta imagem tem essas cores
Estas cores não são as que seus olhos veriam. Parte da luz registrada está fora da faixa visível, então cada filtro recebeu uma cor para que a informação pudesse aparecer numa tela.
ultravioletainfravermelho e ondas de rádio
- Roxoluz visível · Mosaic II · U355 nminvisível ao olho
- Azulluz visível · Mosaic II · B438 nmolho enxerga
- Verdeluz visível · Mosaic II · V538 nmolho enxerga
- Vermelholuz visível · Mosaic II · Ha657 nmolho enxerga
- Laranjaluz visível · Mosaic II · I820 nminvisível ao olho
Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio NOIRLab junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.
Que tamanho é isso, de verdade
Este recorte do céu é cerca de 1,2 vezes mais largo que a Lua cheia. O recorte fotografado mede 37 minutos de arco de largura no céu, e a Lua cheia mede cerca de 31 minutos de arco.
Levando a distância em conta, o objeto tem cerca de 8,7 anos-luz de ponta a ponta. Para comparar: a Via Láctea inteira tem por volta de 100 mil anos-luz de diâmetro.
A luz desta imagem levou 6.000 anos para chegar até o telescópio. Você não está vendo o objeto como ele é hoje, e sim como ele era por volta da época em que a escrita foi inventada na Mesopotâmia.
Dá para ver isso daqui?
Agora este objeto está acima do horizonte de São Paulo, SP, bem alto, a 51° de altura, na direção O.
Deste lugar, o ponto mais alto que ele alcança no céu é 86 graus acima do horizonte.
Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.
Quanto já se olhou para aqui
- 3registros do GALEX
Contagem de observações arquivadas no Mikulski Archive for Space Telescopes, o repositório público operado pelo Space Telescope Science Institute, para uma busca num raio de 2,5 minutos de arco em torno da coordenada deste objeto. Um registro é um produto de observação, e não uma noite de telescópio nem uma fotografia: uma única campanha científica costuma render dezenas deles. O número serve para comparar a atenção que cada objeto recebeu, não para contar fotos.
O que ainda não se sabe
Não está estabelecido se Barnard 86 e o aglomerado NGC 6520 pertencem ao mesmo complexo de formação estelar ou apenas coincidem na direção do céu. A questão depende de medir a distância dos dois com margens estreitas, difícil numa linha de visada que atravessa as regiões internas da Via Láctea. Também segue em aberto se a nuvem ainda contém núcleos densos capazes de colapsar e formar estrelas, ou se ela é um remanescente já em dissolução. Responder isso exige observações em infravermelho e em rádio, e não imagens em luz visível.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
Nebulosas escuras foram catalogadas de forma sistemática a partir de fotografias de longa exposição do céu, e o catálogo Barnard, que dá nome a este objeto, nasceu desse trabalho. A numeração desse catálogo convive com outra, a lista LDN, que o SIMBAD adota como identificação principal aqui. O mesmo pedaço de céu aparece com dois nomes porque foi catalogado duas vezes, por critérios diferentes.
Outras imagens deste objeto


Crédito ESO/Digitized Sky Survey 2. Acknowledgement: Davide De Martin ESO CC BY 4.0

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Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Nebulosa da Lagoa
Crédito NSF–DOE Vera C. Rubin Observatory/NOIRLab/SLAC/AURA NOIRLab CC BY 4.0
- Nebulosa Ômega
Crédito NASA, H. Ford (JHU), G. Illingworth (UCSC/LO), M.Clampin (STScI), G. Hartig (STScI), the ACS Science Team, and ESAThe ACS Science Team: H. Ford, G. Illingworth, M. Clampin, G. Hartig, T. Allen, K. Anderson, F. Bartko, N. Benitez, J. Blakeslee, R. Bouwens, T. Broadhurst, R. Brown, C. Burrows, D. Campbell, E. Cheng, N. Cross, P. Feldman, M. Franx, D. Golimowski, C. Gronwall, R. Kimble, J. Krist, M. Lesser, D. Magee, A. Martel, W. J. McCann, G. Meurer, G. Miley, M. Postman, P. Rosati, M. Sirianni, W. Sparks, P. Sullivan, H. Tran, Z. Tsvetanov, R. White, and R. Woodruff. ESA/Hubble CC BY 4.0
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Crédito NASA, ESA and Allison Loll/Jeff Hester (Arizona State University). Acknowledgement: Davide De Martin (ESA/Hubble) ESA/Hubble CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- O que é Barnard 86?
- Barnard 86, registrada no SIMBAD como LDN 93, é uma nebulosa escura na constelação de Sagitário, a cerca de 6.000 anos-luz segundo a distância declarada pelo publicador da imagem. Trata-se de uma nuvem densa de gás molecular frio e poeira, com 5 minutos de arco de tamanho aparente, opaca o bastante para bloquear a luz das estrelas de fundo. O apelido de buraco no céu descreve o efeito visual, não a natureza do objeto.
- Barnard 86 é mesmo um buraco no espaço?
- Não. Barnard 86 é o contrário de um vazio: é uma das concentrações mais densas de matéria da região. A aparência de buraco vem do contraste com o fundo, já que a direção de Sagitário é uma das mais ricas em estrelas de todo o céu. A nuvem simplesmente impede que essa luz chegue até nós. Em comprimentos de onda infravermelhos, onde a poeira fria emite radiação própria, o mesmo objeto aparece como uma fonte brilhante, e não como uma mancha escura.
- Por que nebulosas escuras não são visíveis por si mesmas?
- Porque elas não emitem luz visível. A temperatura de uma nuvem molecular fica poucas dezenas de graus acima do zero absoluto, e nessa faixa a radiação térmica sai no infravermelho distante e no submilimétrico, não no visível. Em luz visível a nuvem só se manifesta pela absorção, ou seja, pelo que ela esconde. Por isso o estudo quantitativo desses objetos, com medida de massa e temperatura, é feito em rádio e infravermelho.
- Qual a relação entre Barnard 86 e o aglomerado NGC 6520?
- Os dois aparecem lado a lado na mesma imagem, e a hipótese natural é que sejam partes de um mesmo complexo, com as estrelas jovens do aglomerado tendo nascido de uma nuvem maior da qual Barnard 86 seria um resto. A coincidência de direção é um indício, não uma prova. Na direção do centro galáctico, objetos podem parecer vizinhos e estar separados por milhares de anos-luz ao longo da linha de visada.
- Nascem estrelas dentro de Barnard 86?
- Nuvens moleculares frias e densas são o único ambiente da galáxia onde estrelas se formam, então a possibilidade existe por princípio. Confirmar num caso específico exige procurar núcleos densos e fontes infravermelhas embutidas, o que imagens em luz visível não permitem. No caso de Barnard 86, o acervo não traz esse tipo de observação, e a resposta honesta é que a questão depende de dados em outras faixas do espectro.
- Por que o catálogo mostra desvio para o vermelho igual a zero?
- Porque o dado não existe, e não porque a nuvem esteja parada. Medir velocidade de uma nebulosa escura exige espectroscopia de linhas moleculares em rádio ou análise das linhas de absorção impressas na luz das estrelas de fundo, e esse valor não consta do registro. Interpretar o zero como medida levaria a uma conclusão absurda, já que qualquer objeto a 6.000 anos-luz dentro do disco da Via Láctea participa da rotação galáctica.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
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Como citar esta página
ValorFinal. Barnard 86, o buraco no céu. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/nuvem-escura-barnard-86. Consultado em: 23/08/2026.










