Aglomerado globular
Aglomerado NGC 6388
Aglomerado globular denso em Escorpião, a 37.000 anos-luz, no centro de uma disputa longa sobre um buraco negro no seu núcleo.

Crédito ESO, F. Ferraro (University of Bologna) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Tipo
- Aglomerado globularSIMBAD: GlC
- Distância
- 37.000 anos-luzdeclarada pelo publicador da imagem, em 2012
- Constelação
- EscorpiãoSco
- Tamanho no céu
- 11 minutos de arcoextensão catalogada no SIMBAD
- Observado por
- MPG/ESO 2.2-metre telescope, Hubble Space Telescope
- Imagem publicada
- dezembro de 2012
- Original do acervo
- 1.662 × 1.759 px3 megapixels
NGC 6388 é um aglomerado globular na constelação de Escorpião, a 37.000 anos-luz segundo a distância declarada pelo publicador das imagens. Ocupa 11,4 minutos de arco no céu, cerca de um terço do diâmetro aparente da Lua cheia, e está entre os globulares mais massivos e luminosos da Via Láctea. Fica numa direção do céu próxima do bojo galáctico, o que significa muito campo estelar de primeiro plano em qualquer imagem de campo largo.
O motivo pelo qual ele aparece com frequência na literatura não é a aparência. NGC 6388 virou um dos casos mais citados na discussão sobre buracos negros de massa intermediária, uma categoria de objeto que preencheria a lacuna entre os buracos negros formados pelo colapso de estrelas individuais e os buracos negros supermassivos dos centros de galáxias. Se essa categoria existe em globulares, aglomerados densos como este são o lugar mais provável para procurar.
Duas imagens do acervo foram publicadas no mesmo dia de dezembro de 2012, uma pelo ESO e outra pelo Hubble, e se complementam. A do ESO cobre 6,6 por 7 minutos de arco. A do Hubble cobre 3,6 por 3,5 minutos de arco com três filtros na luz visível, entre 435 e 814 nanômetros, e chega bem mais fundo na região central, onde a densidade estelar impede telescópios de solo de separar objeto por objeto.
O que é um buraco negro de massa intermediária?
Buracos negros conhecidos com boa segurança se dividem em duas famílias muito separadas. De um lado, os de massa estelar, formados quando uma estrela massiva colapsa no fim da vida, com massas de poucas a algumas dezenas de vezes a do Sol. De outro, os supermassivos, que ocupam o centro de galáxias grandes e chegam a milhões ou bilhões de massas solares.
Entre esses dois extremos existe um vazio observacional. Objetos com massas intermediárias, na faixa de centenas a milhares de vezes a do Sol, seriam a ponte natural entre as duas famílias e poderiam explicar como os supermassivos começaram. O problema é que eles são difíceis de detectar: pequenos demais para dominar a dinâmica de uma galáxia inteira, grandes demais para serem confundidos com um remanescente estelar comum.
Núcleos de aglomerados globulares são candidatos naturais a abrigar esse tipo de objeto. A densidade extrema no centro favorece colisões e fusões sucessivas entre estrelas e remanescentes, e uma sequência longa desses eventos poderia, em princípio, montar um buraco negro bem acima da massa estelar típica. NGC 6388, denso e massivo, é um dos alvos mais examinados nessa busca.
Por que essa medida é tão difícil?
Ninguém enxerga um buraco negro diretamente num aglomerado. O que se mede é o efeito dele sobre as estrelas vizinhas: um objeto muito massivo no centro acelera as estrelas próximas, aumentando a dispersão de velocidades perto do núcleo. Detectar esse aumento é o teste padrão.
O problema é que existe outra explicação para o mesmo sinal. Aglomerados densos passam por segregação de massa: com o tempo, os objetos mais pesados afundam para o centro. Uma concentração de estrelas de nêutrons e buracos negros de massa estelar acumulados no núcleo produz um perfil de velocidades parecido com o de um único buraco negro intermediário. Distinguir os dois cenários exige medir velocidades de estrelas individuais muito perto do centro, exatamente onde a aglomeração é maior.
Some a isso a distância de 37.000 anos-luz e o campo estelar denso da direção do bojo. Estrelas de primeiro plano contaminam a amostra, o borramento junta objetos vizinhos e a incerteza de cada medida cresce. Não é surpresa que trabalhos diferentes, com métodos e conjuntos de dados diferentes, tenham chegado a conclusões distintas sobre a massa do objeto central, quando ele existe.
Quanto o aglomerado mede de verdade?
Os 11,4 minutos de arco de tamanho aparente, combinados com os 37.000 anos-luz de distância declarada, dão uma extensão da ordem de 120 anos-luz. É um valor típico para um aglomerado globular grande e serve de referência para comparar com os outros objetos deste acervo.
A comparação é instrutiva. NGC 6388 ocupa menos céu que 47 Tucanae, que tem 43,8 minutos de arco, mas está mais de duas vezes mais longe. Em extensão física a diferença encolhe bastante: cerca de 120 anos-luz contra cerca de 200. Quase toda a diferença de tamanho aparente entre os dois é efeito de perspectiva, não de tamanho real.
O que realmente separa NGC 6388 da média não é o diâmetro e sim a concentração. Ele é um dos globulares mais massivos da galáxia, e boa parte dessa massa está concentrada perto do centro. É essa combinação de muita massa em pouco volume que faz dele um alvo recorrente para quem procura efeitos dinâmicos incomuns.
Por que o ESO e o Hubble publicaram juntos?
Duas imagens do acervo saíram na mesma data, 19 de dezembro de 2012, e é um bom exemplo de como observatórios de solo e espaciais se complementam em vez de competirem. Cada um resolve uma parte do problema que o outro não resolve bem.
A imagem do ESO, com campo de 6,6 por 7 minutos de arco, cobre boa parte da extensão do aglomerado e o contexto imediato. Telescópios de solo têm mais tempo de observação disponível e espelhos maiores, o que ajuda em campo amplo e em objetos fracos, mas esbarram no borramento atmosférico quando o alvo é o núcleo de um aglomerado denso.
A imagem do Hubble ataca justamente esse ponto. Com campo de 3,6 por 3,5 minutos de arco e três filtros entre 435 e 814 nanômetros, ela entra na região central e separa estrelas individuais, o que é a condição para medir brilho e cor de cada uma e, a partir daí, montar o diagrama que revela a história evolutiva da população. Sem esse tipo de dado, as discussões sobre a dinâmica do núcleo não teriam base observacional.
O que a composição química revela?
Aglomerados globulares costumam ser pobres em elementos mais pesados que o hélio, sinal de que se formaram cedo, antes que gerações sucessivas de estrelas enriquecessem o gás da galáxia. NGC 6388 foge um pouco desse padrão: está entre os globulares comparativamente ricos em metais, no vocabulário astronômico em que metal significa qualquer elemento além de hidrogênio e hélio.
Isso torna um detalhe da sua população estelar difícil de explicar. Aglomerados ricos em metais tendem a não apresentar estrelas quentes em uma fase evolutiva específica, chamada de ramo horizontal, e NGC 6388 apresenta. A combinação de riqueza química com essa componente quente é uma anomalia conhecida e discutida há décadas.
As explicações propostas passam por diferenças de perda de massa entre estrelas do aglomerado e pela existência de mais de uma população estelar dentro dele, com abundâncias químicas distintas. O fenômeno de múltiplas populações é hoje reconhecido em muitos globulares, e nenhum modelo único de formação dá conta de todos os casos observados.
Os números deste objeto
| Distância | 37.000 anos-luzdeclarada pelo publicador das imagens |
|---|---|
| Identificação principal | NGC 6388SIMBAD |
| Classificação | aglomerado globularSIMBAD |
| Constelação | Escorpião (Sco) |
| Coordenadas J2000 | AR 264,0728 graus, Dec -44,7357 graus |
| Tamanho aparente | 11,4 minutos de arcoSIMBAD |
| Extensão estimada | cerca de 120 anos-luzcalculada a partir do tamanho aparente e da distância |
| Desvio para o vermelho | z = 0,00028SIMBAD |
| Imagens no acervo | 2 |
O que reparar nesta imagem
- A queda de brilho para foraO perfil de luz cai rápido do centro para a borda. Essa concentração alta é o que faz de NGC 6388 um alvo preferido nas buscas por objetos massivos escondidos no núcleo.
- As gigantes vermelhas mais brilhantesOs pontos alaranjados destacados são estrelas que já saíram da fase estável e incharam. Num aglomerado antigo, elas respondem por boa parte da luz total mesmo sendo minoria.
- As estrelas azuis do campoAlguns pontos azulados aparecem onde uma população antiga não deveria ter estrelas quentes. Essa componente é parte da anomalia química que torna NGC 6388 um caso discutido.
- O contraste entre os dois camposA imagem do ESO cobre 6,6 minutos de arco e a do Hubble, 3,6. Compare quantas estrelas individuais cada uma consegue separar na mesma região central do aglomerado.
Que tamanho é isso, de verdade
Cerca de 4,7 recortes como este caberiam lado a lado dentro da Lua cheia. O recorte fotografado mede 6,6 minutos de arco de largura no céu, e a Lua cheia mede cerca de 31 minutos de arco.
Levando a distância em conta, o objeto tem cerca de 122,7 anos-luz de ponta a ponta. Para comparar: a Via Láctea inteira tem por volta de 100 mil anos-luz de diâmetro.
A luz desta imagem levou 37.000 anos para chegar até o telescópio. Você não está vendo o objeto como ele é hoje, e sim como ele era por volta do fim da última era glacial.
Dá para ver isso daqui?
Agora este objeto está abaixo do horizonte de São Paulo, SP. Ele volta a subir mais tarde, e alcança no máximo 69° de altura daqui.
Deste lugar, o ponto mais alto que ele alcança no céu é 69 graus acima do horizonte.
Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.
Quanto já se olhou para aqui
- 406registros do Hubble
- 30registros do James Webb
- 1registros do GALEX
Contagem de observações arquivadas no Mikulski Archive for Space Telescopes, o repositório público operado pelo Space Telescope Science Institute, para uma busca num raio de 5,7 minutos de arco em torno da coordenada deste objeto. Um registro é um produto de observação, e não uma noite de telescópio nem uma fotografia: uma única campanha científica costuma render dezenas deles. O número serve para comparar a atenção que cada objeto recebeu, não para contar fotos.
O que ainda não se sabe
A existência de um buraco negro de massa intermediária no núcleo de NGC 6388 continua sem resposta aceita. O sinal procurado é um aumento da dispersão de velocidades das estrelas perto do centro, mas uma concentração de remanescentes estelares acumulados por segregação de massa produz um efeito muito parecido, e separar as duas causas exige medir velocidades individuais a distâncias mínimas do núcleo, com a resolução no limite do que os instrumentos entregam a 37.000 anos-luz. Estimativas publicadas variaram bastante conforme o método e os dados usados. Também segue sem explicação consensual a presença de uma componente estelar quente incomum para um aglomerado comparativamente rico em elementos pesados, um problema ligado à questão mais ampla das múltiplas populações estelares em globulares.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
NGC 6388 e outro aglomerado da mesma faixa de massa costumam aparecer em pares nos estudos sobre a anomalia da componente estelar quente, porque compartilham a mesma combinação improvável de riqueza em elementos pesados e presença de estrelas quentes evoluídas. Dois objetos com o mesmo defeito de modelo valem mais que um: coincidência isolada se descarta, padrão repetido exige explicação.
Outras imagens deste objeto

Crédito NASA, ESA, F. Ferraro (University of Bologna) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, ESO, F. Ferraro (University of Bologna) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, ESO, F. Ferraro (University of Bologna) ESO CC BY 4.0

Crédito M 4: ESO. Omega Cen: ESO/INAF-VST/OmegaCAM. M 80: The Hubble Heritage Team (AURA/STScI/NASA/ESA). M 53: ESA/Hubble & NASA. NGC 6752: ESA/Hubble & NASA. M 13: NASA, ESA, and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA). M 4: ESA/Hubble & NASA. NGC 288: ESA/Hubble & NASA. 47 Tuc: NASA, ESA, and G. Meylan (École Polytechnique Federale de Lausanne). ESA/Hubble CC BY 4.0

Vídeo de Aglomerado NGC 6388
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Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Nebulosa Pata de Gato
Crédito ESO/J. Emerson/VISTA Acknowledgment: Cambridge Astronomical Survey Unit ESO CC BY 4.0
- Nuvem escura de Lupus 3
Crédito ESO/Digitized Sky Survey 2Acknowledgement: Davide De Martin ESO CC BY 4.0
- Aglomerado Messier 7
- Ômega Centauri
Crédito ESO/INAF-VST/OmegaCAM. Acknowledgement: A. Grado, L. Limatola/INAF-Capodimonte Observatory ESO CC BY 4.0
- 47 Tucanae
Crédito ESO/M.-R. Cioni/VISTA Magellanic Cloud survey.Acknowledgment: Cambridge Astronomical Survey Unit ESO CC BY 4.0
- Aglomerado Messier 54
- Terzan 5
Crédito NASA/ESA/Hubble/F. Ferraro ESA/Hubble CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- O que é o aglomerado NGC 6388?
- NGC 6388 é um aglomerado globular da Via Láctea na constelação de Escorpião, a 37.000 anos-luz segundo a distância declarada pelo publicador das imagens. Ocupa 11,4 minutos de arco no céu, o que corresponde a uma extensão física da ordem de 120 anos-luz. Está entre os globulares mais massivos e concentrados da nossa galáxia, e é frequentemente citado nas discussões sobre buracos negros de massa intermediária em núcleos de aglomerados.
- Existe um buraco negro no centro de NGC 6388?
- Não há resposta consensual. Vários trabalhos procuraram por um buraco negro de massa intermediária no núcleo do aglomerado e chegaram a resultados diferentes conforme o método e os dados. A dificuldade é que uma concentração de estrelas de nêutrons e buracos negros de massa estelar, acumulados no centro por segregação de massa, produz um efeito dinâmico parecido com o de um único objeto massivo. Distinguir os dois casos exige resolução no limite do que os instrumentos atuais entregam.
- O que é um buraco negro de massa intermediária?
- É a categoria hipotética que ficaria entre os buracos negros de massa estelar, formados pelo colapso de estrelas individuais e com poucas dezenas de massas solares, e os supermassivos dos centros de galáxias, que chegam a milhões de massas solares. Objetos intermediários teriam centenas a milhares de massas solares e explicariam como os supermassivos começaram a crescer. Núcleos de aglomerados globulares densos são um dos lugares mais examinados nessa busca.
- Que tamanho tem NGC 6388?
- O aglomerado ocupa 11,4 minutos de arco no céu, cerca de um terço do diâmetro aparente da Lua cheia. Combinando esse valor com a distância declarada de 37.000 anos-luz, a extensão física fica em torno de 120 anos-luz. Ele parece menor que 47 Tucanae porque está mais de duas vezes mais longe, mas a diferença de tamanho real entre os dois é bem menor do que a de tamanho aparente sugere.
- Por que o ESO e o Hubble fotografaram o mesmo aglomerado?
- Porque os dois resolvem partes diferentes do problema. A imagem do ESO cobre 6,6 por 7 minutos de arco e mostra boa parte da extensão do aglomerado e o campo em volta. A do Hubble cobre 3,6 por 3,5 minutos de arco com três filtros na luz visível e entra na região central, onde o borramento atmosférico impede telescópios de solo de separar estrelas individuais. As duas imagens saíram na mesma data, em dezembro de 2012.
- Por que a composição química de NGC 6388 é considerada anômala?
- Aglomerados globulares costumam ser pobres em elementos mais pesados que o hélio, e NGC 6388 é comparativamente rico. Aglomerados ricos assim normalmente não apresentam estrelas quentes numa fase evolutiva específica conhecida como ramo horizontal, e ele apresenta. Essa combinação é discutida há décadas, e as explicações propostas envolvem diferenças de perda de massa entre estrelas e a existência de mais de uma população estelar dentro do mesmo aglomerado.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
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Como citar esta página
ValorFinal. Aglomerado NGC 6388. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/aglomerado-ngc-6388. Consultado em: 23/08/2026.






