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ObservatórioAstronomia

Estrela Herbig Ae/Be

AB Aurigae

Uma estrela jovem no Cocheiro, cercada por um disco de gás e poeira com braços em espiral onde talvez esteja nascendo um planeta.

AB Aurigae, estrela herbig ae/be, em imagem do Very Large Telescope
"SPHERE image of the disc around AB Aurigae", como o acervo nomeou esta imagem.Esta imagem mostra o disco em torno da jovem estrela AB Aurigae, onde o Very Large Telescope (VLT) do ESO encontrou sinais do nascimento de um planeta. Perto do centro da imagem, na região interna do disco, vemos a 'torção' (em amarelo bem brilhante) que os cientistas acreditam marcar o ponto onde um planeta está se formando.Descrição do acervo ESO, traduzida.

Crédito ESO/Boccaletti et al. ESO CC BY 4.0

Tipo
Estrela Herbig Ae/BeSIMBAD: Ae*
Distância
450 anos-luzdeclarada pelo publicador da imagem, em 1999
Constelação
CocheiroAur
Observado por
Very Large Telescope, Hubble Space Telescope
Imagem publicada
maio de 2020
Original do acervo
664 × 664 px0 megapixels

AB Aurigae é uma estrela jovem na constelação do Cocheiro, a 450 anos-luz da Terra segundo a distância declarada pelo publicador das imagens. O SIMBAD a registra como V* AB Aur e classifica com o código Ae*, que identifica uma estrela Herbig Ae: um astro de massa intermediária, mais pesado que o Sol, que ainda não terminou de se formar e continua cercado pelo material que sobrou do processo. Em catálogos de infravermelho ela também aparece como IRAS 04525+3028.

O que torna essa estrela um caso de estudo não é ela mesma, e sim o que existe em volta. AB Aurigae carrega um disco de gás e poeira largo o bastante e próximo o bastante para ser fotografado diretamente, coisa rara. Em 1999 o Hubble registrou esse disco com o instrumento STIS. Em 2020 o telescópio VLT do ESO voltou ao mesmo alvo com o instrumento SPHERE e resolveu a região interna, onde aparecem braços em espiral bem definidos.

As imagens do SPHERE colocaram AB Aurigae no centro de uma discussão que continua aberta. A espiral interna apresenta uma torção, e a interpretação divulgada com as imagens é que essa torção poderia marcar o ponto onde um planeta está se formando e revolvendo o disco. A hipótese é plausível e não é consenso. É exatamente o tipo de resultado que vale mostrar com a dúvida junto, porque a dúvida é o assunto.

O que é uma estrela Herbig Ae?

Estrelas não nascem prontas. Uma nuvem de gás desaba sobre si mesma, o material vai se concentrando no centro e o objeto resultante brilha primeiro por contração, não por fusão nuclear. Só depois de milhões de anos a temperatura no núcleo chega ao ponto de queimar hidrogênio de forma estável. Todo o intervalo entre o colapso e esse momento se chama fase pré-sequência principal, e é nela que AB Aurigae está.

Essa fase tem nomes diferentes conforme a massa da estrela. Objetos de baixa massa, parecidos com o que o Sol foi, são chamados de T Tauri. Objetos de massa intermediária, mais pesados e mais quentes, são chamados de Herbig Ae/Be, em referência ao astrônomo George Herbig e aos tipos espectrais A e B. O código Ae* do SIMBAD marca justamente isso: uma estrela de tipo A com linhas de emissão no espectro.

As linhas de emissão importam porque não são da estrela. Uma estrela isolada produz um espectro com linhas escuras, de absorção. Quando aparecem linhas brilhantes por cima, é sinal de que existe gás quente em volta, iluminado pela estrela e devolvendo energia em comprimentos de onda específicos. Antes de qualquer imagem do disco, o espectro já dizia que havia material circundante ali.

Por que o disco tem braços em espiral?

Um disco de material em torno de uma estrela jovem tende ao formato mais simples possível: um anel achatado e liso, porque as colisões entre partículas vão acertando as órbitas até que todas girem no mesmo plano e no mesmo sentido. Quando esse disco aparece com estrutura, com braços, sulcos e anéis, alguma coisa está atrapalhando o arranjo liso.

Existem duas explicações principais para braços em espiral num disco protoplanetário, e as duas continuam em uso. A primeira é instabilidade gravitacional: se o disco tem massa suficiente comparada à da estrela, a própria gravidade dele forma ondas de densidade, do mesmo jeito que uma galáxia espiral forma braços. A segunda é perturbação por um corpo já formado: um planeta em órbita puxa o material vizinho e deixa atrás de si um rastro em espiral, como um barco deixa esteira.

As duas hipóteses produzem espirais parecidas, o que torna a distinção difícil. O que diferencia uma da outra são detalhes: quantos braços existem, quão apertados são, como giram com o tempo e se há uma fonte de calor localizada onde o braço se torce. Acompanhar o mesmo disco por anos e ver a espiral girar é a medição que separa os cenários, e ela exige paciência.

Como se fotografa um disco tão perto da estrela?

O obstáculo é o contraste. A estrela é milhões de vezes mais brilhante que o material em volta, e a luz dela se espalha na óptica do telescópio e na atmosfera, cobrindo justamente a região que interessa. Fotografar o disco significa apagar a estrela sem apagar o resto.

O instrumento SPHERE, no VLT, foi construído para essa tarefa. Ele combina óptica adaptativa, que corrige em tempo real a distorção causada pela atmosfera terrestre, com um coronógrafo, que é uma máscara que bloqueia a luz direta da estrela no foco do instrumento. É por isso que essas imagens quase sempre têm uma mancha escura ou um disco opaco no centro: não é ausência de dado, é a máscara.

O campo das imagens do SPHERE no acervo é de 0,1 minuto de arco, ou seja, cerca de 6 segundos de arco de lado. É uma janela minúscula, algo próximo de um trezentos avos da largura da Lua cheia. A 450 anos-luz, esses 6 segundos de arco correspondem a cerca de 830 unidades astronômicas, mais de dez vezes o diâmetro da órbita de Netuno. O quadro é pequeno no céu e enorme em quilômetros.

O que mudou entre 1999 e 2020?

As imagens do Hubble de 1999 mostram o disco de AB Aurigae em luz espalhada, registrado com o instrumento STIS. Elas foram publicadas junto com uma versão obtida de telescópio no solo, para comparação, e uma montagem que reúne as duas. O acervo traz as três, e a montagem vem rotulada como tal, porque não é registro direto do céu.

As imagens do SPHERE, de 2020, foram feitas em infravermelho próximo, com a faixa vermelha centrada em 1.625 nanômetros, na banda que os astrônomos chamam de H. A escolha do infravermelho não é acessória. Grãos de poeira espalham luz de comprimento de onda curto com muito mais eficiência do que luz de comprimento longo, então observar em infravermelho reduz o brilho difuso e melhora o contraste entre estrela e disco.

O ganho real, porém, foi de resolução. Um telescópio de 8 metros com óptica adaptativa funcionando bem separa detalhes menores que os do Hubble em infravermelho, porque a resolução angular depende do diâmetro do espelho e do comprimento de onda. Foi essa combinação que permitiu passar de uma mancha com estrutura, em 1999, para braços em espiral desenhados, em 2020.

Por que uma estrela tem desvio para o vermelho?

O catálogo registra z = 0,00003 para AB Aurigae, e o número costuma causar confusão. Desvio para o vermelho é a medida de quanto o comprimento de onda da luz recebida foi esticado em relação ao comprimento de onda emitido. Em galáxias distantes, esse esticamento vem da expansão do universo. Numa estrela da própria Via Láctea, não vem: vem do movimento relativo entre ela e nós.

É o mesmo efeito Doppler que muda o som de uma sirene que passa. Se a fonte se afasta, as ondas chegam mais espaçadas e a luz fica ligeiramente mais vermelha. Se aproxima, acontece o contrário e o desvio fica negativo. Multiplicando z pela velocidade da luz, z = 0,00003 corresponde a cerca de 9 quilômetros por segundo de afastamento, que é uma velocidade banal para uma estrela do disco galáctico.

A lição vale para todo o acervo. O mesmo símbolo aparece em objetos que estão a algumas centenas de anos-luz e em objetos que estão a bilhões, e significa coisas fisicamente diferentes nos dois casos. Quando z é minúsculo, ele mede movimento local. Quando z é grande, ele mede expansão cósmica e serve como indicador de distância.

Os números deste objeto

Distância450 anos-luzdeclarada pelo publicador das imagens
ConstelaçãoCocheiro (Aur)
Identificação principalV* AB AurSIMBAD
Outros nomesIRAS 04525+3028
ClassificaçãoAe*, estrela Herbig AeSIMBAD
Coordenadas J2000AR 73,941 graus, Dec 30,5512 graus
Desvio para o vermelhoz = 0,00003
Imagens no acervo5
Produtos no arquivo MASTHubble 298, James Webb 36, GALEX 4busca num raio de 0,02 grau em torno da posição

O que reparar nesta imagem

  • A mancha escura no centroO círculo opaco no meio das imagens do SPHERE é o coronógrafo, a máscara que bloqueia a luz direta da estrela. Sem ela, o brilho de AB Aurigae apagaria todo o disco.
  • Os braços que saem do centroRepare que as espirais não são simétricas nem iguais entre si. Essa assimetria é a informação: um disco sem nada perturbando tenderia a ser liso e circular.
  • A torção na espiral internaNa imagem do disco interno existe um ponto onde o braço muda de direção de forma abrupta. É justamente esse detalhe que foi apresentado como possível assinatura de um planeta em formação.
  • A diferença de nitidez entre 1999 e 2020Compare a versão do Hubble com a do VLT. Vinte e um anos separam uma imagem em que o disco é uma mancha estruturada de outra em que os braços aparecem desenhados.

Por que esta imagem tem essas cores

Estas cores não são as que seus olhos veriam. Parte da luz registrada está fora da faixa visível, então cada filtro recebeu uma cor para que a informação pudesse aparecer numa tela.

ultravioletainfravermelho e ondas de rádio

  • Vermelhoinfravermelho · SPHERE · H1,63 µminvisível ao olho

Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio ESO junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.

Que tamanho é isso, de verdade

Cerca de 238 recortes como este caberiam lado a lado dentro da Lua cheia. O recorte fotografado mede 7,8 segundos de arco de largura no céu, e a Lua cheia mede cerca de 31 minutos de arco.

A luz desta imagem levou 450 anos para chegar até o telescópio. Você não está vendo o objeto como ele é hoje, e sim como ele era há cerca de um século.

Dá para ver isso daqui?

Agora este objeto está acima do horizonte de São Paulo, SP, baixo, perto do horizonte, a 2° de altura, na direção NE.

Deste lugar, o ponto mais alto que ele alcança no céu é 36 graus acima do horizonte.

Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.

Quanto já se olhou para aqui

  • 298registros do Hubble
  • 36registros do James Webb
  • 4registros do GALEX

Contagem de observações arquivadas no Mikulski Archive for Space Telescopes, o repositório público operado pelo Space Telescope Science Institute, para uma busca num raio de 1,2 minutos de arco em torno da coordenada deste objeto. Um registro é um produto de observação, e não uma noite de telescópio nem uma fotografia: uma única campanha científica costuma render dezenas deles. O número serve para comparar a atenção que cada objeto recebeu, não para contar fotos.

O que ainda não se sabe

Não há consenso sobre a existência de um planeta em formação em AB Aurigae. A torção observada na espiral interna admite mais de uma leitura, e trabalhos posteriores que reexaminaram a região chegaram a conclusões divergentes sobre se o sinal corresponde a um corpo em formação ou a uma estrutura do próprio disco. Também segue em disputa a origem dos braços em espiral: instabilidade gravitacional do disco e perturbação por um corpo já formado produzem padrões parecidos, e separar as duas hipóteses exige acompanhar a rotação da espiral por muitos anos. A massa total do disco e quanto dela ainda pode virar planeta permanecem mal determinadas.

Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.

Uma coisa que quase ninguém sabe

As imagens do SPHERE cobrem um campo de cerca de 6 segundos de arco de lado, algo em torno de um trezentos avos da largura da Lua cheia no céu. Nesse recorte minúsculo cabe uma estrutura de centenas de unidades astronômicas, mais larga que todo o Sistema Solar planetário.

Outras imagens deste objeto

AB Aurigae, estrela herbig ae/be, em imagem do Very Large Telescope
Very Large Telescope, instrumento SPHERE.Esta imagem mostra a região interna do disco em torno da jovem estrela AB Aurigae, onde o Very Large Telescope do ESO encontrou sinais do nascimento de um planeta. A 'torção' (em amarelo bem brilhante) marca o ponto onde um planeta pode estar se formando.Descrição do acervo ESO, traduzida.

Crédito ESO/Boccaletti et al. ESO CC BY 4.0

AB Aurigae, estrela herbig ae/be
A imagem à esquerda representa a melhor observação coronográfica de AB Aurigae feita a partir do solo. Paul Kalas, do Space Telescope Science Institute, obteve a imagem com o telescópio de 2,2 metros da Universidade do Havaí. O coronógrafo do telescópio eclipsou uma área de 33,5 bilhões de milhas (53,6 bilhões de quilômetros) centrada na estrela.Descrição do acervo ESA/Hubble, traduzida.

Crédito P. Kalas ( Space Telescope Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

AB Aurigae, estrela herbig ae/be, em imagem do Hubble Space Telescope
Hubble Space Telescope, instrumento STIS .A imagem do telescópio Hubble à direita mostra uma barra de ocultação em forma de vidraça, as faixas escuras que atravessam verticalmente o meio da imagem e horizontalmente a parte superior dela. A barra de ocultação cobre a parte mais interna do disco e a estrela, cerca de 7,1 bilhões de milhas (11,5 bilhões de quilômetros), ou 1,4 vez o diâmetro do nosso sistema solar.Descrição do acervo ESA/Hubble, traduzida.

Crédito C.A. Grady (National Optical Astronomy Observatories, NASA/ESA Goddard Space Flight Center), B. Woodgate (NASA/ESA Goddard Space Flight Center), F. Bruhweiler and A. Boggess (Catholic University of America), P. Plait and D. Lindler (ACC, Inc., Goddard Space Flight Center), M. Clampin ( Space Telescope Science Institute), and NASA/ESA, P. Kalas (SpaceTelescope Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

Montagem de várias imagens de AB Aurigae, estrela herbig ae/be, em imagem do Hubble Space TelescopeMontagem de várias imagens
Hubble Space Telescope, instrumento STIS .O Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA registrou uma vista quase de frente de um disco rodopiante de poeira e gás que cerca uma estrela em formação chamada AB Aurigae. A imagem do telescópio Hubble, feita em luz visível pelo Space Telescope Imaging Spectrograph, mostra um nível de detalhe sem precedentes no disco, incluindo grumos de poeira e gás que podem ser as sementes da formação de planetas.Descrição do acervo ESA/Hubble, traduzida.

Crédito C.A. Grady (National Optical Astronomy Observatories, NASA/ESA Goddard Space Flight Center), B. Woodgate (NASA/ESA Goddard Space Flight Center), F. Bruhweiler and A. Boggess (Catholic University of America), P. Plait and D. Lindler (ACC, Inc., Goddard Space Flight Center), M. Clampin ( Space Telescope Science Institute), and NASA/ESA, P. Kalas (SpaceTelescope Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

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Créditos das imagens desta página

Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.

  • Aglomerado MACS J0717

    Crédito NASA, ESA, CXC, NRAO/AUI/NSF, STScI, and R. van Weeren (Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics) Acknowledgment: NASA, ESA, and J. Lotz (STScI), and the HFF team ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Eta Carinae

    Crédito NASA, ESA, N. Smith (University of Arizona, Tucson), and J. Morse (BoldlyGo Institute, New York) ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Betelgeuse

    Crédito ESO/Digitized Sky Survey 2. Acknowledgment: Davide De Martin. ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Fomalhaut

    Crédito NASA, ESA, P. Kalas (UC Berkeley), J. DePasquale (STScI) ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Beta Pictoris

    Crédito NASA, ESA, D. Golimowski (Johns Hopkins University), D. Ardila (IPAC), J. Krist (JPL), M. Clampin (GSFC), H. Ford (JHU), and G. Illingworth (UCO/Lick) and the ACS Science Team ESA/Hubble CC BY 4.0

  • V838 Monocerotis

    Crédito NASA, ESA, and The Hubble Heritage Team (AURA/STScI) ESA/Hubble CC BY 4.0

  • AG Carinae

    Crédito ESA/Hubble and NASA, A. Nota, C. Britt ESA/Hubble CC BY 4.0

Perguntas frequentes

O que é AB Aurigae?
AB Aurigae é uma estrela jovem na constelação do Cocheiro, a 450 anos-luz da Terra segundo a distância declarada pelo publicador das imagens. O SIMBAD a classifica com o código Ae*, que designa uma estrela Herbig Ae: um objeto de massa intermediária, mais pesado que o Sol, que ainda não iniciou a fusão estável de hidrogênio e continua rodeado pelo material que sobrou da nuvem em que se formou. É esse material, organizado num disco com braços em espiral, que faz dela um alvo repetido de grandes telescópios.
Existe mesmo um planeta se formando em AB Aurigae?
Não há resposta fechada. As imagens do instrumento SPHERE divulgadas em 2020 mostram uma torção na espiral interna do disco, e a interpretação apresentada com elas é que esse ponto marcaria um planeta em formação perturbando o material em volta. Trabalhos posteriores discordam sobre a leitura do sinal, e a alternativa de que a torção seja uma estrutura do próprio disco continua na mesa. O caso é um bom exemplo de resultado importante que ainda não virou consenso.
Por que as imagens do disco têm um buraco escuro no meio?
Porque a estrela é milhões de vezes mais brilhante que o disco e precisa ser bloqueada para que o disco apareça. O instrumento usa um coronógrafo, uma máscara colocada no foco que barra a luz direta da estrela, e o resultado é a mancha opaca no centro da imagem. A área escura não indica ausência de material nem um vazio real: indica apenas a parte do campo que o instrumento cobriu de propósito para salvar o contraste do resto.
Dá para ver AB Aurigae com um telescópio amador?
A estrela, sim, como um ponto de luz. O brilho dela fica em torno do limite da visão a olho nu, então um binóculo comum já a mostra na constelação do Cocheiro. O disco, não. Registrar a estrutura em torno de AB Aurigae exigiu um telescópio de 8 metros com óptica adaptativa e coronógrafo, ou o Hubble acima da atmosfera. Nenhum instrumento de porte amador tem resolução angular nem controle de contraste para separar o disco da estrela.
Por que uma estrela tão perto tem desvio para o vermelho?
Porque desvio para o vermelho mede esticamento do comprimento de onda, e nem todo esticamento vem da expansão do universo. No caso de AB Aurigae, o valor registrado de z = 0,00003 vem do efeito Doppler, causado pelo movimento relativo entre a estrela e o Sistema Solar. Multiplicado pela velocidade da luz, corresponde a cerca de 9 quilômetros por segundo de afastamento. Em galáxias distantes o mesmo símbolo mede expansão cósmica e serve como indicador de distância.
Qual a diferença entre a imagem do Hubble e a do VLT?
As imagens do Hubble são de 1999, feitas com o instrumento STIS, e registram o disco em luz espalhada como uma mancha estruturada. A imagem do VLT é de 2020, feita com o instrumento SPHERE em infravermelho próximo, com a faixa vermelha centrada em 1.625 nanômetros. O ganho veio de duas coisas: um espelho de 8 metros com óptica adaptativa oferece resolução angular maior, e o infravermelho sofre menos espalhamento pela poeira, o que melhora o contraste entre estrela e disco.
O que significa a classificação Ae* do SIMBAD?
O código Ae* identifica uma estrela de tipo espectral A com linhas de emissão no espectro, o que na prática corresponde à classe Herbig Ae. Estrelas assim ainda estão na fase anterior à sequência principal, brilhando por contração em vez de fusão estável, e têm massa intermediária: mais que uma T Tauri, que é o equivalente de baixa massa, e menos que as Herbig Be. As linhas de emissão não vêm da superfície da estrela, e sim do gás quente que a cerca.

Fontes oficiais

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Como citar esta página

ValorFinal. AB Aurigae. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/ab-aurigae. Consultado em: 23/08/2026.