Galáxias em interação
Arp 273, a rosa de galáxias
Duas galáxias deformadas pela gravidade uma da outra, com o disco maior torcido numa forma que rendeu à imagem o nome de rosa cósmica.

Crédito NASA, ESA and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Tipo
- Galáxias em interaçãoSIMBAD: IG
- Distância
- 300 milhões de anos-luzdeclarada pelo publicador da imagem, em 2011
- Constelação
- AndrômedaAnd
- Tamanho no céu
- 1,2 minutos de arcoextensão catalogada no SIMBAD
- Classificação
- Sb:
- Observado por
- Hubble Space Telescope
- Imagem publicada
- abril de 2011
- Original do acervo
- 7.887 × 7.994 px63 megapixels
- Desvio para o vermelho
- z = 0,025
Arp 273 é um par de galáxias em interação na constelação de Andrômeda, com a maior das duas catalogada como UGC 1810 e registrada no SIMBAD com código de tipo IG, de galáxias em interação. A morfologia anotada é Sb:, e os dois pontos após a classificação são notação padrão de catálogo para indicar incerteza: o classificador viu uma espiral do tipo Sb, mas não com confiança suficiente para afirmar sem ressalva.
O nome Arp vem do Atlas de Galáxias Peculiares, compilado por Halton Arp e publicado em 1966. O critério de entrada no catálogo era simples e visual: galáxias cuja forma não se encaixava nas categorias clássicas de espiral, elíptica ou irregular. Décadas depois, boa parte das peculiaridades listadas por Arp foi explicada pelo mesmo mecanismo, que é interação gravitacional entre galáxias vizinhas.
A imagem deste acervo foi feita com a câmera WFC3 do Hubble, publicada em abril de 2011, e cobre 2,6 por 2,7 minutos de arco. O título original do publicador chama o par de rosa feita de galáxias, e a comparação é honesta: o disco superior aparece torcido e assimétrico, com um braço externo destacado que desenha algo próximo de uma pétala em torno de um centro mais denso. A distância declarada é de 300 milhões de anos-luz.
Por que o disco maior está torcido?
A deformação de UGC 1810 é resultado de maré gravitacional. Quando uma galáxia menor passa perto de uma maior, ela não puxa o disco inteiro com a mesma intensidade: o lado mais próximo é atraído com mais força que o lado mais distante. Essa diferença de força ao longo do corpo é o que se chama de efeito de maré, e é o mesmo princípio que faz a Lua levantar marés nos oceanos da Terra, só que em escala galáctica e com consequências permanentes.
Um disco galáctico é uma estrutura frágil diante desse tipo de perturbação. Ele se mantém porque bilhões de estrelas seguem órbitas quase circulares e coordenadas em torno do centro. Basta desorganizar uma fração dessas órbitas para que a simetria se perca, e o material das bordas externas, que está menos preso gravitacionalmente, é o primeiro a ser arrastado.
No caso de Arp 273, a interpretação mais aceita para a forma observada é que a galáxia menor tenha passado através do disco da maior, e não apenas ao lado. Uma passagem por dentro produz efeitos diferentes de uma passagem lateral, incluindo estruturas em anel e assimetrias acentuadas de um lado só, que é o que a imagem mostra.
O que o desvio para o vermelho confirma?
O desvio registrado é z = 0,02508. Multiplicando pela velocidade da luz, chega-se a cerca de 7.500 quilômetros por segundo de afastamento. Nessa faixa de velocidade, a expansão do universo já domina o resultado, e o desvio funciona como estimador razoável de distância.
Fazendo a conversão com uma constante de Hubble em torno de 70 quilômetros por segundo por megaparsec, o valor cai perto de 107 megaparsecs, algo em torno de 350 milhões de anos-luz. O número declarado pelo publicador é 300 milhões, e a diferença entre os dois não indica erro: mostra que a conversão depende da constante adotada e do método de arredondamento, e que valores da ordem de algumas centenas de milhões de anos-luz devem ser lidos como faixa, não como medida exata.
Existe também um dado de comparação útil. O desvio de Arp 273 é ligeiramente maior que o do Aglomerado de Coma, que é 0,0234. Os dois sistemas estão portanto a distâncias comparáveis, embora sejam objetos de natureza completamente diferente: um par de galáxias em colisão e um aglomerado com mais de mil membros.
O que significa a classificação Sb com dois pontos?
A sequência de Hubble classifica galáxias espirais em uma escala que vai de Sa a Sd, conforme dois critérios que costumam andar juntos: o tamanho relativo do bojo central e o grau de abertura dos braços. Uma Sa tem bojo grande e braços apertados; uma Sd tem bojo pequeno e braços bem abertos e fragmentados. Sb fica no meio do caminho.
Os dois pontos após a sigla são notação de incerteza usada em catálogos morfológicos. Significam que o classificador registrou a categoria sem confiança plena. No caso de UGC 1810 a hesitação é compreensível: a galáxia está deformada, e classificação morfológica pressupõe uma estrutura em equilíbrio para comparar com o padrão. Não é possível medir com segurança a abertura de braços que foram torcidos por maré.
Isso ilustra um limite geral do sistema. A sequência de Hubble foi construída a partir de galáxias isoladas e ordenadas, e funciona bem para elas. Galáxias em interação escapam do esquema, e por isso existem catálogos paralelos, como o próprio Atlas de Arp, dedicados exatamente ao que não cabe na classificação padrão.
Por que só três filtros nesta imagem?
A composição usa três faixas declaradas: 390 nanômetros na banda U atribuídos ao azul, 475 nanômetros na banda B atribuídos ao verde e 600 nanômetros na banda R atribuídos ao vermelho. É um conjunto compacto, sem filtro estreito de linha de emissão e sem cobertura infravermelha.
A escolha privilegia o lado azul do espectro. O filtro em 390 nanômetros já está no limite do ultravioleta próximo, e estrelas jovens e quentes brilham desproporcionalmente ali. O efeito prático é que regiões de formação estelar recente aparecem com destaque, o que ajuda a mostrar onde a interação disparou nascimento de estrelas.
Vale notar o deslocamento de escala de cor. Como o filtro mais longo da composição está em 600 nanômetros, e não em 800 como em imagens que incluem banda I, o canal vermelho da imagem corresponde ao que o olho chamaria de laranja. As cores são atribuições relativas dentro do conjunto de filtros usado, e mudam se o conjunto mudar, mesmo com o mesmo objeto e o mesmo telescópio.
Como localizar Arp 273 no céu?
A declinação de 39,4 graus norte deixa o objeto acessível do Brasil, mas baixo. De uma cidade a 23 graus de latitude sul, o par culmina em torno de 27 graus acima do horizonte, altura em que a atmosfera já degrada bastante a imagem. Observadores do norte do país têm situação melhor. A constelação de Andrômeda fica alta no céu do hemisfério norte durante o outono de lá, o que corresponde à primavera brasileira.
Do ponto de vista visual, Arp 273 é alvo difícil. Com tamanho aparente de 1,2 minuto de arco e a distância declarada de 300 milhões de anos-luz, as duas galáxias são manchas pequenas e fracas, sem qualquer sinal da estrutura de pétala que aparece na imagem do Hubble. A forma que deu fama ao objeto é produto de resolução espacial e tempo de exposição que só um telescópio espacial entrega.
Os números deste objeto
| Identificação principal | UGC 1810SIMBAD |
|---|---|
| Outro nome | Arp 273 |
| Classificação | galáxias em interação (IG)SIMBAD |
| Morfologia | Sb: (classificação com incerteza)SIMBAD |
| Constelação | Andrômeda (And) |
| Distância | 300.000.000 anos-luzdeclarada pelo publicador da imagem |
| Coordenadas J2000 | AR 35,3696 graus, Dec 39,3756 graus |
| Tamanho aparente | 1,2 minuto de arcoSIMBAD |
| Desvio para o vermelho | z = 0,02508 |
| Campo da imagem | 2,6 x 2,7 minutos de arcometadado do publicador |
| Instrumento | WFC3 (Hubble) |
| Imagens no acervo | 1 |
O que reparar nesta imagem
- A assimetria do disco maiorO braço externo de UGC 1810 é muito mais destacado de um lado que do outro. Essa assimetria é assinatura de maré gravitacional: o lado voltado para a companheira foi puxado com mais força.
- Os nós azuis no braço externoAs concentrações azuladas ao longo do braço torcido são regiões de formação estelar recente. Aparecem realçadas porque o filtro mais curto da composição está no limite do ultravioleta.
- A galáxia menor abaixoA companheira é bem menor e mais compacta. Repare que ela também está deformada: numa interação gravitacional as duas galáxias se puxam mutuamente, não existe lado só passivo.
- As galáxias de fundoManchinhas alongadas espalhadas pelo campo são galáxias muito mais distantes que Arp 273, sem qualquer relação física com o par. Servem para lembrar a profundidade real da imagem.
Por que esta imagem tem essas cores
As cores desta imagem se aproximam do que um olho humano veria, se ele fosse sensível o bastante: cada filtro registrou luz visível e recebeu uma cor coerente com o próprio comprimento de onda.
ultravioletainfravermelho e ondas de rádio
- Azulultravioleta · WFC3 · U390 nmolho enxerga
- Verdeluz visível · WFC3 · B475 nmolho enxerga
- Vermelholuz visível · WFC3 · R600 nmolho enxerga
Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio ESA/Hubble junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.
Que tamanho é isso, de verdade
Cerca de 12 recortes como este caberiam lado a lado dentro da Lua cheia. O recorte fotografado mede 2,6 minutos de arco de largura no céu, e a Lua cheia mede cerca de 31 minutos de arco.
Levando a distância em conta, o objeto tem cerca de 104.720 anos-luz de ponta a ponta. Para comparar: a Via Láctea inteira tem por volta de 100 mil anos-luz de diâmetro.
A luz desta imagem levou 300 milhões de anos para chegar até o telescópio. Você não está vendo o objeto como ele é hoje, e sim como ele era quando os dinossauros não voadores ainda dominavam a Terra, que se extinguiram há cerca de 66 milhões de anos.
Dá para ver isso daqui?
Agora este objeto está abaixo do horizonte de São Paulo, SP. Ele volta a subir mais tarde, e alcança no máximo 27° de altura daqui.
Deste lugar, o ponto mais alto que ele alcança no céu é 27 graus acima do horizonte.
Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.
Quanto já se olhou para aqui
- 18registros do Hubble
- 1registros do GALEX
Contagem de observações arquivadas no Mikulski Archive for Space Telescopes, o repositório público operado pelo Space Telescope Science Institute, para uma busca num raio de 1,2 minutos de arco em torno da coordenada deste objeto. Um registro é um produto de observação, e não uma noite de telescópio nem uma fotografia: uma única campanha científica costuma render dezenas deles. O número serve para comparar a atenção que cada objeto recebeu, não para contar fotos.
O que ainda não se sabe
A geometria exata do encontro entre as duas galáxias não está resolvida. A interpretação de que a menor atravessou o disco da maior explica bem a forma observada, mas reconstruir uma trajetória a partir de uma única imagem congelada no tempo é um problema com mais de uma solução possível: ângulo de aproximação, velocidade relativa, razão de massas e tempo decorrido desde o encontro trocam entre si e produzem resultados parecidos. Não se sabe tampouco se as duas galáxias vão terminar fundidas ou se a passagem foi rápida o suficiente para que se separem de novo, ainda que a maioria dos encontros próximos entre galáxias vizinhas termine em fusão. A distância também admite margem: o desvio para o vermelho aponta para um valor um pouco acima do declarado, e a conversão depende da constante de Hubble adotada.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
O Atlas de Galáxias Peculiares de Halton Arp, publicado em 1966, foi montado como um catálogo do que não se encaixava nas categorias conhecidas. Décadas depois, a maior parte daquelas anomalias visuais recebeu a mesma explicação: interação gravitacional entre galáxias. O catálogo do estranho virou, na prática, um catálogo de colisões.
Vídeo de Arp 273, a rosa de galáxias
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Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Galáxia de Andrômeda
Crédito ESA/Hubble & Digitized Sky Survey 2. Acknowledgment: Davide De Martin (ESA/Hubble) ESA/Hubble CC BY 4.0
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Perguntas frequentes
- O que é Arp 273?
- Arp 273 é um par de galáxias em interação gravitacional na constelação de Andrômeda, a 300 milhões de anos-luz segundo a distância declarada pelo publicador da imagem. A maior delas é catalogada como UGC 1810 e aparece com o disco visivelmente torcido pela influência da companheira menor. O nome vem do Atlas de Galáxias Peculiares, compilado por Halton Arp em 1966, que reunia galáxias cuja forma não se encaixava nas categorias clássicas.
- Por que a imagem é chamada de rosa de galáxias?
- Por causa da forma resultante da interação. O disco de UGC 1810 aparece torcido e assimétrico, com um braço externo destacado que contorna um centro mais denso, num arranjo que lembra pétalas em volta de um miolo. A galáxia menor, logo abaixo, completa a composição. O título original dado pelo publicador da imagem usa exatamente essa comparação, e a forma é consequência direta da maré gravitacional, não coincidência estética.
- O que significa a classificação morfológica Sb com dois pontos?
- Sb designa uma galáxia espiral intermediária na sequência de Hubble, com bojo central de tamanho moderado e braços nem muito apertados nem muito abertos. Os dois pontos após a sigla são notação padrão de catálogo para incerteza: o classificador registrou a categoria sem confiança plena. No caso de UGC 1810 a hesitação faz sentido, porque a galáxia está deformada por maré, e classificação morfológica pressupõe uma estrutura em equilíbrio para comparação.
- As duas galáxias de Arp 273 vão se fundir?
- Provavelmente sim, mas não há certeza. A maioria dos encontros próximos entre galáxias vizinhas termina em fusão, porque cada passagem dissipa energia orbital e aproxima os dois corpos. Reconstruir a trajetória a partir de uma única imagem, porém, é um problema com mais de uma solução: ângulo de aproximação, velocidade relativa e razão de massas trocam entre si e produzem formas parecidas. Não se pode descartar que a passagem tenha sido rápida o bastante para separá-las.
- A que distância fica Arp 273?
- A distância declarada pelo publicador da imagem é de 300 milhões de anos-luz. O desvio para o vermelho medido, z = 0,02508, corresponde a cerca de 7.500 quilômetros por segundo de afastamento, e a conversão com uma constante de Hubble em torno de 70 quilômetros por segundo por megaparsec aponta para algo próximo de 350 milhões de anos-luz. A diferença entre os dois números mostra que valores dessa ordem devem ser lidos como faixa, não como medida exata.
- Dá para ver Arp 273 com telescópio amador?
- Com muita dificuldade. A declinação de 39 graus norte faz o par culminar a apenas 27 graus de altura no sudeste do Brasil, onde a atmosfera já degrada bastante a imagem, e observadores do norte do país levam vantagem. Com tamanho aparente de 1,2 minuto de arco e a 300 milhões de anos-luz, as duas galáxias aparecem como manchas pequenas e fracas, sem nenhum sinal da estrutura de pétala registrada pelo Hubble.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
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Como citar esta página
ValorFinal. Arp 273, a rosa de galáxias. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/arp-273. Consultado em: 23/08/2026.





