Planeta
Mercúrio
O menor planeta do Sistema Solar e o mais próximo do Sol, difícil de ver no crepúsculo e peça-chave na confirmação da relatividade geral.

Crédito P. Horálek/ESO CC BY 4.0
- Tipo
- Planeta
- Imagem publicada
- abril de 2019
- Original do acervo
- 4.823 × 2.999 px14 megapixels
Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol e o menor do Sistema Solar. Completa uma volta em torno do Sol em cerca de 88 dias terrestres, o ano mais curto entre os planetas, e não tem atmosfera em qualquer sentido útil da palavra: existe apenas uma camada tênue de átomos arrancados da superfície e do vento solar, rarefeita demais para reter calor ou espalhar luz.
Sem atmosfera e sem proteção, a superfície acumulou crateras ao longo de bilhões de anos, com aparência que lembra a da Lua a olhos destreinados. A temperatura oscila de forma extrema entre o lado iluminado e o lado noturno, com uma diferença de centenas de graus, porque não há ar para transportar calor de um hemisfério ao outro nem para segurá-lo depois do pôr do sol.
Para quem observa da Terra, Mercúrio é o planeta clássico mais difícil de ver. Ele nunca se afasta muito do Sol no céu, o que o mantém preso ao crepúsculo, baixo no horizonte e visto através de uma camada espessa de atmosfera. As duas imagens do acervo refletem essa condição: nas duas ele é um ponto de luz sobre uma paisagem de observatório, uma delas dividindo o quadro com outros planetas.
Por que Mercúrio é tão difícil de ver?
A geometria não colabora. Como a órbita de Mercúrio é bem menor que a da Terra, o planeta nunca aparece a mais de cerca de 28 graus de separação angular do Sol. Na prática, isso significa que ele só é visível durante um intervalo curto depois do pôr do sol ou antes do nascer, sempre baixo, sempre contra um céu que ainda não escureceu por completo.
Estar baixo no horizonte cobra caro. A luz precisa atravessar muito mais atmosfera do que atravessaria se o objeto estivesse alto, o que enfraquece o brilho, borra a imagem pela turbulência do ar e desloca a cor. Somando isso ao fundo claro do crepúsculo, a observação vira um exercício de tempo curto e horizonte limpo. Quem mora em cidade cercada de prédios ou morros dificilmente encontra a janela.
Vale registrar aqui o mesmo aviso que a página de Vênus faz. Não existe uma distância fixa entre a Terra e Mercúrio, nem um tamanho aparente único para o disco dele. Os dois planetas percorrem órbitas próprias, com períodos diferentes, e a separação entre eles muda continuamente. Números de distância só fazem sentido acompanhados da data a que se referem.
Por que o planeta mais próximo do Sol não é o mais quente?
Mercúrio recebe muito mais energia solar por metro quadrado que qualquer outro planeta, e ainda assim a superfície de Vênus é mais quente. A diferença é a atmosfera. Em Vênus, uma camada densa de gás carbônico retém a radiação infravermelha e mantém o calor. Em Mercúrio não há nada para reter: a energia recebida é reirradiada para o espaço, e o lado noturno esfria a temperaturas de centenas de graus negativos.
A amplitude térmica resultante é a maior conhecida entre os corpos planetários do Sistema Solar. O lado exposto ao Sol passa de 400 graus Celsius positivos, e o lado escuro cai abaixo de 150 graus negativos. Não há transição suave nem transporte de calor: a linha que separa dia e noite é também uma fronteira térmica abrupta.
Existe uma consequência inesperada disso. Como o eixo de rotação de Mercúrio é quase perpendicular ao plano da órbita, o fundo de algumas crateras próximas aos polos nunca recebe luz solar direta. Nesses pontos permanentemente sombreados a temperatura fica baixa o suficiente para preservar gelo de água por longos períodos, e observações de radar e de sondas em órbita indicam depósitos ali. Um planeta que assa de dia guarda gelo em regiões que o Sol nunca alcança.
Como é um dia em Mercúrio?
Mercúrio gira sobre o próprio eixo exatamente três vezes a cada duas voltas em torno do Sol. Essa proporção não é coincidência: é uma ressonância, um estado estável para o qual a rotação do planeta foi conduzida pelas forças de maré do Sol ao longo de muito tempo. Configurações assim são comuns em corpos próximos a um astro dominante, e o caso mais conhecido é o da Lua, que mostra sempre a mesma face para a Terra.
A consequência para quem estivesse na superfície é estranha. O intervalo entre dois nasceres do Sol dura cerca de 176 dias terrestres, o equivalente a dois anos mercurianos completos. Cada ponto do planeta passa aproximadamente 88 dias terrestres sob luz solar contínua e outros tantos em escuridão total, o que ajuda a explicar a amplitude térmica extrema.
A órbita de Mercúrio é também a mais alongada entre os planetas, e isso produz um efeito visual sem paralelo. Perto do ponto de maior aproximação do Sol, o planeta se desloca em órbita mais rápido do que gira, e o movimento aparente do Sol no céu chega a inverter brevemente de sentido antes de retomar o curso normal. Um observador na superfície veria o Sol parar, andar para trás e seguir adiante.
O que a órbita de Mercúrio tem a ver com Einstein?
A órbita de um planeta não é uma elipse fixa no espaço. Puxada pela gravidade dos outros planetas, ela gira lentamente: o ponto de maior aproximação do Sol, chamado periélio, avança um pouco a cada volta. Esse avanço pode ser calculado somando a influência de cada corpo do Sistema Solar, e para todos os planetas a conta fechava com a observação.
Para todos, menos Mercúrio. Medições acumuladas no século 19 mostraram que o periélio dele avançava um pouco mais rápido do que a mecânica de Newton previa, com uma sobra de aproximadamente 43 segundos de arco por século. É uma discrepância minúscula, cerca de um centésimo de grau a cada cem anos, e mesmo assim consistente demais para ser erro de medida. Procurou-se de tudo para explicá-la, inclusive um planeta desconhecido entre Mercúrio e o Sol.
A explicação veio da relatividade geral, apresentada por Albert Einstein em 1915. Na teoria dele, a gravidade é a deformação do espaço e do tempo pela massa, e órbitas próximas a um corpo massivo não se fecham exatamente. O cálculo produziu os 43 segundos de arco por século que faltavam, sem nenhum ajuste feito para esse fim. Foi a primeira confirmação observacional da teoria, e ela veio de um planeta que a maioria das pessoas nunca viu.
O que as duas fotos do acervo mostram?
As duas imagens desta página foram feitas do solo, em observatórios do ESO no Chile, e são fotografias de paisagem noturna. Em ambas Mercúrio é um ponto de luz, sem disco e sem detalhe de superfície. Uma delas, de 2013, mostra três planetas juntos no crepúsculo sobre La Silla, e é a mesma imagem que aparece na página de Vênus. A outra, de 2019, tem título que brinca com o nome do planeta, que na mitologia romana era o mensageiro dos deuses.
A ausência de imagens de perto no acervo tem explicação. Este acervo reúne material publicado por observatórios ópticos e por telescópios espaciais de astronomia, e Mercúrio é um alvo ingrato para todos eles. Telescópios espaciais que apontam para o céu profundo evitam olhar perto do Sol, porque a luz solar direta danifica instrumentos projetados para captar objetos fracos. Telescópios em solo enfrentam o crepúsculo e o horizonte.
Quase tudo o que se conhece em detalhe sobre a superfície de Mercúrio veio de sondas enviadas até lá, e não de telescópios. São elas que mapearam as crateras, mediram o campo magnético e identificaram os depósitos nas crateras polares permanentemente sombreadas. Uma foto de paisagem com um ponto brilhante não é pouco: é honestamente o que este tipo de instrumento consegue mostrar desse planeta.
Os números deste objeto
| Classificação | planeta do Sistema Solar |
|---|---|
| Identificação no acervo | solar:mercury |
| Distância | não se aplica: muda continuamente ao longo das órbitas |
| Tamanho aparente | variável, e sempre pequeno visto da Terra |
| Imagens no acervo | 2 |
O que reparar nesta imagem
- A posição perto do horizonteNas duas fotos Mercúrio aparece baixo, ainda dentro do brilho do crepúsculo. Essa é a condição normal de observação do planeta, e não uma escolha de enquadramento.
- O ponto sem discoMercúrio é um ponto de luz nas imagens. Nenhuma câmera de paisagem resolve o disco de um planeta pequeno a essa distância, e a ausência de detalhe é resultado esperado.
- O alinhamento de planetasNa imagem de 2013 há três planetas no mesmo quadro, agrupados no céu do fim de tarde. Alinhamentos assim são efeito de perspectiva, não de proximidade real entre os corpos.
- O céu ainda claroRepare que o fundo não está preto em nenhuma das duas fotos. Fotografar Mercúrio significa fotografar antes que a noite feche, porque depois disso ele já se pôs.
Dá para ver isso daqui?
Este é um dos poucos objetos do acervo que dá para encontrar a olho nu, em céu escuro. O que você vai ver é bem mais pálido e menor que a imagem: telescópios acumulam luz por horas, e o olho não.
Ver isto no céu de hoje
- Mercúrio está visível hoje?A que horas Mercúrio aparece esta noite na sua cidade, em que direção olhar e a que altura do horizonte.
- O céu de hoje na sua cidadeA linha do tempo da noite: pôr do sol, crepúsculos, a janela realmente escura e a previsão do tempo hora a hora.
O que ainda não se sabe
A origem do núcleo metálico desproporcionalmente grande de Mercúrio continua sem resposta consensual. As hipóteses principais envolvem um impacto gigante que teria arrancado boa parte do manto original, evaporação das camadas externas pela proximidade do Sol jovem, ou condições de formação que favoreceram o acúmulo de metal desde o início, e nenhuma delas explica todos os dados de composição obtidos por sondas. A natureza exata dos depósitos nas crateras polares permanentemente sombreadas, e quanto deles é gelo de água, também segue em investigação. Em escala de bilhões de anos, simulações do Sistema Solar indicam que a órbita de Mercúrio é a menos estável entre as dos planetas, com uma probabilidade pequena de desestabilização, resultado que depende de detalhes numéricos ainda discutidos.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
Perto do ponto de maior aproximação do Sol, Mercúrio avança na órbita mais depressa do que gira sobre o próprio eixo. Para quem estivesse na superfície, o Sol pararia no céu, andaria para trás por um período e depois retomaria o movimento normal.
Outras imagens deste objeto

Crédito Y. Beletsky (LCO)/ESO CC BY 4.0
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Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Júpiter
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Saturno
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Urano
Crédito NASA, ESA, CSA, STScI, J. DePasquale (STScI) ESA/Webb CC BY 4.0
- Netuno
Crédito NASA, ESA and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Marte
Crédito NASA, ESA, the Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (ASU), and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- Dá para ver Mercúrio a olho nu?
- Sim, mas exige planejamento. Mercúrio nunca se afasta mais que cerca de 28 graus do Sol no céu, então só aparece durante um intervalo curto logo após o pôr do sol ou pouco antes do nascer, sempre baixo no horizonte e contra um céu que ainda tem claridade. É preciso horizonte desobstruído na direção certa e saber a data em que o planeta está na melhor separação angular do Sol. Sem essas condições, o ponto se perde no crepúsculo.
- Por que Mercúrio não é o planeta mais quente?
- Porque não tem atmosfera para reter calor. Mercúrio recebe mais energia solar por metro quadrado que qualquer outro planeta, mas reirradia quase tudo de volta ao espaço, e o lado noturno esfria a temperaturas de centenas de graus negativos. Vênus, mais distante do Sol, tem uma atmosfera densa de gás carbônico que segura a radiação infravermelha e mantém a superfície em torno de 460 graus Celsius, de dia e de noite, no equador e nos polos.
- Quanto dura um dia em Mercúrio?
- Mercúrio gira três vezes sobre o próprio eixo a cada duas voltas em torno do Sol, uma ressonância estabelecida pelas forças de maré solares. O efeito é que o intervalo entre dois nasceres do Sol na superfície dura cerca de 176 dias terrestres, equivalente a dois anos mercurianos completos. Cada ponto do planeta fica aproximadamente 88 dias terrestres sob luz contínua e outros tantos em escuridão, o que ajuda a explicar a diferença extrema de temperatura entre os dois lados.
- Existe gelo em Mercúrio?
- Sim, e a aparente contradição tem explicação geométrica. O eixo de rotação de Mercúrio é quase perpendicular ao plano da órbita, de modo que o fundo de algumas crateras próximas aos polos nunca recebe luz solar direta. Nesses pontos permanentemente sombreados a temperatura permanece muito baixa, e observações de radar feitas da Terra e dados de sondas em órbita indicam depósitos compatíveis com gelo de água. Quanto material existe ali e de onde ele veio ainda estão em investigação.
- O que a órbita de Mercúrio provou sobre a relatividade?
- Medições do século 19 mostraram que o periélio de Mercúrio, o ponto da órbita mais próximo do Sol, avançava cerca de 43 segundos de arco por século a mais do que a gravitação de Newton previa, mesmo somando a influência de todos os outros planetas. A relatividade geral, apresentada por Albert Einstein em 1915, produziu exatamente esse valor a partir da própria estrutura da teoria, sem ajuste feito para o caso. Foi a primeira confirmação observacional dela.
- Mercúrio tem lua?
- Não. Mercúrio e Vênus são os únicos planetas do Sistema Solar sem satélite natural conhecido. No caso de Mercúrio, a proximidade do Sol torna a situação especialmente desfavorável: a gravidade solar domina a região em torno do planeta, e órbitas de satélites tendem a ser instáveis a longo prazo. Sondas que estiveram lá e décadas de observação não encontraram nenhum corpo em órbita, e a busca já cobriu tamanhos bem pequenos.
- Por que o acervo tem só duas imagens de Mercúrio?
- Porque o acervo reúne material publicado por observatórios ópticos e telescópios espaciais de astronomia, e Mercúrio é um alvo ingrato para os dois. Telescópios espaciais voltados ao céu profundo evitam apontar perto do Sol, sob risco de dano aos instrumentos. Telescópios em solo enfrentam o crepúsculo e o horizonte baixo. Quase tudo o que se conhece em detalhe sobre a superfície do planeta veio de sondas enviadas até lá, cujas imagens não fazem parte deste acervo.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
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Como citar esta página
ValorFinal. Mercúrio. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/mercurio. Consultado em: 23/08/2026.




