Planeta
Marte
O planeta mais estudado depois da Terra: frio, seco, com atmosfera rala e uma geologia que registra um passado bem mais úmido.

Crédito NASA, ESA, the Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (ASU), and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Tipo
- Planeta
- Observado por
- Hubble Space Telescope
- Imagem publicada
- maio de 2016
- Original do acervo
- 3.000 × 2.400 px7 megapixels
Marte é o quarto planeta a partir do Sol e o vizinho externo da Terra. Tem cerca de metade do nosso diâmetro, gravidade em torno de 38 por cento da terrestre e uma atmosfera de gás carbônico tão rala que a pressão na superfície fica abaixo de um centésimo da que sentimos ao nível do mar. Água líquida não sobrevive exposta ali.
A cor que dá nome a ele vem de óxidos de ferro na poeira que cobre quase toda a superfície. É ferrugem, no sentido químico literal. Essa poeira é fina o bastante para ser levantada por ventos e, em certas épocas, envolver o planeta em tempestades globais que apagam qualquer detalhe do solo por semanas.
O dia marciano dura pouco mais que o terrestre, cerca de 24 horas e 37 minutos, e a inclinação do eixo é parecida com a da Terra, o que dá a Marte estações bem marcadas. O ano dura 687 dias terrestres, então cada estação é quase duas vezes mais longa. Por ser um corpo do Sistema Solar, Marte não tem distância fixa em anos-luz nem tamanho aparente constante: os dois números mudam o tempo todo, e é justamente essa variação que organiza a observação do planeta.
Por que Marte muda tanto de tamanho
Porque a distância entre os dois planetas varia enormemente. Terra e Marte orbitam o Sol em períodos diferentes, e a Terra, por estar mais perto, dá voltas mais rápido. De tempos em tempos ela ultrapassa Marte, e nesse momento os dois ficam do mesmo lado do Sol e o mais próximos possível. Esse alinhamento se chama oposição.
O intervalo entre oposições consecutivas é de aproximadamente 26 meses. Nesses períodos o disco de Marte pode chegar perto de 25 segundos de arco de diâmetro aparente, enquanto na fase oposta do ciclo cai para menos de 4. A diferença separa a noite em que se vê a calota polar da noite em que se vê um pontinho alaranjado.
Nem toda oposição é igual, e isso surpreende quem começa a observar. A órbita de Marte é bem mais alongada que a da Terra, então a distância mínima de cada encontro depende de onde Marte está na própria órbita. Oposições que caem perto do ponto de maior aproximação ao Sol rendem discos sensivelmente maiores que as outras, e a diferença entre a melhor e a pior é grande o bastante para mudar o que um mesmo telescópio consegue mostrar.
O que a superfície de Marte registra
Marte guarda a maior montanha e o maior sistema de cânions do Sistema Solar. O Monte Olimpo é um vulcão em escudo com mais de 20 quilômetros de altura, quase três vezes o Everest medido do nível do mar. O Valles Marineris é uma fenda com milhares de quilômetros de comprimento, tão extensa que atravessaria um continente terrestre inteiro.
Esses gigantes existem por dois motivos ligados. A gravidade menor permite que estruturas cresçam mais antes de desabar sob o próprio peso. E Marte não tem tectônica de placas ativa, então a crosta não desliza sobre os pontos quentes do manto: um vulcão despeja lava sempre no mesmo lugar por centenas de milhões de anos, em vez de formar uma cadeia de ilhas como acontece na Terra.
A ausência de tectônica tem outro efeito, mais importante para a ciência do que o tamanho dos vulcões: o terreno antigo não é reciclado. Na Terra, quase toda a crosta primitiva já foi destruída e refeita. Em Marte, superfícies com bilhões de anos continuam expostas, com as crateras e os canais que se formaram nelas. O planeta funciona como arquivo de uma história que o nosso apagou.
Marte já teve água líquida
A evidência geológica é abundante e vem de direções independentes. Há leitos de rios secos com meandros, deltas fósseis onde um canal desagua numa bacia, minerais argilosos que só se formam em presença prolongada de água líquida e depósitos compatíveis com evaporação de lagos. Nenhum desses indícios se explica bem por outro processo, e a convergência entre eles é o que torna a conclusão sólida.
O que mudou foi a atmosfera. Marte é pequeno demais para segurar gás por bilhões de anos e perdeu cedo o campo magnético global que protegeria o ar do vento solar. Sondas em órbita mediram diretamente o escape de partículas atmosféricas para o espaço, o que confirma que o processo continua acontecendo hoje, em ritmo lento.
Com a atmosfera fina, a pressão caiu abaixo do limite em que água líquida é estável, e o que sobrou congelou. Existe muito gelo nas calotas polares e no subsolo de boa parte do planeta, detectado por radar e por sensores de nêutrons a bordo de orbitadores. A água não sumiu de Marte: ela mudou de estado e de lugar.
As tempestades de poeira globais
A poeira marciana é extremamente fina e a gravidade é baixa, o que faz com que grãos levantados demorem a assentar. Em certas condições, um sistema local de ventos levanta poeira, a poeira suspensa absorve luz do Sol, o ar em volta aquece, o aquecimento reforça o vento, e o processo se realimenta até cobrir hemisférios inteiros.
O acervo tem um registro claro disso: uma imagem do Hubble feita durante a oposição de 2018, divulgada com o planeta em plena atividade de tempestade. Comparada às imagens de 2016, mostra o mesmo mundo com as manchas escuras clássicas atenuadas ou apagadas pela poeira em suspensão.
Para quem observa da Terra, uma tempestade global é frustrante: o disco fica uniforme e sem detalhe justo na melhor época do ciclo. Para quem opera equipamento na superfície de Marte, é bem mais que frustrante, porque a poeira em suspensão corta drasticamente a luz que chega ao solo e cobre painéis solares. Esses episódios não acontecem em toda oposição, e prever quando vão acontecer continua difícil.
Por que o Hubble ainda fotografa Marte
Parece redundante fotografar de longe um planeta que tem sondas em órbita e veículos na superfície, mas as funções são diferentes. Um orbitador vê faixas estreitas do solo com resolução altíssima e leva tempo para cobrir o planeta inteiro. Um telescópio como o Hubble registra o disco completo de uma vez, sempre com os mesmos instrumentos e os mesmos filtros, o que permite comparar uma oposição com outra ao longo de décadas.
O acervo traz essa série: imagens de 1991 com a câmera WFPC1, de 1995 e 1997 com a WFPC2 e das oposições de 2016 e 2018 com a WFC3. Uma sequência assim registra mudanças sazonais nas calotas, o avanço e o recuo da poeira e a variação das manchas escuras, que mudam de contorno conforme o vento remove ou deposita material.
Os filtros usados merecem uma nota, porque os nomes confundem. Vários deles são batizados a partir de linhas de emissão típicas de nebulosas, e não têm nada a ver com a química de Marte. O que importa num planeta é a faixa de comprimento de onda que o filtro deixa passar. O canal ultravioleta em 275 nanômetros é o mais informativo do conjunto: nessa faixa, nuvens e neblina de gelo aparecem com contraste muito maior do que em luz visível, enquanto o solo fica escuro.
Os números deste objeto
| Tipo | planeta do Sistema Solar |
|---|---|
| Duração do dia | cerca de 24 horas e 37 minutosconsenso científico |
| Duração do ano | 687 dias terrestresconsenso científico |
| Gravidade na superfície | cerca de 38% da terrestreconsenso científico |
| Luas | duas, Fobos e Deimos |
| Intervalo entre oposições | aproximadamente 26 mesesconsenso científico |
| Diâmetro aparente | de menos de 4 a cerca de 25 segundos de arcovaria com a posição das órbitas |
| Distância | não se aplica em anos-luzcorpo do Sistema Solar, distância variável |
| Imagens no acervo | 12 |
O que reparar nesta imagem
- A calota polar brancaGelo de água e de gás carbônico congelado. O tamanho dela muda ao longo do ano marciano, e a variação é perceptível entre temporadas.
- As manchas escurasNão são mares nem vegetação, ao contrário do que se imaginou por séculos. São regiões onde o vento removeu a poeira clara e expôs rocha escura.
- O tamanho do disco entre imagensCompare fotos de anos diferentes. O planeta parece mudar de tamanho porque a distância entre Terra e Marte varia muito ao longo do ciclo de 26 meses.
- O contraste da imagem de 2018Na oposição de 2018 uma tempestade de poeira cobria o planeta. Compare com as imagens de 2016 e veja as manchas escuras apagadas pela poeira em suspensão.
Por que esta imagem tem essas cores
Estas cores não são as que seus olhos veriam. Parte da luz registrada está fora da faixa visível, então cada filtro recebeu uma cor para que a informação pudesse aparecer numa tela.
ultravioletainfravermelho e ondas de rádio
- Roxoluz visível · WFC3 · U275 nminvisível ao olho
- Azulluz visível · WFC3 · v410 nmolho enxerga
- Verdeluz visível · WFC3 · OIII502 nmolho enxerga
- Vermelholuz visível · WFC3 · SII673 nmolho enxerga
Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio ESA/Hubble junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.
Dá para ver isso daqui?
Este é um dos poucos objetos do acervo que dá para encontrar a olho nu, em céu escuro. O que você vai ver é bem mais pálido e menor que a imagem: telescópios acumulam luz por horas, e o olho não.
Ver isto no céu de hoje
- Marte está visível hoje?A que horas Marte aparece esta noite na sua cidade, em que direção olhar e a que altura do horizonte.
- O céu de hoje na sua cidadeA linha do tempo da noite: pôr do sol, crepúsculos, a janela realmente escura e a previsão do tempo hora a hora.
O que ainda não se sabe
Se Marte abrigou ou abriga vida microbiana continua sem resposta, e é a principal motivação das missões que coletam amostras. Também seguem em disputa o volume de água que existiu na superfície, o tempo que ela permaneceu líquida e o destino do carbono da atmosfera antiga, que pode ter escapado para o espaço, ficado preso em minerais ou os dois. Outro problema em aberto é a previsão das tempestades globais de poeira, que não ocorrem em toda oposição e cujo gatilho ainda não é compreendido.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
As manchas escuras de Marte foram interpretadas como mares por observadores de séculos passados, e mapas do planeta chegaram a incluir redes de canais desenhadas a partir do que se acreditava enxergar no limite da resolução. Nenhum desses canais existe: eram artefatos da atmosfera terrestre e da expectativa de quem observava, e o episódio virou o exemplo clássico de como o olho completa o que o instrumento não resolve.
Outras imagens deste objeto

Crédito NASA, ESA, and STScI ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, the Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (ASU), and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and The Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0

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Crédito NASA, ESA, and The Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and The Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and The Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, The Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (Cornell University) and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, The Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (Cornell University) and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, the Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (Cornell University), and M. Wolff (Space Science Institute, Boulder) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA/ESA, J. Bell (Cornell U.), and M. Wolff (Space Science Inst.) Additional image processing and analysis support from: K. Noll and A. Lubenow (STScI); M. Hubbard (Cornell U.); R. Morris (NASA/JSC); P. James (U. Toledo); S. Lee (U. Colorado); T. Clancy, B. Whitney and G. Videen (SSI); and Y. Shkuratov (Kharkov U.) ESA/Hubble CC BY 4.0
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Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Júpiter
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Saturno
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Urano
Crédito NASA, ESA, CSA, STScI, J. DePasquale (STScI) ESA/Webb CC BY 4.0
- Netuno
Crédito NASA, ESA and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Vênus
Crédito Z. Bardon (bardon.cz)/ESO CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- Quando é a melhor época para observar Marte?
- Nas semanas em torno de uma oposição, quando Terra e Marte ficam do mesmo lado do Sol e à menor distância do ciclo. Isso acontece a cada 26 meses aproximadamente. Fora dessas janelas o planeta continua visível a olho nu como um ponto alaranjado, mas o disco fica pequeno demais para mostrar qualquer detalhe em telescópio. Oposições que caem com Marte perto do Sol rendem discos maiores que as demais.
- Dá para ver detalhes de Marte com telescópio pequeno?
- Perto da oposição, sim, dentro de limites. Um telescópio de abertura modesta em noite de ar estável mostra a calota polar branca e as principais manchas escuras de Marte. O que não aparece é relevo: nem o Monte Olimpo nem o Valles Marineris são identificáveis, porque altura não vira contraste de brilho a essa distância. Se houver tempestade de poeira global, o disco fica uniforme e nada aparece.
- Por que Marte é vermelho?
- Marte é vermelho por causa de óxidos de ferro na poeira que cobre a superfície, quimicamente aparentados com a ferrugem comum. O ferro presente nas rochas reagiu com oxigênio ao longo de bilhões de anos, e o produto dessa reação absorve a luz azul e reflete a vermelha. A poeira está espalhada por quase todo o planeta e é constantemente redistribuída pelo vento, o que uniformiza a cor vista de longe.
- Existe água líquida em Marte hoje?
- Não de forma estável na superfície. A pressão atmosférica de Marte é baixa demais, então água exposta evapora ou congela rapidamente. O que existe em abundância é gelo, nas calotas polares e no subsolo de boa parte do planeta, detectado por radar e por sensores a bordo de orbitadores. Há indícios discutidos de salmouras temporárias em encostas, mas a interpretação continua sendo debatida.
- Marte tem estações do ano?
- Sim, e por motivo parecido com o da Terra: o eixo de rotação de Marte é inclinado em relação ao plano da órbita, então cada hemisfério recebe mais ou menos luz conforme o planeta avança. A diferença é a duração. Como o ano marciano tem 687 dias terrestres, cada estação dura quase o dobro. A órbita alongada também torna as estações desiguais entre si, com um hemisfério recebendo verões mais intensos e curtos.
- O que é uma ocultação de Marte?
- É quando a Lua passa na frente do planeta, vista de uma região específica da Terra, e o esconde por alguns minutos. O acervo traz o registro de um evento assim, feito de um observatório em Kitt Peak. O evento é útil além do espetáculo: como a borda da Lua é nítida e a posição dela é conhecida com precisão, o instante em que Marte some e reaparece serve para refinar medidas de posição.
- Por que o Hubble ainda fotografa Marte se existem sondas em órbita?
- Porque as duas coisas respondem a perguntas diferentes. Sondas em órbita de Marte veem faixas estreitas do solo com resolução altíssima e demoram a cobrir o planeta inteiro. O Hubble registra o disco completo de uma vez, com os mesmos instrumentos e filtros ao longo de décadas, o que permite comparar oposições distantes no tempo e acompanhar mudanças sazonais nas calotas, na poeira e nas nuvens.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
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Como citar esta página
ValorFinal. Marte. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/marte. Consultado em: 23/08/2026.




