Planeta
Urano
O planeta que gira deitado, com estações de vinte e um anos e a atmosfera mais fria de todo o Sistema Solar.

Crédito NASA, ESA, CSA, STScI, J. DePasquale (STScI) ESA/Webb CC BY 4.0
- Tipo
- Planeta
- Observado por
- James Webb Space Telescope, Hubble Space Telescope, Voyager 2
- Imagem publicada
- abril de 2023
- Original do acervo
- 3.635 × 3.169 px12 megapixels
Veja Urano pelo Hubble e pelo James Webb
Os dois fotografaram este objeto, e o resultado não é a mesma imagem em qualidade diferente. O Hubble registra sobretudo a luz que o olho enxerga; o Webb enxerga infravermelho, que atravessa a poeira e mostra o que estava escondido atrás dela. Arraste a divisória e veja a poeira sumir.
Comparar as duas imagens
Crédito ESA/Hubble & NASA, L. Lamy / Observatoire de Paris ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, CSA, STScI, J. DePasquale (STScI) ESA/Webb CC BY 4.0
Urano é o sétimo planeta a partir do Sol e o primeiro que a humanidade descobriu com telescópio. Antes dele, os planetas conhecidos eram apenas os visíveis a olho nu, e o Sistema Solar terminava em Saturno. William Herschel o identificou em 1781, e essa data marca o momento em que o Sistema Solar deixou de ter um limite fixo herdado da Antiguidade.
Ele pertence à categoria dos gigantes de gelo, junto com Netuno. A palavra gelo aqui não se refere a água congelada no sentido cotidiano, e sim a compostos como água, amônia e metano em estados de alta pressão no interior do planeta. É uma composição diferente da de Júpiter e Saturno, que são dominados por hidrogênio e hélio, e essa diferença aparece na cor, na temperatura e na estrutura interna.
A característica que mais chama atenção é a inclinação. O eixo de rotação de Urano está tombado cerca de 98 graus, ou seja, ele gira essencialmente deitado em relação ao plano da órbita. Como uma volta completa em torno do Sol leva 84 anos terrestres, cada polo passa cerca de vinte e um anos sob luz contínua e depois vinte e um anos de escuridão total.
Por que Urano gira deitado?
Não há resposta consolidada. A hipótese mais discutida atribui a inclinação a uma colisão com um corpo do tamanho de um planeta durante a formação do Sistema Solar, capaz de tombar o eixo de uma só vez. Ela explica o resultado, mas tem dificuldade com um detalhe: as luas de Urano orbitam alinhadas com o equador tombado do planeta, o que exige que o sistema inteiro tenha sido reorganizado depois do impacto.
Uma alternativa envolve uma sequência de impactos menores ou processos de migração e ressonância durante a época em que os planetas gigantes ainda estavam se acomodando em suas órbitas. Cada cenário deixa assinaturas diferentes na distribuição das luas e na estrutura interna, e é justamente essa comparação que mantém a discussão viva.
A consequência observável é o regime de estações mais extremo do Sistema Solar. Perto do solstício, um hemisfério inteiro fica voltado para o Sol e o outro fica em noite permanente. Perto do equinócio, o planeta é iluminado de forma mais parecida com a dos outros mundos, e a atmosfera responde a isso com mais atividade visível.
Por que Urano é azul-esverdeado?
A cor vem do metano presente na atmosfera superior. Moléculas de metano absorvem com eficiência a luz na faixa do vermelho e do infravermelho próximo, e devolvem o restante. O que sobra depois dessa absorção é dominado por azul e verde, e é isso que chega até nós.
Vale notar que a cor não indica temperatura nem composição majoritária. A atmosfera de Urano é feita sobretudo de hidrogênio e hélio, exatamente como a de Júpiter, e o metano é um componente minoritário. Um constituinte em pequena proporção define a aparência do planeta inteiro porque atua justamente nos comprimentos de onda que o olho humano usa.
A comparação com Netuno é útil. Os dois têm quantidades parecidas de metano, e mesmo assim Netuno aparece num azul mais intenso. A explicação apontada por trabalhos recentes envolve uma camada de neblina mais espessa em Urano, que espalha luz e clareia o tom geral.
Por que a Voyager 2 viu um planeta sem feições?
A única sonda que passou por Urano chegou lá em 1986, e o momento não poderia ter sido menos favorável para fotografar dinâmica atmosférica. O planeta estava perto do solstício, com um polo apontado quase diretamente para o Sol, e o disco visível se apresentava como uma esfera azul-esverdeada quase sem estrutura.
Isso criou uma reputação injusta de planeta monótono, que durou anos. Conforme Urano se aproximou do equinócio, observações do Hubble e de grandes telescópios de solo passaram a registrar tempestades brilhantes, bandas e mudanças sazonais na calota polar. O planeta não era sem graça; ele estava numa fase específica de um ciclo de 84 anos.
É um lembrete útil sobre amostragem. Uma passagem única por um planeta com estações de duas décadas equivale a fotografar a Terra num único dia e concluir alguma coisa sobre o clima do ano inteiro.
O que o James Webb enxerga em Urano?
As imagens do Webb no acervo usam filtros em torno de 1.400 e 3.000 nanômetros, no infravermelho próximo. Nessa faixa a absorção pelo metano funciona de forma diferente do visível, e o resultado é um planeta com contraste muito maior: aparece uma calota polar clara e bem definida, além de nuvens localizadas.
A calota é uma característica sazonal. Ela se forma quando um polo passa a receber luz solar contínua e envolve mudanças na composição e na neblina da alta atmosfera daquele hemisfério. Acompanhar como ela cresce e some ao longo das décadas é uma das formas de estudar a resposta atmosférica ao ciclo de estações extremo.
As mesmas observações registram os anéis de Urano, que são estreitos, escuros e completamente diferentes dos de Saturno. Eles foram descobertos em 1977 por um método indireto: ao passar em frente a uma estrela, o planeta fez a estrela piscar várias vezes antes e depois da ocultação principal, o que só se explicava por anéis estreitos bloqueando a luz.
Por que as auroras de Urano ficam fora do lugar?
Na Terra, as auroras acontecem em anéis em torno dos polos magnéticos, que ficam razoavelmente próximos dos polos geográficos. Em Urano isso não vale. O campo magnético do planeta é fortemente inclinado em relação ao eixo de rotação e ainda por cima está deslocado do centro do planeta.
O resultado é que as regiões de aurora aparecem em posições que parecem arbitrárias no disco, e mudam de lugar conforme o planeta gira. As imagens em ultravioleta do Hubble no acervo registram esses clarões, que só foram detectados com dificuldade porque são fracos e o planeta está longe.
Um campo magnético assim desalinhado indica que ele não é gerado por um núcleo metálico central, como o da Terra, e sim por movimentos em uma camada fluida relativamente rasa, provavelmente uma mistura condutora de água e amônia sob alta pressão. A geometria do campo é, portanto, uma pista sobre o interior que nenhum instrumento consegue ver diretamente.
O que reparar nesta imagem
- A calota polar claraNas imagens em infravermelho aparece uma região brilhante e bem delimitada num dos polos. É uma feição sazonal ligada ao hemisfério que está recebendo luz solar contínua.
- Os anéis estreitos e escurosDiferente dos anéis largos e brilhantes de Saturno, os de Urano são finos e refletem pouca luz. Só aparecem em imagens com sensibilidade e resolução adequadas.
- Os pontos ao redor do discoVários pontinhos em volta do planeta são luas, não estrelas de fundo. As versões anotadas do acervo identificam quais são quais.
- A diferença entre visível e infravermelhoNo visível o disco é quase liso; no infravermelho próximo surgem calota, nuvens e anéis. A estrutura sempre esteve lá: o que muda é o comprimento de onda observado.
Por que esta imagem tem essas cores
Estas cores não são as que seus olhos veriam. Parte da luz registrada está fora da faixa visível, então cada filtro recebeu uma cor para que a informação pudesse aparecer numa tela.
ultravioletainfravermelho e ondas de rádio
- Azulinfravermelho · NIRCam1,4 µminvisível ao olho
- Laranjainfravermelho · NIRCam3 µminvisível ao olho
Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio ESA/Webb junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.
Dá para ver isso daqui?
Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.
Ver isto no céu de hoje
- Urano está visível hoje?A que horas Urano aparece esta noite na sua cidade, em que direção olhar e a que altura do horizonte.
- O céu de hoje na sua cidadeA linha do tempo da noite: pôr do sol, crepúsculos, a janela realmente escura e a previsão do tempo hora a hora.
O que ainda não se sabe
Urano emite muito pouco calor interno, o que o distingue de Netuno e de todos os outros planetas gigantes e não tem explicação aceita. Também segue sem resposta a origem da inclinação extrema do eixo, com o cenário de impacto gigante enfrentando dificuldades para explicar o alinhamento das luas. A estrutura interna é outro ponto em aberto: modelos discutem se existe uma camada de água em estado exótico sob altíssima pressão, e a geometria estranha do campo magnético continua sendo a principal pista indireta sobre o que existe lá dentro.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
As luas de Urano são as únicas do Sistema Solar batizadas com personagens de literatura em vez de mitologia. Os nomes vêm de peças de Shakespeare e de poemas de Alexander Pope, uma tradição iniciada pelo filho de William Herschel e mantida desde então.
Outras imagens deste objeto

Crédito ESA/Webb, NASA, CSA, STScI, P. Tiranti, H. Melin, M. Zamani (ESA/Webb) ESA/Webb CC BY 4.0

Crédito ESA/Hubble & NASA, L. Lamy / Observatoire de Paris ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, CSA, STScI, J. DePasquale (STScI) ESA/Webb CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, A.A. Simon (NASA Goddard), and M.H. Wong and A.I. Hsu (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) and the OPAL team ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito Erich Karkoschka (University of Arizona) and NASA/ESA ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, L. Sromovsky and P. Fry (University of Wisconsin), H. Hammel (Space Science Institute), and K. Rages (SETI Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, L. Sromovsky and P. Fry (University of Wisconsin), H. Hammel (Space Science Institute), and K. Rages (SETI Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, L. Sromovsky (University of Wisconsin, Madison), H. Hammel (Space Science Institute), and K. Rages (SETI) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito Heidi Hammel (Massachusetts Institute of Technology), and NASA/ESA ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito Heidi Hammel (Massachusetts Institute of Technology), and NASA/ESA ESA/Hubble CC BY 4.0
Baixar esta imagem
A licença CC BY 4.0 permite usar a imagem, inclusive comercialmente, desde que o crédito apareça inteiro e visível junto dela. Copie o crédito acima junto com o arquivo.
Continue explorando
Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Júpiter
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Saturno
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Netuno
Crédito NASA, ESA and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Marte
Crédito NASA, ESA, the Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (ASU), and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Vênus
Crédito Z. Bardon (bardon.cz)/ESO CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- Por que Urano gira de lado?
- Não há explicação consolidada. A hipótese mais discutida é uma colisão com um corpo do tamanho de um planeta durante a formação do Sistema Solar, capaz de tombar o eixo de uma vez só. Ela tem uma dificuldade: as luas de Urano orbitam alinhadas com o equador tombado, o que exigiria que todo o sistema fosse reorganizado depois do impacto. Cenários alternativos envolvem múltiplos impactos menores ou efeitos de migração orbital na juventude do Sistema Solar.
- Quanto dura um ano e uma estação em Urano?
- Uma órbita completa em torno do Sol leva cerca de 84 anos terrestres. Como o eixo está inclinado aproximadamente 98 graus, cada estação dura em torno de vinte e um anos. Isso significa que um polo passa cerca de duas décadas sob luz solar contínua e depois duas décadas em escuridão total. É o regime sazonal mais extremo entre os planetas, e explica por que uma única visita de sonda dá uma impressão muito parcial do planeta.
- Por que Urano é azul-esverdeado e Netuno é azul mais intenso?
- A cor dos dois vem do metano na atmosfera superior, que absorve luz vermelha e infravermelha e devolve o restante, dominado por azul e verde. Os dois planetas têm quantidades parecidas de metano, e a diferença de tom é atribuída a uma camada de neblina mais espessa em Urano, que espalha luz e clareia o resultado. O metano é apenas um componente minoritário: a atmosfera dos dois é feita majoritariamente de hidrogênio e hélio.
- Quantas sondas visitaram Urano?
- Apenas uma. A Voyager 2 passou pelo planeta em 1986 e continua sendo a única fonte de dados obtidos de perto. A visita aconteceu perto do solstício, com um polo voltado quase diretamente para o Sol, e o disco apareceu praticamente sem feições, o que criou a reputação injusta de planeta monótono. Observações posteriores do Hubble, de grandes telescópios de solo e do James Webb mostraram tempestades, bandas e mudanças sazonais.
- Urano tem anéis?
- Tem, e foram descobertos em 1977 por um método indireto. Ao passar em frente a uma estrela, o planeta fez a estrela piscar várias vezes antes e depois da ocultação principal, e a única explicação compatível eram anéis estreitos bloqueando a luz. Diferente dos anéis de Saturno, que são largos e brilhantes, os de Urano são finos, escuros e refletem pouca luz. Eles aparecem com clareza nas imagens em infravermelho do James Webb.
- Urano é o planeta mais frio do Sistema Solar?
- A atmosfera de Urano registra as temperaturas mais baixas já medidas em um planeta do Sistema Solar, mais baixas até que as de Netuno, que está bem mais longe do Sol. A razão é que Urano emite pouquíssimo calor interno, ao contrário dos outros planetas gigantes, que ainda liberam energia remanescente da formação. Por que Urano perdeu esse calor interno, ou nunca o teve na mesma proporção, continua sem explicação aceita.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
Continue explorando
Como citar esta página
ValorFinal. Urano. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/urano. Consultado em: 23/08/2026.




