Planeta
Vênus
O planeta mais parecido com a Terra em tamanho e o mais hostil que se conhece: cerca de 460 graus na superfície, sob nuvens de ácido sulfúrico.

Crédito Z. Bardon (bardon.cz)/ESO CC BY 4.0
- Tipo
- Planeta
- Observado por
- Hubble Space Telescope
- Imagem publicada
- fevereiro de 2023
- Original do acervo
- 6.000 × 4.184 px25 megapixels
Vênus é o segundo planeta a partir do Sol e o vizinho mais próximo da Terra em tamanho, massa e densidade. As semelhanças param aí. A superfície fica a cerca de 460 graus Celsius, quente o bastante para derreter chumbo, sob uma atmosfera de gás carbônico que exerce pressão perto de noventa vezes a da atmosfera terrestre ao nível do mar. As nuvens que cobrem o planeta inteiro são de ácido sulfúrico.
No céu, Vênus é o objeto mais brilhante depois do Sol e da Lua. Como a órbita dele é interna à da Terra, ele nunca aparece longe do Sol: surge no fim da tarde a oeste ou antes do amanhecer a leste, o que rendeu os apelidos de estrela vespertina e estrela matutina. Também por ser interno, mostra fases como a Lua, fato observado por Galileu no início do século 17 e que se tornou um argumento contra o modelo geocêntrico.
As cinco imagens do acervo mostram esse caráter duplo. Duas são fotografias de paisagem noturna feitas em observatórios do ESO, com Vênus como um ponto muito brilhante acima dos telescópios. Uma é uma observação do Hubble de 1995, registrando o topo das nuvens do planeta. Outra é uma montagem que combina observações de Marte e de Vênus. E a última é uma ilustração artística do trânsito de 1882, marcada como tal, porque não é registro do céu.
Por que Vênus é tão quente?
A resposta curta é efeito estufa desenfreado. A atmosfera de Vênus é composta majoritariamente de gás carbônico, molécula que deixa passar a luz visível do Sol mas absorve com eficiência a radiação infravermelha que a superfície aquecida devolve. A energia entra e tem dificuldade para sair, e o equilíbrio térmico se estabelece a uma temperatura muito acima da que a distância do Sol sozinha explicaria.
O detalhe que fecha o raciocínio é a comparação com Mercúrio. Mercúrio está bem mais perto do Sol e recebe muito mais energia por metro quadrado, e ainda assim a superfície de Vênus é mais quente. A diferença não está na distância, está na atmosfera: Mercúrio praticamente não tem uma, e por isso irradia de volta ao espaço quase tudo o que recebe, esfriando drasticamente durante a noite. Em Vênus, a temperatura é quase a mesma de dia e de noite, e quase a mesma no equador e nos polos.
Como o planeta chegou a esse estado é outra história, e menos resolvida. O cenário mais discutido envolve água que existiu em algum momento, evaporou, subiu na atmosfera, foi quebrada pela radiação solar e escapou, deixando para trás um planeta seco em que o gás carbônico se acumulou sem o mecanismo de remoção que na Terra depende de água líquida e de rochas. Quando isso aconteceu, e se houve mesmo oceanos, continua em discussão.
Por que o dia em Vênus é mais longo que o ano?
Vênus gira sobre o próprio eixo em cerca de 243 dias terrestres e completa uma volta em torno do Sol em cerca de 225. A rotação, portanto, demora mais que a translação: um dia sideral venusiano é mais longo que um ano venusiano. Nenhum outro planeta do Sistema Solar tem essa característica.
A rotação também acontece no sentido contrário ao da maioria. Vista de cima do polo norte do Sistema Solar, quase todos os planetas giram no mesmo sentido em que orbitam. Vênus gira ao contrário, o que os astrônomos chamam de rotação retrógrada. Uma consequência curiosa é que, para um observador na superfície, o Sol nasceria a oeste e se poria a leste, ainda que atravessar a camada de nuvens fosse impossível para qualquer observador.
Combinando rotação e translação, o intervalo entre dois meios-dias na superfície fica em torno de 117 dias terrestres, bem menor que a rotação sideral, porque o planeta se desloca em órbita enquanto gira. A atmosfera, por sua vez, não acompanha nada disso: as camadas altas de nuvem dão a volta no planeta em poucos dias terrestres, um fenômeno chamado de superrotação atmosférica, cujo mecanismo de manutenção continua sendo modelado.
O que se enxerga nas nuvens de Vênus?
Em luz visível, quase nada. O planeta aparece como um disco de brilho uniforme, esbranquiçado ou levemente amarelado, sem detalhe. A camada de nuvens é espessa, contínua e muito reflexiva, o que explica ao mesmo tempo o brilho intenso no céu e a ausência de estrutura visível. Nenhum telescópio óptico enxerga a superfície: ela nunca foi vista de fora em luz visível, e os mapas do relevo venusiano vieram de radar.
No ultravioleta a história muda. Nessa faixa surgem faixas escuras e padrões que se movem, revelando a circulação das camadas altas. A causa do contraste é uma substância presente nas nuvens que absorve ultravioleta de forma seletiva, e a identidade química dela nunca foi estabelecida com segurança. Décadas de propostas se acumularam sem que uma delas fechasse a questão.
A observação do Hubble de 1995 que consta do acervo registra justamente o topo dessas nuvens. Observações espaciais desse tipo se justificam porque a atmosfera terrestre absorve boa parte do ultravioleta antes que ele chegue ao solo. O acervo traz ainda uma montagem que reúne registros de Marte e de Vênus feitos na mesma época, num acompanhamento da meteorologia dos dois planetas.
O que foi o trânsito de Vênus de 1882?
Um trânsito acontece quando Vênus passa exatamente entre a Terra e o Sol e aparece como um pequeno disco escuro cruzando o disco solar. O alinhamento é raro porque a órbita de Vênus é levemente inclinada em relação à da Terra: na maioria das conjunções, o planeta passa acima ou abaixo do Sol visto daqui.
Os trânsitos ocorrem em pares separados por oito anos, e cada par é seguido por um intervalo de mais de um século. Aconteceram em 1874 e 1882, depois em 2004 e 2012. O próximo só acontece em 2117. Quem viu os dois últimos viu tudo o que essa geração verá.
A importância histórica dos trânsitos do século 19 foi prática. Observado de dois pontos distantes da Terra, o mesmo trânsito começa e termina em instantes ligeiramente diferentes, e essa diferença permite calcular por triangulação a escala do Sistema Solar, ou seja, o valor da distância média entre a Terra e o Sol. Expedições foram enviadas a lugares remotos com esse único propósito. A ilustração do trânsito de 1882 no acervo é obra artística, e vem rotulada como tal.
Por que não existe distância fixa até Vênus?
As páginas de objetos distantes deste acervo trazem uma distância em anos-luz porque estrelas e galáxias, na escala de uma vida humana, não mudam de posição de forma perceptível. Com planetas é diferente. Vênus e a Terra percorrem órbitas próprias, com períodos diferentes, e a separação entre os dois muda todo dia.
A variação não é pequena. Quando os dois planetas estão do mesmo lado do Sol, Vênus é o corpo mais próximo da Terra depois da Lua. Quando estão em lados opostos, a distância passa a incluir o diâmetro inteiro das duas órbitas. Por isso o tamanho aparente do disco de Vênus muda por um fator próximo de seis ao longo de um ciclo, coisa que nenhum objeto do céu profundo faz.
Há um efeito contraintuitivo nisso. Vênus não é mais brilhante quando está mais perto, porque nessa configuração ele mostra para nós quase só o lado noturno, como uma Lua nova. Nem quando está totalmente iluminado, porque aí está longe e pequeno. O brilho máximo acontece num meio-termo, com o planeta em fase de foice, relativamente próximo e ainda com área iluminada suficiente.
Os números deste objeto
| Classificação | planeta do Sistema Solar |
|---|---|
| Identificação no acervo | solar:venus |
| Distância | não se aplica: muda continuamente ao longo das órbitas |
| Tamanho aparente | variável: o disco muda de tamanho por um fator próximo de seis |
| Imagens no acervo | 5 |
O que reparar nesta imagem
- O ponto sem disco nas fotos de paisagemNas imagens feitas do solo em observatórios do ESO, Vênus é apenas um ponto muito brilhante. A ausência de disco não é falha da foto: é o que qualquer câmera registra sem ampliação.
- A uniformidade do discoNa observação do Hubble o planeta aparece quase sem detalhe. A camada de nuvens é contínua e muito reflexiva, e em luz visível ela esconde tudo o que existe abaixo, inclusive a superfície.
- O rótulo da ilustraçãoA imagem do trânsito de 1882 é obra artística, não fotografia. O acervo declara isso porque a diferença entre registro do céu e representação é o tipo de coisa que não pode ficar implícita.
- A companhia na foto de conjunçãoNuma das imagens de La Silla, Vênus divide o quadro com outros planetas alinhados no crepúsculo. A mesma fotografia aparece também na página de Mercúrio.
Dá para ver isso daqui?
Este é um dos poucos objetos do acervo que dá para encontrar a olho nu, em céu escuro. O que você vai ver é bem mais pálido e menor que a imagem: telescópios acumulam luz por horas, e o olho não.
Ver isto no céu de hoje
- Vênus está visível hoje?A que horas Vênus aparece esta noite na sua cidade, em que direção olhar e a que altura do horizonte.
- O céu de hoje na sua cidadeA linha do tempo da noite: pôr do sol, crepúsculos, a janela realmente escura e a previsão do tempo hora a hora.
O que ainda não se sabe
A identidade da substância que absorve ultravioleta nas nuvens de Vênus continua desconhecida depois de décadas de propostas, e é ela que produz os padrões escuros vistos nessa faixa. Também segue em disputa se o planeta chegou a ter água líquida em superfície e, em caso afirmativo, quando o efeito estufa desenfreado se instalou. A existência de vulcanismo ativo hoje ganhou defensores a partir de reanálises de dados de radar antigos, mas não há confirmação direta. E a detecção de fosfina na atmosfera anunciada em 2020, que chegou a ser discutida como possível assinatura biológica, foi contestada por reanálises independentes e não está estabelecida.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
Vênus leva mais tempo para girar sobre o próprio eixo do que para dar uma volta completa em torno do Sol. E gira no sentido contrário ao da maioria dos planetas, de modo que, se fosse possível enxergar o Sol através das nuvens, ele nasceria a oeste.
Outras imagens deste objeto

Crédito Y. Beletsky (LCO)/ESO CC BY 4.0

Crédito L. Esposito (University of Colorado, Boulder), and NASA/ESA ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito U.S. Naval Observatory ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA & ESA ESA/Hubble CC BY 4.0
Baixar esta imagem
A licença CC BY 4.0 permite usar a imagem, inclusive comercialmente, desde que o crédito apareça inteiro e visível junto dela. Copie o crédito acima junto com o arquivo.
Continue explorando
Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Júpiter
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Saturno
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Urano
Crédito NASA, ESA, CSA, STScI, J. DePasquale (STScI) ESA/Webb CC BY 4.0
- Netuno
Crédito NASA, ESA and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Marte
Crédito NASA, ESA, the Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (ASU), and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- Por que Vênus é mais quente que Mercúrio?
- Vênus é mais quente porque tem atmosfera e Mercúrio praticamente não tem. A atmosfera venusiana é composta majoritariamente de gás carbônico, que deixa passar a luz visível do Sol e absorve a radiação infravermelha devolvida pela superfície, retendo energia. O resultado é uma temperatura em torno de 460 graus Celsius, quase igual de dia e de noite. Mercúrio recebe muito mais energia por estar mais perto do Sol, mas irradia quase tudo de volta ao espaço e esfria drasticamente no lado noturno.
- Por que Vênus brilha tanto no céu?
- Por três motivos somados. Vênus é coberto por uma camada contínua de nuvens muito reflexiva, que devolve ao espaço grande parte da luz solar recebida. Está relativamente perto da Terra, mais que qualquer outro planeta em determinadas configurações. E orbita mais perto do Sol que nós, recebendo mais luz para refletir. A combinação faz dele o objeto mais brilhante do céu depois do Sol e da Lua, visível mesmo sobre cidades iluminadas.
- Dá para ver Vênus durante o dia?
- Sim, embora exija paciência e um céu bem limpo. Nos períodos de brilho máximo, Vênus é intenso o suficiente para ser localizado com o céu claro, geralmente com a ajuda de um ponto de referência ou de um instrumento apontado por coordenadas. O maior obstáculo é encontrar um ponto de luz num fundo azul uniforme, sem nada em volta que oriente o olho. Uma vez localizado, ele costuma continuar visível enquanto se souber onde olhar.
- Por que Vênus tem fases como a Lua?
- Porque a órbita de Vênus é interna à da Terra, então vemos o planeta iluminado pelo Sol em ângulos que variam ao longo do ciclo. Quando ele está do lado oposto do Sol, aparece quase cheio e pequeno; quando se aproxima de nós, mostra sobretudo o lado noturno e vira uma foice fina e grande. Galileu observou essas fases no início do século 17, e elas se tornaram um argumento importante contra o modelo em que tudo giraria em torno da Terra.
- Quando será o próximo trânsito de Vênus?
- O próximo acontece em 2117. Trânsitos de Vênus, quando o planeta cruza o disco do Sol visto da Terra, ocorrem em pares separados por oito anos, e cada par é seguido por mais de um século de espera. Os últimos foram em 2004 e 2012, e antes deles em 1874 e 1882. No século 19 esses eventos tiveram importância prática: observados de pontos distantes da Terra, permitiam calcular por triangulação a distância entre a Terra e o Sol.
- Vênus tem lua?
- Não. Vênus e Mercúrio são os únicos planetas do Sistema Solar sem nenhum satélite natural conhecido, apesar de séculos de buscas e, mais recentemente, de sondas em órbita que teriam detectado qualquer corpo de tamanho relevante. No século 17 e no 18 houve relatos de uma suposta lua venusiana, batizada de Netuno em alguns registros da época, mas nenhuma das observações se confirmou e hoje elas são atribuídas a reflexos e a estrelas de fundo.
- Por que Vênus é chamado de planeta gêmeo da Terra?
- Por causa do tamanho e da massa. O diâmetro de Vênus é próximo do terrestre, a massa e a densidade também, e os dois planetas se formaram na mesma região do Sistema Solar, com composição rochosa parecida. A semelhança termina na superfície: pressão perto de noventa vezes a terrestre, temperatura em torno de 460 graus Celsius, atmosfera de gás carbônico e nuvens de ácido sulfúrico. A comparação é útil justamente por mostrar como dois planetas parecidos podem terminar tão diferentes.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
Continue explorando
Como citar esta página
ValorFinal. Vênus. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/venus. Consultado em: 23/08/2026.




