Galáxia
Galáxia do Escultor
Galáxia espiral quase de perfil a 10,4 milhões de anos-luz, com um núcleo formando estrelas em ritmo alto e um vento de gás quente saindo do disco.

- Tipo
- GaláxiaSIMBAD: SyG
- Distância
- 10,4 milhões de anos-luzpublicadores declaram de 10 milhões de a 13 milhões de anos-luz; aqui vale o comunicado de 2008
- Constelação
- EscultorScl
- Tamanho no céu
- 29 minutos de arcoextensão catalogada no SIMBAD
- Classificação
- SAB(s)c
- Observado por
- MPG/ESO 2.2-metre telescope, Visible and Infrared Survey Telescope for Astronomy, Hubble Space Telescope
- Imagem publicada
- janeiro de 2009
- Original do acervo
- 1.280 × 1.160 px1 megapixels
A Galáxia do Escultor, catalogada como NGC 253, é uma das espirais grandes mais próximas da Via Láctea que não pertence ao nosso Grupo Local. O publicador das imagens declara 10,4 milhões de anos-luz de distância, e ela ocupa 28,84 minutos de arco no céu segundo o SIMBAD, quase exatamente o mesmo tamanho aparente da Lua cheia. Isso faz dela um alvo incomum: é grande o bastante para não caber no campo de muitos telescópios profissionais e brilhante o bastante para aparecer num binóculo comum, em céu escuro do hemisfério sul.
O que a torna cientificamente interessante não é o tamanho, e sim o que acontece no centro. NGC 253 é o exemplo mais citado de galáxia com surto de formação estelar, o que em inglês virou o termo starburst. Numa faixa relativamente pequena em torno do núcleo, estrelas nascem em ritmo muito acima do que a galáxia sustentaria em média ao longo da vida. Estrelas massivas nascidas assim vivem pouco, explodem como supernovas e devolvem energia ao gás em volta, e o resultado é um vento que sopra material para fora do disco.
Duas imagens do acervo mostram os dois lados dessa história. O registro em luz visível feito pelo instrumento WFI, em 2009, mostra a galáxia inclinada, atravessada por faixas escuras de poeira que cortam o disco. O registro da câmera VIRCAM do telescópio VISTA, em 2010, opera em infravermelho e atravessa boa parte dessa poeira, revelando estrelas que o visível esconde. Comparar as duas é a forma mais direta de entender o que a poeira faz com o que enxergamos.
O que significa a sigla SAB(s)c?
A classificação morfológica registrada para NGC 253 é SAB(s)c, e cada pedaço dela é uma informação medida. O S indica galáxia espiral. O AB no meio quer dizer que ela fica entre os dois extremos da escala de barras: nem uma espiral limpa sem barra central, nem uma barrada clássica com uma estrutura alongada bem definida cortando o núcleo. É um caso intermediário.
O (s) entre parênteses informa que os braços saem diretamente da região central, sem um anel interno separando o núcleo do disco. O c no final descreve o grau de enrolamento: braços abertos e frouxos, com bojo central pequeno em relação ao disco. Galáxias do tipo c costumam ter proporcionalmente mais gás e mais formação estelar que as do tipo a, que têm bojo dominante e braços apertados.
Vale registrar uma limitação honesta. NGC 253 é vista bem inclinada em relação à nossa linha de visada, quase de perfil. Classificar morfologia de uma galáxia nessa posição é mais difícil do que classificar uma vista de frente, porque os braços se sobrepõem na projeção. A classificação existe e é útil, mas carrega mais incerteza do que teria se a mesma galáxia estivesse virada para nós.
Por que o núcleo forma tantas estrelas?
Um surto de formação estelar não é o estado normal de uma galáxia. Numa espiral tranquila, o gás se converte em estrelas devagar e de forma espalhada pelo disco. Num surto, uma quantidade grande de gás é empurrada para dentro, se acumula numa região central pequena e desaba sobre si mesma quase ao mesmo tempo, produzindo muitas estrelas em poucos milhões de anos.
O que empurra o gás para dentro costuma ser uma perturbação gravitacional: uma barra estelar que canaliza material ao longo dela, ou o efeito de maré de uma galáxia vizinha. NGC 253 pertence a um agrupamento de galáxias na direção da constelação do Escultor, e a interação com companheiras é uma das explicações discutidas para o combustível que alimenta o centro.
O preço desse ritmo é alto. Estrelas de grande massa consomem o hidrogênio em poucos milhões de anos e terminam em supernovas. Concentradas numa mesma região, essas explosões somam energia e formam bolhas de gás muito quente que rompem o disco e escapam por cima e por baixo dele, num fluxo que os astrônomos chamam de supervento galáctico. Parte do material sai de vez; parte volta a cair mais tarde, mais longe do centro.
O que o infravermelho mostra que o visível esconde?
Grãos de poeira interestelar espalham e absorvem luz de comprimento de onda curto com muito mais eficiência do que luz de comprimento longo. Por isso as faixas escuras que cortam o disco de NGC 253 na imagem em luz visível não são vazios: são nuvens densas na frente das estrelas, bloqueando o que vem de trás.
Na imagem feita com a câmera VIRCAM, que trabalha no infravermelho próximo, essas mesmas faixas ficam muito mais transparentes. O que aparece no lugar delas é uma multidão de estrelas que sempre esteve ali. Nenhuma estrela nova foi criada entre uma foto e outra: mudou apenas a janela do espectro usada para olhar.
Isso tem consequência direta para a medida do surto de formação estelar. Grande parte da energia produzida pelas estrelas jovens do núcleo é absorvida pela poeira e reemitida em infravermelho. Quem tentasse estimar a taxa de formação de estrelas contando apenas a luz visível chegaria a um número baixo demais, porque estaria ignorando justamente a parte da radiação que a poeira sequestrou.
Por que o SIMBAD chama NGC 253 de Seyfert?
O código de tipo registrado para NGC 253 no SIMBAD é SyG, de galáxia Seyfert. Galáxias Seyfert têm núcleo ativo, ou seja, um buraco negro supermassivo central acretando matéria e produzindo radiação com assinaturas espectrais características, especialmente linhas de emissão largas ou intensas em faixas específicas.
Acontece que um surto de formação estelar produz vários sinais parecidos: gás ionizado, emissão forte em raios X, radiação intensa em infravermelho. Separar o que vem do buraco negro central do que vem das estrelas jovens é um problema clássico e difícil, e no caso de NGC 253 a poeira do centro atrapalha ainda mais a análise.
A situação é honesta assim: o catálogo registra a classificação de Seyfert, e ao mesmo tempo a galáxia é o exemplo de manual de starburst. As duas coisas podem coexistir no mesmo objeto, e a repartição entre elas continua sendo estudada. Este acervo trata NGC 253 editorialmente como galáxia, sem prometer que a questão do núcleo esteja resolvida.
Os números deste objeto
| Distância | 11.000.000 anos-luzdeclarada pelo publicador das imagens |
|---|---|
| Constelação | Escultor (Scl) |
| Identificação principal | NGC 253SIMBAD |
| Classificação | galáxia Seyfert (SyG)SIMBAD |
| Morfologia | SAB(s)c |
| Tamanho aparente | 28,84 minutos de arcoSIMBAD |
| Desvio para o vermelho | z = 0,00086 |
| Coordenadas J2000 | AR 11,888 graus, Dec -25,289 graus |
| Imagens no acervo | 2 |
O que reparar nesta imagem
- As faixas escuras cruzando o discoAs linhas escuras não são falhas na galáxia. São nuvens de poeira interestelar entre nós e as estrelas de trás, e elas somem quase por completo na versão em infravermelho.
- O brilho concentrado no centroA região central é desproporcionalmente mais brilhante que o resto do disco. É ali que está o surto de formação estelar que dá fama à galáxia.
- A inclinação do discoNGC 253 aparece alongada porque é vista bem inclinada, quase de perfil. A forma oval não é a forma real: o disco é aproximadamente circular visto de cima.
- Quantas estrelas cada imagem mostraConte os pontos no registro em luz visível e no registro em infravermelho da VIRCAM. A diferença mede o quanto a poeira estava escondendo.
Que tamanho é isso, de verdade
Este recorte do céu tem quase o mesmo tamanho aparente da Lua cheia. O recorte fotografado mede 33 minutos de arco de largura no céu, e a Lua cheia mede cerca de 31 minutos de arco.
Levando a distância em conta, o objeto tem cerca de 87.367 anos-luz de ponta a ponta. Para comparar: a Via Láctea inteira tem por volta de 100 mil anos-luz de diâmetro.
A luz desta imagem levou 10,4 milhões de anos para chegar até o telescópio. Você não está vendo o objeto como ele é hoje, e sim como ele era quando os primeiros representantes do gênero Homo apareciam na África.
Dá para ver isso daqui?
Agora este objeto está acima do horizonte de São Paulo, SP, em boa altura, a 33° de altura, na direção O.
Deste lugar, o ponto mais alto que ele alcança no céu é 88 graus acima do horizonte.
Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.
Quanto já se olhou para aqui
- 884registros do Hubble
- 652registros do James Webb
- 4registros do GALEX
Contagem de observações arquivadas no Mikulski Archive for Space Telescopes, o repositório público operado pelo Space Telescope Science Institute, para uma busca num raio de 14 minutos de arco em torno da coordenada deste objeto. Um registro é um produto de observação, e não uma noite de telescópio nem uma fotografia: uma única campanha científica costuma render dezenas deles. O número serve para comparar a atenção que cada objeto recebeu, não para contar fotos.
O que ainda não se sabe
Não há acordo fechado sobre quanto do brilho central de NGC 253 vem de um núcleo ativo e quanto vem das estrelas jovens do surto. O SIMBAD registra a galáxia como Seyfert, e ao mesmo tempo ela é o exemplo padrão de starburst; a poeira densa do centro dificulta separar as duas contribuições. Também segue em discussão quanto do gás lançado pelo supervento escapa de fato da galáxia e quanto volta a cair no disco mais tarde, uma diferença que muda bastante as previsões sobre por quanto tempo ela ainda terá combustível para formar estrelas.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
A Galáxia do Escultor é uma das poucas galáxias fora do Grupo Local ao alcance de um binóculo em céu escuro. Do Brasil ela sobe alto no céu de primavera, e o que aparece é uma mancha alongada e pálida, sem cor, com quase o mesmo comprimento aparente da Lua cheia.
Outras imagens deste objeto

Crédito ESO/J. Emerson/VISTA. Acknowledgment: Cambridge Astronomical Survey Unit ESO CC BY 4.0

Crédito Jay Gallagher (University of Wisconsin-Madison), Alan Watson (Lowell Observatory, Flagstaff, AZ), and NASA/ESA ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, J. Dalcanton and B. Williams (University of Washington), T.A. Rector/University of Alaska Anchorage, T. Abbott and NOAO/AURA/NSF ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito Hubble Heritage Team (AURA/STScI/NASA/ESA) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito Carnegie Institution of Washington ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito ESA/Hubble & NASA, B. Mutlu-PakdilAcknowledgement: G. Donatiello ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, J. Dalcanton and B. Williams (University of Washington) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito Jay Gallagher (University of Wisconsin-Madison), Alan Watson (Lowell Observatory, Flagstaff, AZ) and NASA/ESA ESA/Hubble CC BY 4.0
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Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Galáxia NGC 300
- R Sculptoris
Crédito ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)/M. Maercker et al. ESO CC BY 4.0
- Abell 2744, o Aglomerado de Pandora
Crédito NASA, ESA, ESO, CXC, and D. Coe (STScI)/J. Merten (Heidelberg/Bologna) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Galáxia Roda de Carroça
- Galáxia de Andrômeda
Crédito ESA/Hubble & Digitized Sky Survey 2. Acknowledgment: Davide De Martin (ESA/Hubble) ESA/Hubble CC BY 4.0
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Crédito ESA/Hubble & NASA, K. Noll ESA/Hubble CC BY 4.0
- Galáxia do Redemoinho
Crédito NASA, ESA, S. Beckwith (STScI), and The Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Galáxia do Cata-vento
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- Galáxia do Charuto
Crédito NASA, ESA, CSA, A. Smercina (STScI), T. Williams (University of Manchester). Image processing: A. Pagan (STScI). ESA/Webb CC BY 4.0
- Galáxia de Bode
Crédito ESA/INT/DSS2 ESA/Hubble CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- O que é a Galáxia do Escultor?
- A Galáxia do Escultor, catalogada como NGC 253, é uma galáxia espiral vista bem inclinada, a 10,4 milhões de anos-luz da Terra segundo a distância declarada pelo publicador das imagens. Fica na constelação do Escultor, no céu do hemisfério sul, e é uma das espirais grandes mais próximas de nós fora do Grupo Local. A característica mais estudada dela é o surto de formação estelar no núcleo, que produz estrelas em ritmo muito acima da média da galáxia.
- O que é uma galáxia com surto de formação estelar?
- Uma galáxia com surto de formação estelar concentra numa região pequena, geralmente o centro, uma quantidade de gás grande o bastante para produzir muitas estrelas em poucos milhões de anos. O ritmo é insustentável a longo prazo: o gás disponível acaba. Estrelas de grande massa nascidas nesse surto explodem como supernovas pouco depois, e a energia somada dessas explosões empurra gás quente para fora do disco, num fluxo chamado de supervento galáctico.
- Dá para ver NGC 253 com binóculo?
- Sim, em céu escuro e longe de iluminação urbana. NGC 253 é uma das galáxias mais brilhantes do céu fora do Grupo Local e tem tamanho aparente de quase 29 minutos de arco, praticamente o diâmetro da Lua cheia. Num binóculo aparece como uma mancha alongada e esbranquiçada, sem cor e sem estrutura interna. Do Brasil ela fica alta no céu, o que ajuda bastante: quanto mais alto o objeto, menos atmosfera a luz precisa atravessar.
- Por que essas duas imagens do acervo são tão diferentes?
- Porque foram feitas em faixas diferentes do espectro. A imagem do instrumento WFI, de 2009, registra luz visível, e nela a poeira do disco aparece como faixas escuras que bloqueiam as estrelas de trás. A imagem da câmera VIRCAM, do telescópio VISTA, opera em infravermelho, e nesse comprimento de onda a poeira fica muito mais transparente. As estrelas a mais na versão infravermelha sempre estiveram lá: mudou apenas a janela usada para observar.
- Que tipo de galáxia é NGC 253?
- NGC 253 é classificada como SAB(s)c. O S indica espiral, o AB indica um caso intermediário entre espiral sem barra e espiral barrada, o (s) informa que os braços saem direto do centro sem anel interno, e o c descreve braços abertos e bojo central pequeno. Como a galáxia é vista quase de perfil, essa classificação carrega mais incerteza do que teria se ela estivesse virada de frente para nós, porque os braços se sobrepõem na projeção.
- O desvio para o vermelho de NGC 253 serve para medir a distância?
- Não com boa precisão. O valor registrado, z = 0,00086, corresponde a um afastamento de cerca de 260 quilômetros por segundo. Numa distância tão pequena em termos cosmológicos, a velocidade medida é fortemente afetada pelo movimento próprio da galáxia dentro do agrupamento em que ela vive, e não apenas pela expansão do universo. Para objetos próximos assim, distâncias confiáveis vêm de outros métodos, como estrelas de brilho conhecido.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
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Como citar esta página
ValorFinal. Galáxia do Escultor. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/galaxia-do-escultor. Consultado em: 23/08/2026.









