Satélite natural
Europa, a lua de Júpiter
A lua de Júpiter com uma casca de gelo rachada e um oceano de água líquida embaixo, hoje o alvo mais promissor da busca por vida.

Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M. H. Wong (University of California, Berkeley) and the OPAL team. ESA/Hubble CC BY 4.0
- Tipo
- Satélite natural
- Observado por
- Hubble Space Telescope
- Imagem publicada
- setembro de 2020
- Original do acervo
- 1.663 × 1.375 px2 megapixels
Europa é uma das quatro grandes luas de Júpiter descobertas por Galileu Galilei em 1610, junto com Io, Ganimedes e Calisto. Ela é ligeiramente menor que a Lua da Terra e, à primeira vista, parece a menos interessante do quarteto: uma bola quase branca, sem montanhas altas, sem crateras grandes, sem nada de dramático na silhueta. A superfície é o objeto mais liso do Sistema Solar entre corpos desse porte.
Essa lisura é justamente o que chamou atenção. Um mundo antigo, exposto ao bombardeio de asteroides e cometas por bilhões de anos, deveria estar coberto de crateras, como Calisto está. Europa tem pouquíssimas. A única explicação razoável é que a superfície seja jovem em termos geológicos, refeita continuamente por algum processo interno que apaga as marcas de impacto.
O que existe embaixo dessa casca é hoje um dos assuntos mais relevantes da exploração planetária. As evidências reunidas ao longo de décadas apontam para uma camada de água líquida sob o gelo, mantida aquecida pela deformação gravitacional imposta por Júpiter. Se estiver certo, esse oceano contém mais água do que todos os oceanos da Terra somados, e permanece líquido a uma distância do Sol em que a água na superfície é gelo puro.
Como se sabe que existe um oceano ali?
O indício mais direto vem do magnetismo. Júpiter tem um campo magnético intenso, e Europa se move dentro dele. Quando a sonda Galileo passou pela lua nos anos 1990, detectou que Europa possui um campo magnético próprio induzido, isto é, gerado em resposta ao campo de Júpiter, e que muda de orientação conforme a lua se desloca.
Um campo induzido desse tipo exige uma camada condutora de eletricidade perto da superfície. Gelo puro não conduz. Água salgada conduz muito bem. A leitura mais econômica dos dados é que existe uma camada global de água líquida com sais dissolvidos sob a crosta de gelo, funcionando como o meio condutor que responde ao campo externo.
Outros indícios convergem. A superfície é cruzada por fraturas longas cuja geometria só faz sentido se a casca de gelo puder se deslocar sobre algo que flui embaixo. Há regiões de terreno caótico, com blocos de gelo deslocados e girados, semelhantes ao que acontece com placas de gelo marinho na Terra. E existe pouquíssima cratera, sinal de que a superfície se renova. Cada um desses argumentos sozinho seria fraco; juntos, formam um caso consistente.
De onde vem o calor que mantém a água líquida?
A distância de Júpiter ao Sol é grande o bastante para que a energia solar recebida ali seja uma fração pequena da que chega à Terra. Só com aquecimento solar, Europa seria uma bola de gelo sólida do centro à superfície. O calor tem que vir de dentro, e o mecanismo aceito é o aquecimento por maré.
A órbita de Europa não é perfeitamente circular, e isso acontece por causa da relação com as luas vizinhas. Io, Europa e Ganimedes estão presas numa ressonância orbital: os períodos delas mantêm razões simples entre si, e os encontros gravitacionais periódicos impedem que as órbitas se circularizem. Uma órbita levemente elíptica significa que a distância até Júpiter varia ao longo de cada volta.
Como a força de maré depende da distância, essa variação faz a lua ser esticada e comprimida ciclicamente. A deformação repetida gera atrito no interior, e atrito gera calor. É a mesma razão pela qual um arame dobrado muitas vezes esquenta no ponto de dobra. Em Io, a lua mais próxima, o efeito é tão intenso que produz vulcanismo ativo. Em Europa, ele é suficiente para manter água líquida sob a casca.
Por que Europa entrou na busca por vida?
A lista de requisitos que costuma ser usada para avaliar habitabilidade tem três itens: água líquida, elementos químicos essenciais e uma fonte de energia. Europa atende ao primeiro com bastante confiança. O segundo é plausível, porque o material que formou a lua incluía os mesmos compostos disponíveis no resto do Sistema Solar exterior.
O terceiro é o mais interessante. Na Terra existem ecossistemas inteiros no fundo do mar que nunca viram luz solar e vivem de energia química liberada em fontes hidrotermais, onde a água aquecida reage com a rocha. Se o oceano de Europa estiver em contato com um fundo rochoso aquecido por maré, o mesmo tipo de química pode estar disponível ali, sem depender de fotossíntese.
Existe ainda uma via de suprimento vinda de cima. A superfície de Europa é bombardeada pela radiação intensa das cinturões de Júpiter, o que quebra moléculas de gelo e produz compostos oxidantes. Se o material da superfície for reciclado para dentro do oceano pelo movimento da casca, esses oxidantes poderiam alimentar reações químicas úteis a organismos. Nada disso é evidência de vida: é a razão pela qual vale a pena procurar.
O que as imagens do acervo mostram e o que não mostram?
Nenhuma das quatro imagens do acervo mostra a superfície de Europa em detalhe. Duas delas são registros do Hubble em que a lua aparece como um pequeno disco ao lado de Júpiter, e as outras duas são montagens que reúnem várias luas ou vários momentos num único quadro. Montagem é um tipo de imagem que combina registros distintos e recebe rótulo próprio no acervo, porque não corresponde a uma única cena real do céu.
Isso não torna as imagens menos interessantes, muda o que se deve procurar nelas. Numa imagem de Júpiter com Europa ao lado, a comparação de tamanho aparente e de brilho já diz muito. A imagem de 2020 registra a lua atravessando o campo enquanto o planeta mostra suas faixas, e permite perceber a diferença de escala entre o gigante gasoso e um satélite do porte da nossa Lua.
Uma das montagens documenta um evento raro: três luas e suas sombras cruzando o disco de Júpiter ao mesmo tempo, com o começo e o fim da sequência lado a lado. Como as luas galileanas orbitam quase no plano equatorial do planeta, trânsitos são frequentes, mas a coincidência de três ao mesmo tempo acontece poucas vezes por década. O detalhe das sombras redondas e nítidas é o que denuncia a geometria do sistema.
Os números deste objeto
| Objeto | lua de Júpiter |
|---|---|
| Identificador no acervo | solar:europa |
| Tipo editorial adotado | lua |
| Outros corpos nos metadados | Júpiter, Io, Ganimedes, Calisto |
| Telescópio das imagens | Hubble, câmera WFC3, e uma montagem do ESO |
| Filtros usados | 275, 395, 502, 547, 631 e 889 nanômetros |
| Período coberto | de 2015 a 2022 |
| Imagens no acervo | 4, sendo 2 montagens |
O que reparar nesta imagem
- O tamanho de Europa ao lado de JúpiterNas imagens em que a lua aparece junto ao planeta, compare os dois discos. Europa é ligeiramente menor que a Lua da Terra, e a diferença de escala dá noção do porte de Júpiter.
- O brilho esbranquiçado da superfícieEuropa reflete uma fração alta da luz que recebe, porque a superfície é gelo de água relativamente limpo. Compare com Calisto, bem mais escura, nas montagens do acervo.
- As sombras redondas sobre o planetaNos trânsitos, cada lua projeta uma sombra circular e nítida sobre as nuvens. A nitidez vem de o Sol estar muito longe, o que deixa a penumbra estreita.
- O rótulo de montagemDuas das imagens são montagens, e não uma única cena real do céu. Vale conferir o rótulo antes de interpretar posições relativas entre as luas como se fossem simultâneas.
Por que esta imagem tem essas cores
As cores desta imagem se aproximam do que um olho humano veria, se ele fosse sensível o bastante: cada filtro registrou luz visível e recebeu uma cor coerente com o próprio comprimento de onda.
ultravioletainfravermelho e ondas de rádio
- Azulluz visível · WFC3 · Ca II395 nmolho enxerga
- Verdeluz visível · WFC3 · O III502 nmolho enxerga
- Vermelholuz visível · WFC3 · O I631 nmolho enxerga
Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio ESA/Hubble junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.
Dá para ver isso daqui?
Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.
Ver isto no céu de hoje
- Júpiter está visível hoje?Um binóculo apoiado com firmeza já mostra as quatro luas galileanas como pontinhos em fila ao lado do planeta.
O que ainda não se sabe
A espessura da casca de gelo de Europa não é conhecida com precisão, e ela muda tudo. Um gelo fino permitiria troca frequente de material entre a superfície e o oceano, o que favoreceria a química interessante; um gelo espesso isolaria o oceano do ambiente externo. Também segue em disputa a existência de plumas de vapor de água escapando pela superfície: houve detecções relatadas a partir de observações do Hubble, mas os sinais são fracos, difíceis de reproduzir e não há consenso sobre a interpretação. A composição exata do material avermelhado que colore as fraturas é outra questão aberta, com sais e compostos de enxofre entre os candidatos.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
As quatro luas descobertas por Galileu em 1610 podem ser vistas com um binóculo comum, como pontinhos alinhados ao lado de Júpiter, mudando de posição de uma noite para outra. Foi exatamente essa mudança de posição que serviu de argumento contra a ideia de que tudo no céu orbitava a Terra: ali estavam quatro corpos girando visivelmente em torno de outro planeta.
Outras imagens deste objeto

Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M. H. Wong (University of California, Berkeley) and the OPAL team. ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, Hubble Heritage Team ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, Hubble Heritage Team ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, W. Sparks (STScI), and the USGS Astrogeology Science Center ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, Hubble Heritage Team ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, Hubble Heritage Team ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, Hubble Heritage Team ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, Hubble Heritage Team ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, Hubble Heritage Team ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito ESO/King & Fletcher. Jupiter background image: NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M. H. Wong (University of California, Berkeley) and the OPAL team. ESO CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and M. Kornmesser.Science Credit: NASA, ESA, L. Roth (Southwest Research Institute and University of Cologne, Germany), J. Saur (University of Cologne, Germany), K. Retherford (Southwest Research Institute), D. Strobel and P. Feldman (Johns Hopkins University), M. McGrath (Marshall Space Flight Center), and F. Nimmo (University of California, Santa Cruz) ESA/Hubble CC BY 4.0
Baixar esta imagem
A licença CC BY 4.0 permite usar a imagem, inclusive comercialmente, desde que o crédito apareça inteiro e visível junto dela. Copie o crédito acima junto com o arquivo.
Continue explorando
Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Júpiter
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Saturno
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Urano
Crédito NASA, ESA, CSA, STScI, J. DePasquale (STScI) ESA/Webb CC BY 4.0
- Netuno
Crédito NASA, ESA and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Marte
Crédito NASA, ESA, the Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (ASU), and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- O que é Europa?
- Europa é uma das quatro grandes luas de Júpiter descobertas por Galileu Galilei em 1610, junto com Io, Ganimedes e Calisto. Ela é ligeiramente menor que a Lua da Terra e tem a superfície mais lisa entre os corpos desse porte no Sistema Solar, coberta por gelo de água cruzado por longas fraturas. Sob essa casca, as evidências apontam para uma camada global de água líquida, o que fez de Europa um dos alvos prioritários da exploração planetária.
- Como se sabe que existe um oceano embaixo do gelo de Europa?
- O indício mais direto veio da sonda Galileo, nos anos 1990, que detectou em Europa um campo magnético induzido, gerado em resposta ao campo magnético de Júpiter. Um campo assim exige uma camada condutora de eletricidade perto da superfície, e gelo puro não conduz enquanto água salgada conduz muito bem. Somam-se a isso a escassez de crateras, indicando superfície jovem, e fraturas cuja geometria só faz sentido se a casca puder deslizar sobre algo que flui embaixo.
- Por que a superfície de Europa tem tão poucas crateras?
- Um corpo antigo exposto por bilhões de anos a impactos de asteroides e cometas deveria estar coberto de crateras, como acontece com Calisto. Europa tem pouquíssimas, o que indica que a superfície é jovem em termos geológicos e vem sendo refeita continuamente. O processo de renovação envolve o movimento e o rearranjo da casca de gelo sobre a camada líquida abaixo, que apaga as marcas de impacto ao longo do tempo.
- O que mantém a água líquida tão longe do Sol?
- O calor vem de dentro, por aquecimento de maré. A órbita de Europa não é perfeitamente circular porque ela está numa ressonância orbital com Io e Ganimedes, e os encontros gravitacionais periódicos impedem que a órbita se circularize. Como a distância até Júpiter varia ao longo de cada volta, a lua é esticada e comprimida ciclicamente. A deformação repetida gera atrito no interior, e atrito gera calor, o mesmo princípio de um arame que esquenta ao ser dobrado muitas vezes.
- Pode haver vida em Europa?
- Não há qualquer evidência de vida em Europa, e a resposta honesta é que ninguém sabe. O que existe é uma combinação de condições que justifica procurar: água líquida em quantidade, provavelmente em contato com um fundo rochoso, e uma possível fonte de energia química. Na Terra, ecossistemas inteiros vivem no fundo do mar sem luz solar, alimentados por reações químicas em fontes hidrotermais. Europa é o lugar do Sistema Solar onde esse cenário parece mais plausível fora da Terra.
- Dá para ver Europa com binóculo?
- Sim. As quatro luas galileanas aparecem como pontinhos alinhados ao lado de Júpiter em qualquer binóculo estável, e mudam visivelmente de posição de uma noite para outra. Um tripé ou apoio firme ajuda bastante, porque o tremor da mão atrapalha mais do que a falta de abertura. Distinguir qual ponto é Europa exige consultar um aplicativo ou uma efeméride, já que a configuração muda em poucas horas.
- Por que as imagens do acervo não mostram a superfície de Europa?
- As quatro imagens disponíveis vêm de telescópios em órbita da Terra ou no solo, e a essa distância Europa aparece apenas como um pequeno disco. Duas delas registram a lua ao lado de Júpiter, e duas são montagens que reúnem várias luas ou vários momentos num quadro só. Imagens detalhadas da superfície, com as fraturas e o terreno caótico, só existem a partir de sondas que se aproximaram do sistema de Júpiter.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
Continue explorando
Como citar esta página
ValorFinal. Europa, a lua de Júpiter. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/europa. Consultado em: 23/08/2026.




