Cometa
Cometas
Blocos de gelo e poeira sobrados da formação do Sistema Solar, que só ganham cauda quando chegam perto o bastante do Sol.

Crédito NASA, ESA, and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Tipo
- Cometa
- Observado por
- Hubble Space Telescope, Gemini North
- Imagem publicada
- outubro de 2013
- Original do acervo
- 3.976 × 3.866 px15 megapixels
Um cometa, na maior parte da vida, é um objeto discreto: um bloco irregular de gelo, poeira e compostos orgânicos com poucos quilômetros de diâmetro, escuro, viajando devagar numa região fria e distante. Nada nele lembra as imagens espetaculares que dão fama à categoria. A transformação acontece quando a órbita o traz para perto do Sol.
A partir de certa distância, o calor solar passa a sublimar o gelo do núcleo, ou seja, o gelo vai direto de sólido para gás sem passar pelo líquido, porque não existe pressão atmosférica para segurar a fase intermediária. O gás escapa arrastando poeira e forma uma atmosfera temporária em volta do núcleo, chamada coma, que pode ficar maior que planetas inteiros. Da coma nascem as caudas, empurradas pela radiação e pelo vento do Sol.
Este acervo reúne principalmente registros de paisagem, com cometas fotografados de observatórios em noites limpas, além de duas imagens do Hubble acompanhando um cometa que não sobreviveu à passagem pelo Sol. É um bom retrato do que a categoria tem de mais próprio: cometas aparecem sem aviso, mudam rápido e nem sempre terminam bem.
Do que é feito um cometa?
O núcleo é uma mistura de gelos e material sólido. Predomina gelo de água, acompanhado de gelos de dióxido de carbono, monóxido de carbono, metano e amônia, misturados a grãos de silicato e a compostos orgânicos complexos. A descrição clássica, bola de neve suja, capturou a ideia geral, embora medições posteriores tenham mostrado que a proporção de material rochoso e orgânico é maior do que se imaginava.
Uma característica que surpreende quem só viu imagens de cometa brilhante: o núcleo é extremamente escuro. Missões que fotografaram núcleos de perto encontraram superfícies que refletem uma fração ínfima da luz recebida, mais escuras que carvão. O brilho que vemos da Terra não vem do núcleo, e sim da coma e da cauda, que são feitas de gás fluorescente e poeira espalhando luz solar.
Como esses corpos passaram bilhões de anos longe do Sol, o material deles foi pouco alterado desde a formação do Sistema Solar. Estudar um cometa é uma forma de examinar a composição química da nuvem original que deu origem aos planetas, com muito menos processamento do que qualquer amostra terrestre.
Por que a cauda aponta para longe do Sol?
Contra a intuição, a cauda não fica atrás do cometa como a fumaça atrás de um carro. Ela aponta para o lado oposto ao Sol, independentemente da direção do movimento. Quando o cometa está se afastando após a passagem pelo periélio, ele viaja de cauda na frente.
A razão é que a cauda não é arrastada, é empurrada. Dois mecanismos atuam ao mesmo tempo e produzem duas caudas distintas. A cauda de poeira é empurrada pela pressão da radiação solar, com força modesta, e por isso os grãos mantêm parte do movimento orbital original e a cauda fica curva e amarelada.
A cauda de íons é outra história. Moléculas de gás da coma são ionizadas pela radiação ultravioleta solar e passam a interagir com o campo magnético carregado pelo vento solar, sendo arrastadas quase instantaneamente numa linha reta. Ela costuma ter tom azulado, resultado da emissão de monóxido de carbono ionizado, e reage a variações do vento solar, o que produz nós, torções e às vezes o desprendimento visível de um trecho inteiro.
De onde vêm os cometas?
Existem dois reservatórios reconhecidos. O primeiro é o cinturão de Kuiper, uma região achatada de corpos gelados além da órbita de Netuno. Cometas que vêm de lá tendem a ter períodos orbitais curtos, de poucas décadas, e órbitas próximas do plano em que os planetas circulam.
O segundo é a nuvem de Oort, uma casca esférica hipotética de corpos gelados a distâncias muito maiores, na fronteira da influência gravitacional do Sol. Ela nunca foi observada diretamente, e sua existência é inferida das órbitas dos cometas de longo período, que chegam de qualquer direção do céu, com inclinações aleatórias, e levam milhares de anos para completar uma volta.
Há ainda uma terceira categoria, muito recente. Em 2019 foi identificado o objeto 2I/Borisov, que atravessava o Sistema Solar numa trajetória aberta, ou seja, rápida demais para estar ligada gravitacionalmente ao Sol. Ele foi o primeiro cometa confirmadamente vindo de outro sistema estelar, e a letra I do nome marca essa origem interestelar.
Por que tantos cometas se chamam ATLAS ou NEOWISE?
Por convenção, um cometa recebe o nome de quem o descobre. Durante séculos isso significou nomes de pessoas, geralmente astrônomos amadores que varriam o céu com paciência. Hoje a maioria das descobertas vem de levantamentos automatizados que fotografam o céu inteiro repetidamente à procura de qualquer coisa que se mova, e o nome que fica é o do programa.
ATLAS é um sistema de telescópios criado para detectar asteroides em rota de aproximação da Terra. NEOWISE foi a fase de um telescópio espacial em infravermelho dedicada a objetos próximos. Ambos acharam cometas como subproduto da função principal, e daí os nomes que apareceram no céu de 2020, 2024 e 2025.
A designação técnica traz mais informação que o apelido. A letra inicial indica a natureza da órbita: C para cometas de longo período, P para os periódicos que retornam com regularidade, D para os que se desintegraram ou se perderam, I para os interestelares. Depois vem o ano da descoberta, uma letra para a quinzena e um número de ordem.
O que acontece quando um cometa não sobrevive?
Nem todo cometa aguenta a passagem pelo periélio. O núcleo é frágil, poroso e sujeito a tensões grandes: aquecimento desigual, jatos de gás escapando de pontos específicos e, quando a passagem é muito próxima de um corpo massivo, forças de maré que puxam com mais intensidade um lado que o outro.
O acervo tem um exemplo direto disso. As duas imagens do Hubble de novembro de 2013 registram um cometa que se aproximava do Sol e que se desintegrou pouco depois, sem reaparecer do outro lado. Casos parecidos se repetem com frequência, e em 2020 outro cometa muito anunciado se fragmentou antes de atingir o brilho previsto.
O caso mais espetacular envolveu Júpiter. Um cometa foi despedaçado pela maré gravitacional do planeta e, na passagem seguinte, os fragmentos colidiram com a atmosfera joviana em julho de 1994, produzindo marcas escuras visíveis por semanas em telescópios modestos. Foi a primeira colisão entre dois corpos do Sistema Solar observada em tempo real pela humanidade.
Por que é tão difícil prever se um cometa vai ficar brilhante?
Porque o brilho depende de quanto material o núcleo vai liberar, e isso não se sabe antes de a sublimação começar de verdade. Dois cometas com órbitas parecidas podem ter comportamento completamente diferente conforme a composição, o tamanho, a estrutura interna e quantas vezes já passaram pelo Sol.
Cometas que fazem a primeira visita, vindos da nuvem de Oort, costumam ganhar brilho rapidamente à distância, porque gelos mais voláteis na superfície sublimam cedo. Isso engana as previsões: a curva de brilho parece promissora, e depois estaciona quando esses voláteis acabam e sobra apenas gelo de água, que só sublima bem mais perto do Sol.
Some a isso a geometria. Um cometa pode ficar intrinsecamente muito brilhante e ainda assim ser difícil de observar, se estiver perto demais da direção do Sol no céu ou baixo no horizonte no crepúsculo. Previsão de brilho de cometa é uma das poucas áreas da astronomia em que errar é rotina.
O que reparar nesta imagem
- As duas caudas separadasQuando as condições permitem, aparecem duas caudas distintas: uma esbranquiçada e curva, de poeira, e uma azulada e retilínea, de íons. Elas partem do mesmo ponto e divergem porque respondem a forças diferentes.
- O núcleo que não apareceO ponto brilhante na cabeça do cometa não é o núcleo. É a coma, a nuvem de gás e poeira em volta dele. O núcleo em si tem poucos quilômetros e é mais escuro que carvão.
- A direção em relação ao horizonteNas fotos feitas ao entardecer ou ao amanhecer, repare que a cauda aponta para longe do ponto onde o Sol está. É a assinatura visual do mecanismo que a produz.
- Os telescópios na paisagemBoa parte destas imagens foi feita de observatórios profissionais com câmera comum. A presença das cúpulas dá escala e mostra que o fenômeno é visível sem instrumento, quando o cometa coopera.
Por que esta imagem tem essas cores
Estas cores não são as que seus olhos veriam. Parte da luz registrada está fora da faixa visível, então cada filtro recebeu uma cor para que a informação pudesse aparecer numa tela.
ultravioletainfravermelho e ondas de rádio
- Azulultravioleta · WFC3 · B438 nmolho enxerga
- Laranjainfravermelho · WFC3 · I775 nminvisível ao olho
Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio ESA/Hubble junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.
Dá para ver isso daqui?
Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.
Ver isto no céu de hoje
- O céu de hoje na sua cidadeCometa brilhante é raro e imprevisível. A janela de céu escuro e a previsão do tempo dizem se vale a pena tentar hoje.
O que ainda não se sabe
A contribuição dos cometas para a água dos oceanos terrestres continua em disputa. O argumento decisivo envolve a razão entre deutério e hidrogênio comum na água: se os cometas tivessem trazido a maior parte dela, a assinatura isotópica terrestre deveria coincidir com a deles. As medições feitas até agora dão resultados heterogêneos, com alguns cometas próximos da assinatura terrestre e muitos outros bem distantes, o que enfraquece a hipótese de origem predominantemente cometária e favorece uma contribuição maior de asteroides. A questão não está fechada.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
O núcleo de um cometa é mais escuro que carvão, refletindo uma fração mínima da luz que recebe. Todo o brilho que se vê da Terra vem do gás e da poeira liberados por ele, e não do corpo em si.
Outras imagens deste objeto

Crédito NASA, ESA, and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito HST Comet Team and NASA/ESA ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA). Acknowledgment: P. Feldman (JHU), L. McFadden (University of Maryland), ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, D. Jewitt (UCLA), Q. Ye (University of Maryland) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, D. Jewitt (UCLA), Q. Ye (University of Maryland) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and J.-Y. Li (Planetary Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and J.-Y. Li (Planetary Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito International Gemini Observatory/NOIRLab/NSF/AURA/C. Schambeau Image processing: T.A. Rector (University of Alaska Anchorage/NSF NOIRLab), M. Zamani & D. de Martin (NSF NOIRLab) NOIRLab CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and D. Jewitt (UCLA) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and D. Jewitt (UCLA) ESA/Hubble CC BY 4.0

Crédito NASA, ESA, and J.-Y. Li (Planetary Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0
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Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Júpiter
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Saturno
Crédito NASA, ESA, A. Simon (Goddard Space Flight Center), and M.H. Wong (University of California, Berkeley) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Urano
Crédito NASA, ESA, CSA, STScI, J. DePasquale (STScI) ESA/Webb CC BY 4.0
- Netuno
Crédito NASA, ESA and the Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Marte
Crédito NASA, ESA, the Hubble Heritage Team (STScI/AURA), J. Bell (ASU), and M. Wolff (Space Science Institute) ESA/Hubble CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- O que é um cometa?
- É um corpo pequeno do Sistema Solar formado por gelos, poeira e compostos orgânicos, com tipicamente poucos quilômetros de diâmetro. Quando a órbita o aproxima do Sol, o calor sublima o gelo do núcleo, o gás escapa arrastando poeira e forma uma atmosfera temporária chamada coma, além de uma ou duas caudas. Longe do Sol, o mesmo objeto é apenas um bloco escuro e inativo, sem nada do aspecto que dá fama à categoria.
- Por que a cauda do cometa aponta para o lado contrário ao Sol?
- Porque ela é empurrada, não arrastada. A cauda de poeira é impelida pela pressão da radiação solar e fica levemente curva, com tom amarelado, porque os grãos conservam parte do movimento orbital. A cauda de íons é formada por gás ionizado pela radiação ultravioleta e arrastado pelo vento solar em linha quase reta, com tom azulado. As duas apontam para longe do Sol independentemente da direção em que o cometa está viajando, então na saída ele viaja de cauda na frente.
- Qual a diferença entre cometa, asteroide e meteoro?
- Cometa é um corpo rico em gelo que desenvolve coma e cauda ao se aproximar do Sol. Asteroide é um corpo predominantemente rochoso ou metálico, que em geral não desenvolve atmosfera visível. Meteoro é o risco luminoso que aparece no céu quando um fragmento pequeno entra na atmosfera terrestre e se vaporiza por atrito, o que dura segundos. Chuvas de meteoros costumam ocorrer quando a Terra atravessa a trilha de poeira deixada por um cometa.
- Por que muitos cometas recentes se chamam ATLAS?
- Porque cometas levam o nome de quem os descobre, e hoje a maior parte das descobertas vem de levantamentos automatizados. ATLAS é um sistema de telescópios criado para detectar asteroides que se aproximam da Terra, e encontra cometas como subproduto. NEOWISE era um telescópio espacial em infravermelho com função semelhante. O nome técnico traz mais informação: a letra inicial indica se a órbita é de longo período, periódica, desintegrada ou interestelar.
- Existem cometas vindos de fora do Sistema Solar?
- Sim. Em 2019 foi identificado o 2I/Borisov, o primeiro cometa confirmadamente interestelar. Ele foi reconhecido pela trajetória: a velocidade era alta demais para uma órbita presa ao Sol, o que significa que ele apenas atravessou o Sistema Solar e seguiu adiante. A letra I na designação marca essa origem. Objetos assim são raros de detectar porque passam rápido e costumam ser pequenos, mas a expectativa é que muitos atravessem a vizinhança solar.
- Por que é difícil prever se um cometa vai ficar visível a olho nu?
- Porque o brilho depende de quanto material o núcleo libera, e isso só se descobre quando a sublimação começa. Cometas em primeira visita ganham brilho rápido à distância por causa de gelos muito voláteis na superfície, e depois estacionam quando esses gelos acabam. Alguns se fragmentam antes do periélio e somem. Some a isso a geometria, porque um cometa brilhante pode ficar perto demais da direção do Sol no céu. Errar previsão de cometa é rotina, não exceção.
- Um cometa pode atingir a Terra?
- É possível em princípio, e já aconteceu com outro planeta sob observação humana: em julho de 1994, fragmentos de um cometa despedaçado pela maré gravitacional de Júpiter colidiram com a atmosfera do planeta e deixaram marcas escuras visíveis por semanas. No caso da Terra, programas de vigilância como o ATLAS existem justamente para mapear objetos em rota de aproximação. Cometas de longo período são mais difíceis de antecipar que asteroides, porque chegam de qualquer direção com pouco aviso prévio.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
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Como citar esta página
ValorFinal. Cometas. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/cometas. Consultado em: 23/08/2026.




