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Escala Richter e magnitude de terremoto

Quase todo boletim ainda diz Richter, e quase nenhum sismólogo usa. A escala em vigor mede outra coisa, e a diferença aparece justamente nos grandes tremores.

Publicado sob responsabilidade editorial de Cesar GargiuloUSGS Earthquake Hazards Program: magnitude, energia e intensidade.

Resposta rápida

  • A escala Richter foi criada em 1935 para sismos rasos da Califórnia e satura acima de magnitude 7. Ela não é usada hoje para grandes terremotos.
  • A escala em vigor é a magnitude de momento, proposta em 1979, calculada a partir da área da falha que rompeu, do deslocamento e da rigidez da rocha.
  • Uma unidade a mais de magnitude significa 10 vezes mais amplitude no sismograma e cerca de 32 vezes mais energia liberada.
  • Magnitude mede o tamanho do terremoto. O estrago depende de profundidade, distância, tipo de solo e construção, e para isso existe outra escala, a de intensidade.

Todo boletim de tremor traz um número, e quase todo mundo chama esse número de Richter. A escala Richter existe, foi importante e continua sendo ensinada, mas os serviços sismológicos deixaram de usá-la para eventos grandes há décadas. Entender o que substituiu e por quê explica coisas que parecem contraditórias, como um tremor de magnitude 5 destruir uma cidade enquanto outro de magnitude 7 quase não é sentido. Os tremores das últimas 24 horas no mundo estão em terremotos hoje.

O que Charles Richter realmente propôs

Em 1935, Charles Richter, trabalhando com Beno Gutenberg no Instituto de Tecnologia da Califórnia, precisava de um jeito de comparar tremores locais sem depender do julgamento de quem sentiu. A solução foi engenhosa: medir a maior amplitude registrada em um tipo específico de sismógrafo, o Wood-Anderson, corrigir pela distância até o epicentro e tomar o logaritmo.

O logaritmo resolve um problema prático. A amplitude de um sismograma varia por fatores de milhões entre um tremor imperceptível e um destrutivo, e uma escala linear seria inutilizável. Com o logaritmo, toda essa faixa cabe entre 0 e 9.

A escala tinha limites explícitos desde o início. Ela foi calibrada para o sul da Califórnia, para tremores rasos e para distâncias de até cerca de 600 quilômetros. E tinha um defeito que só ficou visível com os grandes terremotos do século 20: ela satura.

O problema da saturação

Saturação significa que, acima de certo tamanho, o número para de crescer mesmo com o terremoto ficando maior. Isso acontece porque o sismógrafo Wood-Anderson responde a ondas de período curto, em torno de um segundo, e um terremoto realmente grande libera a maior parte da energia em ondas de período muito mais longo.

Na prática, a escala Richter empaca em torno de magnitude 6,8 a 7. O terremoto de Valdivia, no Chile, em 1960, e o do Alasca, em 1964, receberam valores parecidos na escala local, embora o primeiro tenha liberado várias vezes mais energia que o segundo. Uma escala que não distingue os dois maiores eventos já registrados não serve para descrevê-los.

Magnitude de momento: o que se usa hoje

Em 1979, Thomas Hanks e Hiroo Kanamori propuseram uma magnitude derivada de uma grandeza física, e não de um instrumento: o momento sísmico. Ele é o produto de três coisas medíveis.

Esse produto descreve o trabalho mecânico realizado pelo terremoto e não satura, porque cresce diretamente com o tamanho da ruptura. A magnitude de momento é a conversão logarítmica dele para uma escala numérica que coincide, na faixa média, com os valores da escala Richter. Foi por isso que a transição passou quase despercebida pelo público: um tremor de 5,4 continua sendo 5,4.

Os serviços sismológicos publicam, na verdade, várias magnitudes: mb para ondas de corpo, ML para eventos locais e Mw para eventos maiores, entre outras. O USGS costuma reportar simplesmente M, escolhendo internamente o método mais adequado ao tamanho e à distância. É por isso que o mesmo tremor às vezes aparece com valores ligeiramente diferentes em fontes diferentes nas primeiras horas: cada uma usou um método, e os valores são revistos conforme mais estações reportam.

Quanta energia cada grau representa

Duas relações valem a pena decorar. Uma unidade a mais de magnitude significa amplitude 10 vezes maior no sismograma, e energia liberada cerca de 32 vezes maior. A segunda é a que importa, e é a que a intuição não acompanha.

MagnitudeEnergia equivalenteQuantos por ano no mundoO que costuma acontecer
2,0Cerca de 15 kg de TNTmais de 1 milhãoSó instrumentos registram
4,0Cerca de 15 toneladas de TNTcerca de 13 milSentido, objetos balançam, danos raros
5,0Cerca de 475 toneladas de TNTcerca de 1.300Danos leves em construções frágeis
6,0Cerca de 15 mil toneladas de TNTcerca de 130Danos sérios em área povoada
7,0Cerca de 475 mil toneladas de TNTcerca de 15Destruição ampla perto do epicentro
8,0Cerca de 15 milhões de toneladas de TNTcerca de 1Devastação regional, tsunami se for submarino
9,5Cerca de 2,7 bilhões de toneladas de TNTo maior já medidoValdivia, Chile, 1960

Um ponto de referência ajuda a sentir a escala: a bomba de Hiroshima liberou cerca de 15 mil toneladas equivalentes de TNT, o que corresponde aproximadamente a um terremoto de magnitude 6. Um terremoto de magnitude 9 libera cerca de 32 mil vezes essa energia.

Magnitude não é estrago: a escala de intensidade

Magnitude é uma propriedade do terremoto, e existe uma só por evento. Intensidade é uma propriedade do lugar, e varia de rua para rua. Para descrever o que se sentiu onde se estava, usa-se a escala Mercalli Modificada, com doze níveis em algarismos romanos.

NívelO que se percebe
I a IIINão sentido, ou sentido por poucas pessoas paradas em andares altos
IV a VSentido dentro de casa, louça tine, objetos pendurados balançam
VI a VIITodos sentem, móveis se movem, reboco cai, danos em alvenaria fraca
VIII a IXColapso parcial de construções comuns, tubulações rompem
X a XIIDestruição generalizada, deslocamento de trilhos, ruptura visível do solo

O USGS mantém há anos um programa em que qualquer pessoa relata o que sentiu, e esses relatos alimentam mapas de intensidade quase em tempo real. É uma das aplicações mais bem-sucedidas de ciência cidadã, e mostra por que as duas escalas são necessárias: a magnitude sai de sismógrafos, a intensidade sai de pessoas e de estruturas.

Por que a profundidade muda tudo

Dois tremores de mesma magnitude produzem efeitos completamente diferentes conforme a profundidade do foco. Sismos são classificados em rasos, até 70 km, intermediários, entre 70 e 300 km, e profundos, acima de 300 km. O recorde de profundidade passa dos 700 km, sempre em zonas de subducção.

Um tremor raso concentra a energia numa área pequena da superfície e é o que causa desastres. Um tremor profundo espalha a energia por uma área enorme e chega atenuado a qualquer ponto. Terremotos profundos na fronteira do Peru com o Brasil são sentidos em vários estados do Norte justamente por isso: pouca intensidade em cada lugar, mas num raio muito grande.

A página de terremotos hoje mostra profundidade e magnitude lado a lado por esse motivo. Sem a profundidade, o número da magnitude sozinho não permite avaliar nada.

Como ler um boletim sísmico

  1. Comece pela profundidade, não pela magnitude. Abaixo de 70 km, o evento merece atenção; acima de 300 km, dificilmente causará dano.
  2. Veja a distância até áreas povoadas. A maior parte dos tremores acontece no mar ou em regiões desabitadas.
  3. Trate a magnitude das primeiras horas como preliminar. Ela é revista conforme mais estações reportam, e revisões de 0,2 a 0,3 são rotina.
  4. Procure a intensidade, se houver. Ela diz o que aconteceu no chão, que é o que interessa.
  5. Espere réplicas. Depois de um evento principal, a sequência de réplicas segue um padrão estatístico conhecido, com frequência caindo aproximadamente com o inverso do tempo decorrido.

Sobre previsão de terremotos

Não existe método validado para prever terremotos com data, local e magnitude. Isso não é opinião: é a posição dos serviços sismológicos, incluindo o USGS, e reflete décadas de tentativas frustradas com precursores como emissão de radônio, mudanças de nível de poço, comportamento animal e sinais eletromagnéticos.

O que existe, e funciona, é previsão probabilística de longo prazo, que estima a chance de um sismo de determinada magnitude numa região ao longo de décadas, e alerta precoce, que detecta as primeiras ondas e envia aviso segundos antes da chegada das ondas destrutivas. Alguns segundos parecem pouco e são suficientes para parar trens, fechar válvulas de gás e afastar pessoas de janelas.

Associações com fases da Lua ou com alinhamento de planetas não se sustentam. O assunto está tratado nas guias sobre superlua e sobre conjunção planetária.

Limites desta guia

Os valores de energia da tabela seguem a relação empírica adotada pelo USGS e são aproximações de ordem de grandeza, não medidas exatas de cada evento. As frequências anuais são médias de longo prazo e variam bastante de ano para ano.

Este texto não é orientação de defesa civil. Para procedimentos em caso de tremor, siga as orientações dos órgãos competentes da sua região. Para entender por que o Brasil treme mesmo estando longe das bordas de placa, veja a guia sobre terremotos no Brasil.

Perguntas frequentes

A escala Richter ainda é usada?

Para eventos pequenos e locais, sim, sob o nome magnitude local. Para terremotos grandes, não: ela satura em torno de magnitude 7 porque foi calibrada para ondas de período curto. Desde 1979 a referência para grandes eventos é a magnitude de momento, que não satura.

O que é magnitude de momento?

É uma magnitude derivada do momento sísmico, que é o produto da rigidez da rocha, da área da falha que rompeu e do deslocamento médio entre os dois lados. Como descreve o trabalho mecânico realizado, ela cresce com o tamanho real da ruptura e não empaca em eventos grandes. Foi proposta por Hanks e Kanamori em 1979.

Quanto mais forte é um terremoto de magnitude 7 comparado a um de 6?

A amplitude registrada no sismograma é 10 vezes maior e a energia liberada é cerca de 32 vezes maior. Entre magnitude 5 e magnitude 7 a diferença de energia chega a cerca de mil vezes.

Por que um terremoto de magnitude menor causou mais estrago?

Porque magnitude mede o tamanho do terremoto e não o efeito no chão. Profundidade rasa, proximidade de área povoada, solo sedimentar que amplifica a vibração e construções sem projeto sísmico produzem estrago muito maior que um evento maior ocorrido no mar ou a 400 km de profundidade.

O que é a escala Mercalli?

É a escala de intensidade, com doze níveis em algarismos romanos, que descreve o que se sentiu e o que foi danificado em cada lugar. Um mesmo terremoto tem uma única magnitude, mas intensidades diferentes em cada bairro, conforme distância, solo e tipo de construção.

Qual foi o maior terremoto já registrado?

O de Valdivia, no Chile, em 22 de maio de 1960, com magnitude de momento 9,5. Ele liberou energia equivalente a alguns bilhões de toneladas de TNT e gerou um tsunami que atingiu o Havaí, o Japão e as Filipinas.

Por que a magnitude muda depois do anúncio inicial?

Porque a primeira estimativa usa poucas estações e um método rápido, e é refinada conforme mais registros chegam e o mecanismo da falha é modelado. Revisões de 0,2 a 0,3 unidade são rotina nas primeiras horas, e às vezes maiores em eventos muito grandes.

Terremotos profundos são menos perigosos?

Em geral sim, para a mesma magnitude. Um foco profundo espalha a energia por uma área muito maior da superfície, então cada ponto recebe intensidade menor. É por isso que sismos profundos na fronteira do Peru com o Brasil são sentidos em vários estados do Norte sem causar dano.

Dá para prever terremotos?

Não com data, local e magnitude. Nenhum precursor testado se mostrou confiável. O que existe é previsão probabilística de longo prazo, que estima a chance de um evento numa região ao longo de décadas, e sistemas de alerta precoce, que detectam as primeiras ondas e enviam aviso segundos antes da chegada das ondas destrutivas.

Quantos terremotos acontecem por dia no mundo?

Milhares, contando os pequenos. De magnitude 4 ou mais, o catálogo global registra cerca de 13 mil por ano, algo em torno de 35 por dia. De magnitude 7 ou mais são cerca de 15 por ano. A página de terremotos hoje do ValorFinal mostra os eventos das últimas 24 horas em um globo interativo.

Para continuar daqui

A parte prática desta guia vive em terremotos hoje, que calcula tudo isto para a coordenada e o fuso da cidade que você escolher, com os dados do dia. A outra guia desta seção é terremotos no brasil: onde e por quê. O índice completo das guias do Observatório reúne todas elas por seção, e a metodologia do portal está em como validamos os cálculos.

Fontes oficiais

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Como citar esta página

ValorFinal. Escala Richter e magnitude de terremoto. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/guia/escala-richter-e-magnitude-de-terremoto. Consultado em: 23/08/2026.