De tempos em tempos aparece a notícia de que dois planetas vão quase se tocar no céu. A foto que ilustra costuma mostrar dois pontos brilhantes lado a lado, e a impressão que fica é a de um encontro físico. Não é. Uma conjunção é um alinhamento de linha de visada, e entender essa diferença ajuda tanto a apreciar o fenômeno quanto a não cair nas versões exageradas que circulam junto. Quais planetas estão visíveis hoje e onde procurar cada um está na página de planetas visíveis hoje.
O que é uma conjunção, tecnicamente
Em astronomia de posição, conjunção é o instante em que dois corpos têm a mesma coordenada em um sistema de referência, geralmente a mesma ascensão reta ou a mesma longitude eclíptica. Como as órbitas são levemente inclinadas entre si, os dois quase nunca coincidem também na outra coordenada, e sobra uma separação vertical.
Por isso existe um segundo termo, mais útil na prática: apulso, que é o instante de menor separação angular aparente entre os dois. É esse número que interessa a quem vai olhar, e ele costuma cair algumas horas antes ou depois da conjunção formal.
As separações são medidas em graus e minutos de arco. Para dar escala, a Lua cheia tem cerca de 31 minutos de arco de diâmetro. Uma conjunção de 6 minutos de arco significa dois planetas dentro de um quinto do diâmetro da Lua, o que a olho nu aparece como um ponto duplo colado.
Por que é só perspectiva
Considere a conjunção de Júpiter e Saturno de dezembro de 2020, a mais famosa dos últimos séculos. Vista da Terra, a separação foi de 6,1 minutos de arco. No espaço, os dois planetas estavam a mais de 700 milhões de quilômetros um do outro, distância maior que a que separa a Terra de Júpiter.
A analogia mais direta é a de dois postes em uma rua reta. Andando pela calçada, você chega a uma posição em que um poste esconde o outro. Nada se moveu na rua: mudou o seu ponto de vista. As conjunções funcionam assim, com a Terra andando na órbita e mudando o ângulo de visada.
Os tipos de encontro no céu
| Tipo | O que é | Com que frequência |
|---|---|---|
| Conjunção planetária | Dois planetas na mesma direção aparente | Vários por ano, com pares diferentes |
| Grande conjunção | Júpiter e Saturno em conjunção | A cada 19,9 anos |
| Conjunção com a Lua | A Lua passando perto de um planeta | Mensal, para cada planeta visível |
| Ocultação | A Lua passa exatamente na frente e apaga o planeta | Algumas por ano, visível só de parte do planeta |
| Trânsito | Mercúrio ou Vênus cruzando o disco do Sol | Raro. O próximo trânsito de Vênus é em 2117 |
| Oposição | Planeta externo no lado oposto ao Sol, visível a noite toda | Anual para cada planeta externo |
A oposição merece destaque porque é o melhor momento para observar um planeta externo. Nela, o planeta nasce no pôr do sol, culmina à meia-noite e se põe no amanhecer, além de estar no ponto mais próximo da Terra naquele ciclo. As oposições de Marte são as mais notáveis: o brilho dele salta e o disco fica grande o bastante para mostrar detalhe em telescópio modesto.
A grande conjunção de Júpiter e Saturno
Júpiter leva 11,86 anos para dar uma volta em torno do Sol e Saturno leva 29,4. A cada 19,9 anos, aproximadamente, Júpiter alcança Saturno na mesma direção vista da Terra. É o encontro mais raro entre os planetas brilhantes, e por isso ganhou nome próprio.
A maioria dessas conjunções tem separação de um grau ou mais, o que já é notável mas não impressiona. A de 21 de dezembro de 2020 foi excepcional porque a separação caiu a 6,1 minutos de arco: os dois planetas apareceram como um objeto duplo, e um telescópio pequeno mostrava Júpiter com suas luas e os anéis de Saturno no mesmo campo. Foi a menor separação desde julho de 1623, e a mais próxima observável em céu escuro desde 1226.
A grande conjunção também aparece em discussões históricas sobre a estrela de Belém, já que Johannes Kepler propôs em 1614 que a tripla conjunção de Júpiter e Saturno de 7 antes da era comum poderia explicar o relato. É uma hipótese entre várias, e não há consenso.
O que é, e o que não é, um alinhamento planetário
A expressão alinhamento planetário quase sempre significa que vários planetas estão visíveis ao mesmo tempo do mesmo lado do céu, agrupados dentro de um arco de algumas dezenas de graus ao longo da eclíptica. É bonito de ver e vale a saída de casa, mas não é alinhamento no sentido geométrico.
Um alinhamento verdadeiro, com todos os planetas na mesma linha reta a partir do Sol, nunca acontece. As órbitas são inclinadas umas em relação às outras e os períodos são incomensuráveis. Simulações de longo prazo mostram que uma configuração com os oito planetas dentro de poucos graus de arco não ocorre nem em escalas de dezenas de milhares de anos.
Sobre os efeitos
Nenhum agrupamento planetário produz efeito mensurável na Terra. A força de maré de um corpo cai com o cubo da distância, e a maré combinada de todos os planetas juntos é milhares de vezes menor que a da Lua sozinha. Não há relação com terremotos, com clima ou com atividade sísmica. Quanto tremeu de fato hoje está na página de terremotos hoje.
Ocultações: quando a Lua apaga um planeta
Como a Lua se move rápido, cerca de meio grau por hora, e o disco dela tem meio grau de diâmetro, ela passa exatamente na frente de estrelas e planetas com alguma frequência. Quando isso acontece, o objeto some de forma abrupta na borda lunar e reaparece do outro lado depois de alguns minutos ou até mais de uma hora.
O desaparecimento é instantâneo no caso de uma estrela, porque ela é um ponto. Com um planeta, que tem disco, o sumiço leva alguns segundos e dá para ver a borda da Lua comendo o disco. Ocultações de Vênus e de Júpiter são as mais espetaculares, e uma ocultação é visível apenas de uma faixa da superfície terrestre, porque depende do ângulo de visada.
Como fotografar uma conjunção com o celular
- Use apoio. Qualquer tripé pequeno, ou o celular escorado numa mureta, resolve. Sem apoio, a exposição longa que a cena exige sai tremida.
- Ative o modo manual ou profissional. Comece com ISO 400, exposição de 1 a 2 segundos e foco no infinito. Nunca use flash.
- Enquadre com algo em primeiro plano: uma árvore, um telhado, uma torre. Dois pontos num quadro preto não comunicam nada, e é o elemento terrestre que dá escala.
- Fotografe no crepúsculo, não com o céu totalmente escuro. O azul profundo do fim do crepúsculo náutico é o melhor fundo para planetas.
- Se o celular tiver modo noturno automático, teste os dois. O modo noturno empilha imagens e às vezes borra os pontos.
Como saber que há uma conjunção acontecendo
A pista mais simples é olhar para o céu no crepúsculo por alguns dias seguidos. Dois planetas em aproximação mudam de separação de forma perceptível de uma noite para outra, e o movimento é evidente ao longo de uma semana.
A página de planetas visíveis hoje mostra a posição de cada planeta acima do horizonte na sua cidade, com azimute e altura, o que permite ver quando dois deles estão convergindo para a mesma direção. Para saber se a noite terá céu utilizável, o céu hoje traz a previsão de nuvens hora a hora e a janela realmente escura.
Limites desta guia
As frequências citadas são médias de longo prazo. Conjunções entre pares específicos de planetas variam bastante de intervalo, porque dependem dos dois períodos orbitais e da posição da Terra. A separação mínima de um encontro também depende do lugar de onde se observa, por efeito de paralaxe, e a diferença é notável no caso da Lua.
Este texto não trata de interpretações astrológicas de conjunções. O critério aqui é o mesmo do resto do portal: o que é geometria observável entra, o que é atribuição de significado não entra. Para identificar cada ponto do céu antes de reconhecer um encontro, comece pela guia de como identificar planetas no céu.