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Terremotos no Brasil: onde e por quê

Estar no meio da placa sul-americana reduz muito o risco, mas não zera. O maior tremor já registrado em solo brasileiro chegou perto de magnitude 6,2.

Publicado sob responsabilidade editorial de Cesar GargiuloCatálogo do USGS e boletins da rede sismográfica brasileira.

Resposta rápida

  • O Brasil fica no interior da placa Sul-Americana, longe das bordas onde ocorre a maior parte dos terremotos, e por isso registra sismos pequenos e pouco frequentes.
  • O maior tremor já registrado em território brasileiro ocorreu em 31 de janeiro de 1955, na Serra do Tombador, em Mato Grosso, com magnitude em torno de 6,2.
  • A única morte por terremoto documentada no país aconteceu em dezembro de 2007, em Caraíbas, distrito de Itacarambi, em Minas Gerais, num evento de magnitude próxima de 4,9.
  • As zonas mais ativas ficam no Nordeste, especialmente Ceará e Rio Grande do Norte, no norte de Mato Grosso, no Amazonas e na divisa de Minas Gerais com a Bahia.

Uma pergunta aparece toda vez que alguém sente um tremor no Brasil: isso não deveria acontecer aqui? A resposta é que acontece, com regularidade, e há décadas existe uma rede sismográfica nacional registrando esses eventos. O que muda em relação ao Chile ou ao Japão é a magnitude típica e a frequência, e o motivo disso tem a ver com onde estamos dentro da placa tectônica. Os tremores das últimas 24 horas no mundo inteiro, num globo interativo, estão em terremotos hoje.

Por que treme no meio de uma placa

Cerca de 95% dos terremotos do mundo acontecem nas bordas das placas tectônicas, onde elas se chocam, se afastam ou deslizam uma pela outra. O Brasil está a milhares de quilômetros das duas bordas mais próximas: a cordilheira meso-atlântica, a leste, onde a placa se forma, e a zona de subducção andina, a oeste, onde ela mergulha sob a placa de Nazca.

Só que placa tectônica não é um bloco solto flutuando. Ela é empurrada nas bordas, e essa força se propaga por todo o interior como tensão acumulada. Quando essa tensão encontra uma zona de fraqueza, geralmente uma falha geológica antiga reativada, ela é liberada em forma de tremor. Isso se chama sismicidade intraplaca.

A tensão intraplaca é muito menor que a das bordas, o que explica as magnitudes modestas. Em compensação, ela é distribuída de forma menos previsível: como as falhas antigas do embasamento brasileiro são numerosas e mal mapeadas, um tremor pode ocorrer em regiões sem histórico conhecido.

Os maiores tremores registrados no país

DataLocalMagnitudeO que se registrou
31/01/1955Serra do Tombador, Mato Grosso6,2Maior sismo em terra no país, em região pouco habitada
28/01/1955Litoral do Espírito Santo6,3Evento na margem continental, sentido em várias cidades
05/08/1990Codajás, Amazonas5,5Sismo profundo, sentido em ampla área da Amazônia
20/11/1980Pacajus, Ceará5,2Danos em construções de alvenaria simples
1986 e 1987João Câmara, Rio Grande do Norte5,1Enxame sísmico de meses, com milhares de eventos e danos a casas
09/12/2007Caraíbas, Itacarambi, Minas Gerais4,9Colapso de casas de adobe e a única morte por sismo no Brasil

O caso de Itacarambi merece atenção porque contraria a intuição da magnitude. Um evento de 4,9 é pequeno em padrão global, e em muitos lugares passaria como um susto. Ali ele matou porque foi muito raso, com foco a poucos quilômetros de profundidade, diretamente sob um povoado com casas de adobe sem qualquer resistência lateral. É o exemplo brasileiro do princípio geral: o estrago depende de profundidade, solo e construção, não só do número. Isso está detalhado na guia sobre escala Richter e magnitude.

João Câmara: o enxame que durou meses

Entre 1986 e 1987, a região de João Câmara, no Rio Grande do Norte, viveu um dos episódios sísmicos mais estudados do país. Foram milhares de tremores ao longo de meses, com o maior atingindo magnitude próxima de 5,1 em novembro de 1986. Casas rachavam, parte da população dormia fora e a cidade foi parcialmente evacuada em alguns momentos.

O episódio levou à identificação da falha de Samambaia, uma estrutura no embasamento cristalino, e serviu de argumento para a criação de uma rede sismográfica permanente no Nordeste. É um lembrete de que sismicidade intraplaca pode ser persistente mesmo sendo modesta em magnitude: o problema não foi um evento único, foi a repetição.

Onde o Brasil treme mais

As zonas mais ativas mapeadas pelo monitoramento sismológico brasileiro se concentram em algumas regiões.

Existe ainda um tipo de sismicidade de origem humana. Grandes reservatórios de hidrelétricas alteram a distribuição de peso e a pressão de água nas rochas, e a sismicidade induzida por reservatório está documentada em vários lagos brasileiros. Os eventos costumam ser de magnitude baixa e começam meses ou anos depois do enchimento.

Por que um tremor no Peru é sentido no Acre

Terremotos de grande magnitude na zona de subducção andina, na fronteira do Peru com o Brasil, ocorrem com frequência a profundidades superiores a 500 quilômetros. Um foco tão profundo espalha energia por uma área imensa da superfície.

O resultado é um balanço lento e prolongado, sentido em edifícios altos de Rio Branco, Porto Velho e Manaus, e às vezes até em capitais do Centro-Oeste. Não há dano, porque a intensidade em cada ponto é baixa, mas o relato é assustador para quem não está acostumado. É o mesmo fenômeno pelo qual arranha-céus balançam a centenas de quilômetros do epicentro: estruturas altas respondem a ondas de período longo, que são justamente as que viajam melhor.

Risco de tsunami no litoral brasileiro

O risco é considerado muito baixo, e por razões geográficas claras. Tsunamis destrutivos são gerados sobretudo por sismos rasos de grande magnitude em zonas de subducção, e não existe zona de subducção no Atlântico Sul junto à costa brasileira.

Cenários remotos discutidos na literatura envolvem grandes sismos na região do Caribe, na margem africana ou colapsos de flanco de ilhas vulcânicas, com ondas atenuadas ao cruzar o oceano. É um risco residual, não um risco operacional. O Brasil participa do sistema de alerta de tsunami do Atlântico coordenado internacionalmente, com o monitoramento nacional sob responsabilidade da Marinha.

Norma de construção e o que ela exige

O Brasil tem norma técnica para projeto sísmico: a ABNT NBR 15421, publicada em 2006, estabelece requisitos para estruturas resistentes a sismos e divide o território em zonas sísmicas. Em boa parte do país a zona é a de menor exigência, e o projeto comum já atende. Em algumas regiões do Norte e do Nordeste os requisitos são maiores.

A lição de Itacarambi não é sobre norma de edifício alto: é sobre construção vernacular sem amarração. Casas de adobe e de alvenaria sem estrutura de concreto colapsam com acelerações que um prédio comum absorve sem trincar. O ganho de segurança em regiões de sismicidade recorrente vem menos de norma sofisticada e mais de detalhes básicos, como cintas de amarração e telhado bem fixado.

Quem monitora, e como acompanhar

A Rede Sismográfica Brasileira reúne estações operadas por instituições de pesquisa de várias regiões do país e integra os dados num catálogo nacional. Os eventos brasileiros também aparecem nos catálogos internacionais quando têm magnitude suficiente para ser detectada por estações distantes.

A página de terremotos hoje do Observatório usa os boletins do USGS, que é a fonte com cobertura global e atualização em minutos. Ela mostra magnitude, profundidade, local e horário de cada evento das últimas 24 horas sobre um globo que gira, o que deixa evidente o desenho das bordas de placa e o quanto o interior delas é quieto em comparação.

Limites desta guia

As magnitudes históricas citadas vêm de catálogos e foram determinadas com instrumentação da época, então valores um pouco diferentes aparecem em fontes distintas, especialmente para os eventos de 1955. Onde há divergência, o texto usa o valor mais citado na literatura sismológica brasileira.

Nada aqui é orientação de defesa civil ou avaliação de risco de um imóvel específico. Para procedimentos em caso de tremor, siga as orientações dos órgãos competentes. Para entender como se lê o número de um boletim, veja escala Richter e magnitude de terremoto.

Perguntas frequentes

Existe terremoto no Brasil?

Existe, com regularidade, mas de magnitude modesta. O país fica no interior da placa Sul-Americana, longe das bordas onde ocorre a maior parte dos sismos do mundo. A tensão que chega ao interior da placa é bem menor, e por isso os tremores brasileiros raramente passam de magnitude 5.

Qual foi o maior terremoto do Brasil?

O de 31 de janeiro de 1955, na Serra do Tombador, em Mato Grosso, com magnitude em torno de 6,2, é o maior registrado em terra no território brasileiro. Três dias antes, um evento de magnitude próxima de 6,3 ocorreu no mar, na margem continental do Espírito Santo.

Já morreu alguém em terremoto no Brasil?

Há uma morte documentada: em 9 de dezembro de 2007, no povoado de Caraíbas, distrito de Itacarambi, no norte de Minas Gerais. O tremor teve magnitude próxima de 4,9 e foco muito raso, sob casas de adobe sem estrutura de amarração, que colapsaram.

Por que treme se o Brasil não fica na borda de uma placa?

Porque a placa é empurrada nas bordas e essa força se propaga por todo o interior como tensão acumulada. Quando encontra uma falha geológica antiga em zona de fraqueza, a tensão é liberada em forma de tremor. É a chamada sismicidade intraplaca, menos intensa e menos previsível que a das bordas.

Quais são as regiões que mais tremem no Brasil?

Ceará e Rio Grande do Norte concentram boa parte da atividade, seguidos pelo norte de Mato Grosso, pelo Amazonas e pela divisa de Minas Gerais com a Bahia. Há também eventos na margem continental do Sudeste, geralmente sentidos apenas em cidades litorâneas.

O que aconteceu em João Câmara?

Entre 1986 e 1987, a região de João Câmara, no Rio Grande do Norte, registrou milhares de tremores ao longo de meses, com o maior atingindo magnitude próxima de 5,1. Casas rachavam e parte da população passou a dormir fora. O episódio levou à identificação da falha de Samambaia e à ampliação do monitoramento sismológico no Nordeste.

Por que sinto tremor no Acre se o terremoto foi no Peru?

Porque os grandes sismos da fronteira ocorrem a profundidades superiores a 500 quilômetros, na zona de subducção andina. Um foco tão profundo espalha a energia por uma área enorme, produzindo balanço lento e prolongado a centenas de quilômetros, sem intensidade suficiente para causar dano.

Barragem pode causar terremoto?

Pode, e o fenômeno tem nome: sismicidade induzida por reservatório. O peso da água e a mudança de pressão nos poros da rocha alteram o estado de tensão local e podem antecipar a ruptura de falhas já tensionadas. Os eventos costumam ser de magnitude baixa e aparecem meses ou anos depois do enchimento. Está documentado em vários reservatórios brasileiros.

O litoral brasileiro corre risco de tsunami?

O risco é considerado muito baixo. Tsunamis destrutivos são gerados sobretudo por sismos rasos de grande magnitude em zonas de subducção, e não há zona de subducção junto à costa brasileira no Atlântico Sul. Os cenários discutidos envolvem fontes remotas, com ondas bastante atenuadas ao cruzar o oceano.

Existe norma de construção antissísmica no Brasil?

Existe: a ABNT NBR 15421, de 2006, que trata do projeto de estruturas resistentes a sismos e divide o país em zonas sísmicas. Em boa parte do território a exigência é a mínima. O ponto mais crítico, evidenciado em Itacarambi, é a construção sem amarração estrutural, que colapsa com acelerações que um prédio comum absorve.

Para continuar daqui

A parte prática desta guia vive em terremotos hoje, que calcula tudo isto para a coordenada e o fuso da cidade que você escolher, com os dados do dia. A outra guia desta seção é escala richter e magnitude de terremoto. O índice completo das guias do Observatório reúne todas elas por seção, e a metodologia do portal está em como validamos os cálculos.

Fontes oficiais

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Como citar esta página

ValorFinal. Terremotos no Brasil: onde e por quê. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/guia/terremotos-no-brasil. Consultado em: 23/08/2026.