Uma pergunta aparece toda vez que alguém sente um tremor no Brasil: isso não deveria acontecer aqui? A resposta é que acontece, com regularidade, e há décadas existe uma rede sismográfica nacional registrando esses eventos. O que muda em relação ao Chile ou ao Japão é a magnitude típica e a frequência, e o motivo disso tem a ver com onde estamos dentro da placa tectônica. Os tremores das últimas 24 horas no mundo inteiro, num globo interativo, estão em terremotos hoje.
Por que treme no meio de uma placa
Cerca de 95% dos terremotos do mundo acontecem nas bordas das placas tectônicas, onde elas se chocam, se afastam ou deslizam uma pela outra. O Brasil está a milhares de quilômetros das duas bordas mais próximas: a cordilheira meso-atlântica, a leste, onde a placa se forma, e a zona de subducção andina, a oeste, onde ela mergulha sob a placa de Nazca.
Só que placa tectônica não é um bloco solto flutuando. Ela é empurrada nas bordas, e essa força se propaga por todo o interior como tensão acumulada. Quando essa tensão encontra uma zona de fraqueza, geralmente uma falha geológica antiga reativada, ela é liberada em forma de tremor. Isso se chama sismicidade intraplaca.
A tensão intraplaca é muito menor que a das bordas, o que explica as magnitudes modestas. Em compensação, ela é distribuída de forma menos previsível: como as falhas antigas do embasamento brasileiro são numerosas e mal mapeadas, um tremor pode ocorrer em regiões sem histórico conhecido.
Os maiores tremores registrados no país
| Data | Local | Magnitude | O que se registrou |
|---|---|---|---|
| 31/01/1955 | Serra do Tombador, Mato Grosso | 6,2 | Maior sismo em terra no país, em região pouco habitada |
| 28/01/1955 | Litoral do Espírito Santo | 6,3 | Evento na margem continental, sentido em várias cidades |
| 05/08/1990 | Codajás, Amazonas | 5,5 | Sismo profundo, sentido em ampla área da Amazônia |
| 20/11/1980 | Pacajus, Ceará | 5,2 | Danos em construções de alvenaria simples |
| 1986 e 1987 | João Câmara, Rio Grande do Norte | 5,1 | Enxame sísmico de meses, com milhares de eventos e danos a casas |
| 09/12/2007 | Caraíbas, Itacarambi, Minas Gerais | 4,9 | Colapso de casas de adobe e a única morte por sismo no Brasil |
O caso de Itacarambi merece atenção porque contraria a intuição da magnitude. Um evento de 4,9 é pequeno em padrão global, e em muitos lugares passaria como um susto. Ali ele matou porque foi muito raso, com foco a poucos quilômetros de profundidade, diretamente sob um povoado com casas de adobe sem qualquer resistência lateral. É o exemplo brasileiro do princípio geral: o estrago depende de profundidade, solo e construção, não só do número. Isso está detalhado na guia sobre escala Richter e magnitude.
João Câmara: o enxame que durou meses
Entre 1986 e 1987, a região de João Câmara, no Rio Grande do Norte, viveu um dos episódios sísmicos mais estudados do país. Foram milhares de tremores ao longo de meses, com o maior atingindo magnitude próxima de 5,1 em novembro de 1986. Casas rachavam, parte da população dormia fora e a cidade foi parcialmente evacuada em alguns momentos.
O episódio levou à identificação da falha de Samambaia, uma estrutura no embasamento cristalino, e serviu de argumento para a criação de uma rede sismográfica permanente no Nordeste. É um lembrete de que sismicidade intraplaca pode ser persistente mesmo sendo modesta em magnitude: o problema não foi um evento único, foi a repetição.
Onde o Brasil treme mais
As zonas mais ativas mapeadas pelo monitoramento sismológico brasileiro se concentram em algumas regiões.
- Nordeste, com destaque para Ceará e Rio Grande do Norte, onde falhas do embasamento cristalino são reativadas com frequência.
- Norte de Mato Grosso, na região de Porto dos Gaúchos, com atividade recorrente desde os anos 1950.
- Amazonas e a faixa próxima à fronteira com o Peru, onde ocorrem sismos profundos ligados à subducção andina e sentidos em grandes áreas.
- Divisa de Minas Gerais com a Bahia, na região do vale do São Francisco.
- Margem continental do Sudeste, com eventos no mar, geralmente sentidos apenas em cidades litorâneas.
Existe ainda um tipo de sismicidade de origem humana. Grandes reservatórios de hidrelétricas alteram a distribuição de peso e a pressão de água nas rochas, e a sismicidade induzida por reservatório está documentada em vários lagos brasileiros. Os eventos costumam ser de magnitude baixa e começam meses ou anos depois do enchimento.
Por que um tremor no Peru é sentido no Acre
Terremotos de grande magnitude na zona de subducção andina, na fronteira do Peru com o Brasil, ocorrem com frequência a profundidades superiores a 500 quilômetros. Um foco tão profundo espalha energia por uma área imensa da superfície.
O resultado é um balanço lento e prolongado, sentido em edifícios altos de Rio Branco, Porto Velho e Manaus, e às vezes até em capitais do Centro-Oeste. Não há dano, porque a intensidade em cada ponto é baixa, mas o relato é assustador para quem não está acostumado. É o mesmo fenômeno pelo qual arranha-céus balançam a centenas de quilômetros do epicentro: estruturas altas respondem a ondas de período longo, que são justamente as que viajam melhor.
Risco de tsunami no litoral brasileiro
O risco é considerado muito baixo, e por razões geográficas claras. Tsunamis destrutivos são gerados sobretudo por sismos rasos de grande magnitude em zonas de subducção, e não existe zona de subducção no Atlântico Sul junto à costa brasileira.
Cenários remotos discutidos na literatura envolvem grandes sismos na região do Caribe, na margem africana ou colapsos de flanco de ilhas vulcânicas, com ondas atenuadas ao cruzar o oceano. É um risco residual, não um risco operacional. O Brasil participa do sistema de alerta de tsunami do Atlântico coordenado internacionalmente, com o monitoramento nacional sob responsabilidade da Marinha.
Norma de construção e o que ela exige
O Brasil tem norma técnica para projeto sísmico: a ABNT NBR 15421, publicada em 2006, estabelece requisitos para estruturas resistentes a sismos e divide o território em zonas sísmicas. Em boa parte do país a zona é a de menor exigência, e o projeto comum já atende. Em algumas regiões do Norte e do Nordeste os requisitos são maiores.
A lição de Itacarambi não é sobre norma de edifício alto: é sobre construção vernacular sem amarração. Casas de adobe e de alvenaria sem estrutura de concreto colapsam com acelerações que um prédio comum absorve sem trincar. O ganho de segurança em regiões de sismicidade recorrente vem menos de norma sofisticada e mais de detalhes básicos, como cintas de amarração e telhado bem fixado.
Quem monitora, e como acompanhar
A Rede Sismográfica Brasileira reúne estações operadas por instituições de pesquisa de várias regiões do país e integra os dados num catálogo nacional. Os eventos brasileiros também aparecem nos catálogos internacionais quando têm magnitude suficiente para ser detectada por estações distantes.
A página de terremotos hoje do Observatório usa os boletins do USGS, que é a fonte com cobertura global e atualização em minutos. Ela mostra magnitude, profundidade, local e horário de cada evento das últimas 24 horas sobre um globo que gira, o que deixa evidente o desenho das bordas de placa e o quanto o interior delas é quieto em comparação.
Limites desta guia
As magnitudes históricas citadas vêm de catálogos e foram determinadas com instrumentação da época, então valores um pouco diferentes aparecem em fontes distintas, especialmente para os eventos de 1955. Onde há divergência, o texto usa o valor mais citado na literatura sismológica brasileira.
Nada aqui é orientação de defesa civil ou avaliação de risco de um imóvel específico. Para procedimentos em caso de tremor, siga as orientações dos órgãos competentes. Para entender como se lê o número de um boletim, veja escala Richter e magnitude de terremoto.