Toda vez que uma superlua se aproxima, a mesma sequência se repete: manchetes, fotos com teleobjetiva mostrando um disco gigante atrás de um prédio, e depois milhares de pessoas olhando para o céu e achando que a Lua está do tamanho de sempre. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e a explicação está em números que dá para conferir. A distância da Lua hoje, com a fase e os horários da sua cidade, sai na página da fase da Lua hoje.
A órbita da Lua não é um círculo
A Lua descreve uma elipse em torno da Terra, e a Terra ocupa um dos focos dessa elipse. O resultado é que a distância varia ao longo do mês. O ponto mais próximo se chama perigeu, o mais distante se chama apogeu, e a Lua passa por cada um deles uma vez por mês anomalístico, que dura 27,55 dias.
| Ponto da órbita | Distância centro a centro | Diâmetro aparente |
|---|---|---|
| Perigeu extremo | 356.500 km | 33,5 minutos de arco |
| Distância média | 384.400 km | 31,1 minutos de arco |
| Apogeu extremo | 406.700 km | 29,4 minutos de arco |
Um minuto de arco é a sexagésima parte de um grau. A Lua, portanto, ocupa sempre pouco mais de meio grau no céu, ou seja, cabe atrás do dedo mindinho com o braço esticado. Isso vale inclusive na superlua, e é a primeira razão pela qual o efeito passa despercebido a olho nu.
De onde vem a palavra superlua
O termo foi cunhado em 1979 pelo astrólogo americano Richard Nolle, que o definiu como uma Lua nova ou cheia ocorrendo com a Lua a 90% ou menos da distância mínima daquela órbita. A definição não é astronômica e nunca foi adotada por nenhuma união científica. Astrônomos usam a expressão técnica correspondente, sizígia de perigeu, que descreve o alinhamento Sol, Terra e Lua coincidindo com a passagem pelo perigeu.
A palavra pegou a partir de 2011, quando um perigeu especialmente próximo coincidiu com Lua cheia e o termo circulou muito na imprensa. Como não existe definição oficial, o número de superluas por ano depende de quem está contando. Com o critério de Nolle costumam ser três ou quatro por ano; com critérios mais restritivos, uma ou duas.
A contrapartida também tem nome popular: microlua, ou Lua mínima, quando a Lua cheia cai perto do apogeu. Ela recebe muito menos atenção, embora a diferença entre a maior e a menor Lua cheia do ano seja justamente a comparação que mostra o efeito.
Quanto realmente muda
A conta é direta. O diâmetro aparente é inversamente proporcional à distância, então a razão entre 406.700 e 356.500 dá cerca de 1,14. A superlua extrema tem 14% mais diâmetro aparente que a microlua extrema. Comparada a uma Lua cheia de distância média, a diferença cai para cerca de 7%.
O brilho segue o quadrado dessa razão, porque a área do disco cresce com o quadrado do diâmetro. Um fator de 1,14 em diâmetro vira cerca de 1,30 em área, ou seja, uma superlua extrema é aproximadamente 30% mais brilhante que uma microlua extrema.
Sete por cento de diâmetro é o tipo de diferença que o olho humano não detecta sem comparação lado a lado, e comparação lado a lado é impossível: as duas luas estão separadas por meses. Os 30% de brilho são mais perceptíveis, principalmente para quem observa em local escuro e nota o quanto a paisagem fica iluminada. Mesmo assim, ninguém consegue afirmar com segurança que uma noite específica é a da superlua sem consultar um calendário.
Como comprovar em casa
Fotografe a Lua cheia com o celular em modo manual, com a mesma distância focal e o mesmo enquadramento, na superlua e na Lua cheia mais distante do mesmo ano. Depois abra as duas imagens lado a lado e meça o diâmetro em pixels. A diferença aparece, e é ela que a manchete está descrevendo. A foto isolada não prova nada.
A ilusão lunar, que é o efeito de verdade
Quase todo mundo já viu a Lua imensa surgindo no horizonte, alaranjada, atrás de prédios ou montanhas. Esse efeito é muito maior que os 7% da superlua, e ele não tem nada a ver com distância nem com atmosfera. Chama-se ilusão lunar, e é um fenômeno de percepção que acontece dentro do cérebro.
A prova é simples e antiga: fotografe a Lua no horizonte e depois com ela alta no céu, na mesma noite, com a mesma lente. Nas duas imagens o disco tem praticamente o mesmo tamanho em pixels. Na verdade, a Lua no horizonte é ligeiramente menor, porque está mais distante do observador pelo raio da Terra.
Explicações para a ilusão são debatidas desde a Antiguidade e ainda não há consenso completo. A hipótese mais aceita envolve a presença de referências de distância no horizonte, como árvores e construções, que o cérebro usa para julgar tamanho. A cor alaranjada, essa sim, é real e tem causa física: perto do horizonte a luz atravessa muito mais atmosfera, e o azul é espalhado para fora do caminho.
Superlua e marés
Aqui existe efeito real e mensurável. A força de maré varia com o inverso do cubo da distância, então a proximidade do perigeu aumenta a amplitude das marés. Quando o perigeu coincide com Lua cheia ou nova, as marés de sizígia ficam um pouco mais fortes, e o fenômeno tem nome próprio: maré de perigeu, ou maré perigeana de sizígia.
A diferença típica é de alguns centímetros a poucas dezenas de centímetros em relação a uma maré de sizígia comum, dependendo muito da geografia local. Em regiões costeiras planas, com maré já alta e vento na direção errada, isso pode ser o suficiente para alagamentos leves. É por isso que a Marinha e as defesas civis costeiras costumam emitir avisos nessas datas. Isso é bem diferente de catástrofe, e nenhuma superlua provoca inundação por conta própria.
Superlua causa terremoto?
Essa associação circula bastante e não se sustenta. A tensão que a maré lunar impõe às rochas da crosta é ordens de grandeza menor que a tensão tectônica acumulada numa falha. Estudos que cruzaram catálogos sísmicos globais com a fase e a distância lunares encontraram, na melhor das hipóteses, correlações muito fracas e restritas a microssismicidade em ambientes específicos, como zonas vulcânicas e falhas submarinas rasas.
Para terremotos grandes, que são os que aparecem nas notícias, não há relação estabelecida. O que existe é viés de seleção: como há três ou quatro superluas por ano e terremotos acontecem todos os dias, qualquer tremor grande estará sempre a poucos dias de alguma fase lunar notável. Quantos tremores acontecem por dia no mundo está na página de terremotos hoje, e a guia sobre escala Richter e magnitude explica por que a energia envolvida não é comparável.
Como aproveitar uma superlua
- Vá pelo horário do nascer da Lua, não pelo meio da noite. A Lua cheia nasce por volta do pôr do sol, e é nesse momento que ela aparece grande no horizonte, alaranjada e junto com a paisagem.
- Escolha um lugar com horizonte livre na direção leste e algum elemento em primeiro plano: um morro, uma torre, uma linha de prédios. É o contraste com esse elemento que produz a imagem impressionante.
- Para fotografar, use zoom óptico e não digital. A Lua grande das fotos de jornal vem de teleobjetivas longas, que comprimem a perspectiva e aproximam o disco do objeto em primeiro plano.
- Reduza a exposição. A Lua cheia é uma superfície iluminada por sol pleno, e o automático do celular quase sempre estoura o branco. Toque no disco na tela e arraste o controle de exposição para baixo.
- Não espere ver detalhe de cratera. Na Lua cheia a luz vem de frente e o relevo desaparece. Para crateras, o quarto crescente é muito melhor.
O que esta guia não afirma
Os valores extremos de perigeu e apogeu variam de ano para ano, porque a órbita lunar é perturbada pelo Sol e pelos planetas. Os números citados aqui são os limites típicos e não valem para uma data específica: para a distância real de hoje, use a página da Lua, que a calcula a partir de efemérides.
Também não existe aqui qualquer afirmação sobre efeitos da superlua em comportamento, sono, partos ou humor. O que a evidência sustenta e o que ela não sustenta sobre influência lunar está tratado na guia Lua, plantio, marés e sono. E se o objetivo é escolher a melhor noite do mês para observar o céu, a superlua é justamente a pior: o calendário lunar mostra quando ela sai da frente.