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Asteroide potencialmente perigoso: o que significa

A manchete diz perigoso e o leitor entende iminente. O termo tem definição técnica fechada, com dois critérios objetivos, e nenhum deles fala em rota de colisão.

Publicado sob responsabilidade editorial de Cesar GargiuloNASA CNEOS: critérios de PHA, escala de Torino e tabela Sentry.

Resposta rápida

  • Asteroide potencialmente perigoso, ou PHA, é uma classificação orbital: a órbita dele passa a 0,05 unidade astronômica ou menos da órbita da Terra, e o objeto tem magnitude absoluta 22 ou mais brilhante, o que corresponde a cerca de 140 metros de diâmetro.
  • Nenhum dos dois critérios é uma previsão de colisão. Um asteroide pode ser PHA por décadas sem ter qualquer chance de impacto no período monitorado.
  • O risco é comunicado pela escala de Torino, de 0 a 10. Apophis chegou ao nível 4 em dezembro de 2004, o maior já registrado, e foi descartado depois de novas observações.
  • Em setembro de 2022, a missão DART da NASA atingiu o asteroide Dimorphos e alterou o período orbital dele em 32 minutos, provando que desvio por impacto cinético funciona.

A expressão asteroide potencialmente perigoso é uma das mais mal interpretadas da divulgação científica. Ela soa como alerta e é, na verdade, uma etiqueta de catálogo, com dois critérios numéricos fixos e nenhuma menção a rota de colisão. Entender a definição muda completamente a leitura das manchetes. Quem passa perto da Terra hoje, com diâmetro estimado, velocidade e distância mínima, está em asteroides próximos da Terra hoje.

Primeiro, o que é um objeto próximo da Terra

A categoria mais ampla é a de objeto próximo da Terra, ou NEO. A definição é simples: qualquer asteroide ou cometa cuja órbita chegue a menos de 1,3 unidade astronômica do Sol no ponto mais próximo. Como a Terra está a 1 unidade astronômica, isso inclui tudo que ronda a vizinhança.

Os asteroides próximos são divididos em quatro famílias, pelo formato da órbita.

FamíliaCaracterística da órbita
AtiraÓrbita inteiramente interna à da Terra
AtonÓrbita menor que a da Terra, mas que cruza a nossa
ApoloÓrbita maior que a da Terra e que cruza a nossa
AmorÓrbita externa, que se aproxima sem cruzar

O catálogo de asteroides próximos passa de 35 mil objetos conhecidos e cresce toda semana, com a maior parte das descobertas vindo de programas automatizados de varredura do céu.

Os dois critérios que definem um PHA

Um objeto próximo recebe a etiqueta de potencialmente perigoso quando cumpre as duas condições ao mesmo tempo.

A primeira é geométrica. A distância mínima de interseção entre as órbitas, uma grandeza chamada MOID, precisa ser de 0,05 unidade astronômica ou menos, o que equivale a cerca de 7,5 milhões de quilômetros. Repare no detalhe: é a distância entre as duas órbitas, não entre os dois corpos. As órbitas podem quase se tocar sem que os dois objetos jamais estejam ali ao mesmo tempo.

A segunda é de tamanho, expressa por brilho. A magnitude absoluta, chamada H, precisa ser 22,0 ou menor, o que corresponde grosso modo a um diâmetro de 140 metros ou mais. A conversão de brilho para tamanho depende da refletividade da superfície, que raramente é conhecida, e por isso o diâmetro é sempre uma faixa estimada, não um valor exato.

O corte de 140 metros não é arbitrário. É a faixa a partir da qual um impacto deixaria de ser um evento local e passaria a causar destruição em escala regional. Existem cerca de 2,4 mil objetos classificados como PHA hoje, e a lista muda conforme novas descobertas entram e órbitas são refinadas.

O que a etiqueta não significa

Ser PHA não implica risco de impacto nas próximas décadas nem nos próximos séculos. A etiqueta diz que o objeto é grande o suficiente para importar e que a órbita dele passa perto o suficiente para merecer acompanhamento contínuo. É uma lista de quem fica sob observação, não uma lista de ameaças.

A escala de Torino

Para comunicar risco ao público, existe uma escala própria, adotada em 1999 e nomeada a partir da cidade italiana onde foi aprovada. A escala de Torino combina duas coisas: a probabilidade de colisão calculada e a energia cinética que o impacto teria.

NívelSignificado
0Sem risco. A chance é nula ou desprezível, ou o objeto queimaria na atmosfera
1Passagem próxima, sem motivo de atenção pública. Observação de rotina
2 a 4Merece atenção de astrônomos. Chance ainda pequena, mas não desprezível
5 a 7Ameaça séria, com risco de devastação regional ou global
8 a 10Colisão certa, do dano local à catástrofe global

Praticamente tudo que já entrou na escala está em nível 0 ou 1. O recorde histórico pertence a Apophis, que atingiu nível 4 em dezembro de 2004, quando os cálculos preliminares indicavam cerca de 2,7% de chance de impacto em 2029. Observações adicionais nas semanas seguintes reduziram a incerteza da órbita e eliminaram o cenário. Em 2021, com dados de radar, o objeto foi removido da lista de risco: não há possibilidade de impacto por pelo menos cem anos.

Apophis continua interessante por outro motivo. Em 13 de abril de 2029 ele passará a cerca de 32 mil quilômetros da superfície da Terra, dentro da órbita dos satélites geoestacionários, e será visível a olho nu de partes da Europa e da África. É a passagem mais próxima já prevista para um objeto desse tamanho.

Existe também uma escala técnica, a de Palermo, usada entre especialistas. Ela é logarítmica e compara o risco de um evento específico ao risco de fundo, isto é, à chance de qualquer objeto de tamanho semelhante atingir a Terra no mesmo intervalo. Valor negativo significa risco abaixo do risco de fundo.

Como o monitoramento funciona

Sempre que um objeto novo é descoberto, a órbita preliminar é calculada com poucas observações e traz incerteza grande. Essa incerteza é representada por uma região do espaço em que o objeto pode estar em cada data futura. Se a Terra cai dentro dessa região, existe probabilidade de impacto diferente de zero.

Conforme mais observações chegam, a região encolhe. Na esmagadora maioria dos casos, a Terra sai dela e a probabilidade cai a zero. É por isso que a probabilidade de impacto de um objeto recém-descoberto costuma subir por alguns dias e depois desaparecer: não é que o perigo aumentou e diminuiu, é que a incerteza estava sendo reduzida.

Esse acompanhamento é automatizado. O sistema Sentry, do Laboratório de Propulsão a Jato, recalcula continuamente as possibilidades de impacto de todos os objetos conhecidos ao longo do próximo século, e a lista pública resultante é o que o Observatório consulta na página de asteroides de hoje.

Três casos que dão escala

Chelyabinsk, Rússia, fevereiro de 2013. Um objeto de cerca de 20 metros entrou na atmosfera sem ter sido detectado, porque vinha da direção do Sol. Explodiu a cerca de 30 quilômetros de altitude com energia estimada em algumas centenas de quilotons. Não houve cratera, e ainda assim a onda de choque quebrou vidros em milhares de edifícios e feriu cerca de 1.500 pessoas, quase todas por estilhaço.

Tunguska, Sibéria, junho de 1908. Um objeto estimado entre 50 e 60 metros explodiu na atmosfera e derrubou algo em torno de 80 milhões de árvores numa área de cerca de 2 mil quilômetros quadrados. Se tivesse ocorrido sobre uma cidade, teria sido a maior catástrofe natural registrada.

Chicxulub, península de Yucatán, há cerca de 66 milhões de anos. Um objeto de cerca de 10 quilômetros deixou uma cratera de 180 quilômetros de diâmetro e está associado à extinção que eliminou os dinossauros não avianos. Objetos desse porte são raríssimos: a taxa estimada é de um a cada dezenas de milhões de anos.

Defesa planetária deixou de ser hipótese

Em 26 de setembro de 2022, a sonda DART da NASA colidiu deliberadamente com Dimorphos, a pequena lua do asteroide Didymos, a cerca de 22 mil quilômetros por hora. O objetivo era testar se um impacto cinético consegue alterar a órbita de um corpo pequeno.

O critério de sucesso mínimo era mudar o período orbital de Dimorphos em ao menos 73 segundos. A mudança medida foi de cerca de 32 minutos, muito além do esperado, em parte porque o material ejetado pelo impacto funcionou como propulsão adicional.

O resultado importa porque estabelece que a técnica funciona quando há aviso com antecedência de anos. Nenhuma técnica funciona com dias de aviso, e é por isso que o esforço maior está em completar o catálogo. Estima-se que mais de 95% dos objetos com 1 quilômetro ou mais já foram encontrados, contra algo em torno de 40% dos objetos de 140 metros ou mais.

Como ler uma notícia sobre asteroide

  1. Procure a distância mínima em distâncias lunares. Abaixo de 1 é realmente perto; acima de 10 é passagem de rotina. A régua está explicada na guia sobre distância lunar e unidade astronômica.
  2. Veja o tamanho estimado, sempre uma faixa. Abaixo de 25 metros, o objeto provavelmente se desintegraria na atmosfera.
  3. Desconfie de comparações com estádios e prédios sem número junto. Elas existem para impressionar, não para informar.
  4. Se a matéria menciona probabilidade de impacto, cheque a data do cálculo. Números de objeto recém-descoberto envelhecem em dias.
  5. Lembre que potencialmente perigoso é etiqueta de catálogo. Ela não muda com a proximidade de uma passagem específica.

Limites desta guia

As contagens de objetos conhecidos mudam continuamente, com descobertas semanais. Os números citados são ordens de grandeza atuais e servem para dar escala, não como estatística congelada.

Diâmetros de asteroides derivados de brilho carregam incerteza grande, porque a refletividade da superfície raramente é medida. Uma faixa de 100 a 230 metros para o mesmo objeto é comum e não indica erro. Para acompanhar as passagens de hoje com os dados do dia, use a página de asteroides próximos da Terra.

Perguntas frequentes

O que significa asteroide potencialmente perigoso?

É uma classificação orbital com dois critérios: a distância mínima entre a órbita do objeto e a da Terra precisa ser de 0,05 unidade astronômica ou menos, cerca de 7,5 milhões de quilômetros, e a magnitude absoluta precisa ser 22 ou mais brilhante, o que corresponde a aproximadamente 140 metros de diâmetro. Não é previsão de impacto.

Quantos asteroides potencialmente perigosos existem?

Cerca de 2,4 mil objetos estão classificados como PHA, dentro de um catálogo de mais de 35 mil asteroides próximos da Terra conhecidos. Os números crescem toda semana com as descobertas dos programas automatizados de varredura do céu.

O que é a escala de Torino?

É a escala de comunicação de risco de impacto, de 0 a 10, adotada em 1999. Ela combina a probabilidade calculada de colisão com a energia cinética que o impacto teria. Praticamente tudo que já entrou nela ficou em nível 0 ou 1.

Apophis vai atingir a Terra?

Não. Ele chegou ao nível 4 da escala de Torino em dezembro de 2004, o maior já registrado, quando os cálculos preliminares indicavam cerca de 2,7% de chance de impacto. Observações posteriores eliminaram o cenário, e em 2021 o objeto foi removido da lista de risco por pelo menos cem anos. Em 13 de abril de 2029 ele passará a cerca de 32 mil quilômetros da superfície.

Por que a probabilidade de impacto sobe e depois some?

Porque a órbita de um objeto recém-descoberto tem incerteza grande, representada por uma região do espaço em que ele pode estar em cada data. Se a Terra cai dentro dessa região, a probabilidade é diferente de zero. Conforme mais observações chegam, a região encolhe, a Terra sai dela e a probabilidade vai a zero.

Qual o tamanho mínimo de asteroide que causa dano?

Objetos abaixo de cerca de 25 metros costumam se desintegrar na atmosfera sem causar dano no solo. O evento de Chelyabinsk, em 2013, teve cerca de 20 metros e feriu 1.500 pessoas apenas pela onda de choque, sem cratera. A partir de 140 metros o impacto deixa de ser local e passa a ser regional, e é esse o corte usado na definição de PHA.

É possível desviar um asteroide?

Sim, e já foi demonstrado. Em 26 de setembro de 2022, a sonda DART da NASA colidiu com o asteroide Dimorphos e alterou o período orbital dele em cerca de 32 minutos, muito acima do mínimo de 73 segundos definido como critério de sucesso. A técnica exige aviso com anos de antecedência.

Já conhecemos todos os asteroides perigosos?

Não. Estima-se que mais de 95% dos objetos com 1 quilômetro ou mais já tenham sido encontrados, mas apenas algo em torno de 40% dos objetos de 140 metros ou mais. É por isso que os programas de varredura continuam, e por isso está sendo desenvolvido um telescópio espacial dedicado à busca no infravermelho.

Por que o diâmetro do asteroide aparece como faixa?

Porque ele é deduzido do brilho, e a conversão depende da refletividade da superfície, que raramente é conhecida. Um objeto escuro e grande e outro claro e pequeno podem ter o mesmo brilho aparente. Faixas amplas, como de 100 a 230 metros, são normais e não indicam erro de medição.

Onde vejo os asteroides que passam perto hoje?

A página de asteroides do ValorFinal lista as aproximações do dia com dados da NASA, mostrando diâmetro estimado, velocidade relativa e distância mínima em quilômetros e em distâncias lunares, além de indicar se o objeto está classificado como potencialmente perigoso.

Para continuar daqui

A parte prática desta guia vive em asteroides próximos da terra hoje, que calcula tudo isto para a coordenada e o fuso da cidade que você escolher, com os dados do dia. A outra guia desta seção é distância lunar e unidade astronômica. O índice completo das guias do Observatório reúne todas elas por seção, e a metodologia do portal está em como validamos os cálculos.

Fontes oficiais

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Como citar esta página

ValorFinal. Asteroide potencialmente perigoso: o que significa. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/guia/asteroide-potencialmente-perigoso. Consultado em: 23/08/2026.