Meio interestelar
Nebulosa NGC 6188
Paredes de poeira escura com aspecto de dragões, esculpidas pela radiação de um aglomerado jovem na constelação do Altar, a 4.000 anos-luz.

Crédito Dark Energy Survey/DOE/FNAL/DECam/CTIO/NOIRLab/NSF/AURAImage processing: T.A. Rector (University of Alaska Anchorage/NSF NOIRLab), R. Colombari (NSF NOIRLab), & M. Zamani (NSF NOIRLab) NOIRLab CC BY 4.0
- Tipo
- Meio interestelarSIMBAD: ISM
- Distância
- 4.000 anos-luzdeclarada pelo publicador da imagem, em 2025
- Constelação
- AltarAra
- Observado por
- NSF Víctor M. Blanco 4-meter Telescope, VLT Survey Telescope, MPG/ESO 2.2-metre telescope
- Imagem publicada
- julho de 2025
- Original do acervo
- 7.428 × 6.500 px48 megapixels
NGC 6188 fica na constelação do Altar, no céu do hemisfério sul, a cerca de 4.000 anos-luz da Terra segundo a distância declarada pelo publicador das imagens. O SIMBAD classifica o objeto como meio interestelar, sigla ISM, que é a categoria usada para nuvens de gás e poeira sem uma estrutura mais específica. Na prática, o que existe ali é a borda iluminada de uma nuvem molecular muito maior, escura e fria, que ocupa aquela região da Via Láctea.
A parte visível é a fronteira. Um aglomerado de estrelas jovens catalogado como NGC 6193 nasceu naquela nuvem e agora a ilumina, a ioniza e a empurra. As duas estrelas mais brilhantes do aglomerado fornecem a maior parte da energia que acende o gás. O resultado, nas imagens, é uma parede sinuosa de material brilhante recortada por faixas escuras de poeira, com contornos que muita gente associa a figuras de animais.
A mesma região aparece nos catálogos também como RCW 108, designação que costuma ser aplicada ao complexo de formação estelar embutido na nuvem escura. Essa multiplicidade de nomes é comum em regiões assim: cada levantamento catalogou um aspecto diferente do mesmo lugar, e os nomes acabaram convivendo.
Por que a nuvem tem forma de parede?
A geometria vem de um contraste entre duas regiões vizinhas com propriedades opostas. De um lado existe gás quente e ionizado, rarefeito e praticamente transparente, mantido nesse estado pela radiação das estrelas do aglomerado. Do outro, gás frio, denso e cheio de poeira, que ainda não foi dissolvido.
A superfície de contato entre os dois é uma frente de ionização, e é ela que brilha mais forte. Ali o ultravioleta está arrancando elétrons dos átomos de hidrogênio da borda da nuvem, o gás aquece, se expande e escapa. Como esse processo acontece camada por camada, a fronteira fica bem marcada e assume um aspecto de parede ou de penhasco.
As irregularidades da borda não são aleatórias. Onde a nuvem é mais densa, ela resiste mais e ainda protege o material atrás de si, formando saliências e colunas. Onde é menos densa, a erosão avança e abre reentrâncias. A silhueta caprichosa que dá origem aos apelidos é o registro dessa disputa entre densidade e radiação.
Que papel tem o aglomerado NGC 6193?
NGC 6193 é o aglomerado aberto associado à nebulosa, formado por estrelas jovens que nasceram da mesma nuvem. As mais brilhantes dele são estrelas quentes de alta massa, e são elas que fornecem praticamente toda a radiação ultravioleta responsável por acender e escavar o gás em volta.
Esse é um arranjo típico e vale entender a ordem dos acontecimentos. Primeiro a nuvem colapsa e forma estrelas. Depois as estrelas mais massivas, que evoluem muito rápido, começam a devolver energia ao ambiente em forma de radiação e vento. Em poucos milhões de anos, o berçário que produziu essas estrelas está sendo desmontado por elas.
A pergunta que interessa é o que acontece com o gás empurrado. Ao ser comprimido, ele pode ultrapassar o limite de densidade em que a gravidade vence e desabar, formando uma nova geração de estrelas. Regiões como RCW 108 são estudadas exatamente por isso: abrigam estrelas jovens embutidas na nuvem escura, e a discussão é se elas nasceram por conta própria ou por causa da pressão vinda do aglomerado vizinho.
O que muda de uma imagem do acervo para outra?
As três cobrem campos largos, o que é adequado para um objeto sem borda definida. A imagem do ESO de 2015, feita com a câmera OmegaCAM, cobre 62 por 66,6 minutos de arco, mais de duas vezes o diâmetro aparente da Lua cheia em cada lado. A de 1999, com a câmera WFI, cobre 33 por 31,6 minutos de arco. E a imagem feita com a câmera DECam, divulgada em 2025, cobre 32,8 por 28,8 minutos de arco.
A imagem da DECam traz um detalhe técnico que vale reparar. O metadado declara apenas dois filtros, um em 473 nanômetros e outro em 642 nanômetros, correspondentes às bandas g e r. Uma imagem colorida normalmente precisa de três canais, e aqui o mesmo filtro alimenta mais de um canal no processamento.
A consequência é direta: a paleta dessa imagem é mais limitada do que a de composições com três ou mais filtros distintos, e as diferenças de cor refletem principalmente a razão entre duas bandas, não a química detalhada do gás. Não é defeito, é o que os dados permitem. Saber disso evita ler cores como se fossem medições finas de composição.
Onde ficam as estrelas ainda escondidas?
Boa parte da atividade de uma região como essa acontece onde a luz visível não chega. Dentro da nuvem escura, protegidos por colunas densas de poeira, existem objetos jovens que só aparecem em observações infravermelhas ou em rádio. Nas imagens de luz visível do acervo, esses lugares são simplesmente manchas pretas.
A poeira funciona como um filtro cumulativo: quanto mais material houver na linha de visada, mais luz visível é absorvida e espalhada. Uma estrela recém-formada, ainda envolvida no casulo de gás que a gerou, pode ser completamente invisível ao mesmo tempo em que é intensa em infravermelho, porque a poeira absorve a luz dela e reemite essa energia em comprimentos de onda longos.
Isso significa que as imagens em luz visível contam apenas metade da história. Elas mostram muito bem a superfície da nuvem, a frente de ionização e as estrelas já expostas. O que está acontecendo no interior, incluindo eventuais gerações mais novas de estrelas, exige instrumentos de outra faixa espectral.
Os números deste objeto
| Distância | 4.000 anos-luzdeclarada pelo publicador das imagens |
|---|---|
| Constelação | Altar (Ara) |
| Identificação principal | NGC 6188SIMBAD |
| Outros nomes | NGC 6193, RCW 108 |
| Classificação | meio interestelar (ISM)SIMBAD |
| Tamanho aparente | não registrado pelo SIMBAD |
| Coordenadas J2000 | AR 250 graus, Dec -48,5 graus |
| Imagens no acervo | 3 |
O que reparar nesta imagem
- A borda iluminada da nuvemA linha brilhante que separa o gás claro do escuro é a frente de ionização. É ali, exatamente, que a radiação está corroendo a nuvem.
- As silhuetas escurasAs faixas pretas com contorno caprichoso são poeira densa bloqueando a luz de trás. Não são vazios: são as partes da nuvem que ainda não foram dissolvidas.
- O aglomerado que ilumina a cenaO grupo de estrelas azuladas próximo à parede de gás é NGC 6193. As duas mais brilhantes fornecem a maior parte da energia que mantém o gás aceso.
- O contraste entre os três camposA vista do ESO de 2015 cobre 62 minutos de arco de largura e mostra o complexo inteiro; as outras duas, com cerca de 33 minutos, fecham mais no conjunto principal.
Por que esta imagem tem essas cores
Todos os filtros registraram luz visível, mas as cores foram redistribuídas no processamento para separar melhor o que a imagem mostra. O resultado é próximo do real, e não idêntico.
ultravioletainfravermelho e ondas de rádio
- Verdeinfravermelho · DECam · g473 nmolho enxerga
- Azulluz visível · DECam · g473 nmolho enxerga
- Vermelholuz visível · DECam · r642 nmolho enxerga
- Verdeluz visível · DECam · r642 nmolho enxerga
Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio NOIRLab junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.
Que tamanho é isso, de verdade
Este recorte do céu tem quase o mesmo tamanho aparente da Lua cheia. O recorte fotografado mede 33 minutos de arco de largura no céu, e a Lua cheia mede cerca de 31 minutos de arco.
A luz desta imagem levou 4.000 anos para chegar até o telescópio. Você não está vendo o objeto como ele é hoje, e sim como ele era por volta da chegada das primeiras naus portuguesas ao litoral brasileiro.
Dá para ver isso daqui?
Agora este objeto está abaixo do horizonte de São Paulo, SP. Ele volta a subir mais tarde, e alcança no máximo 65° de altura daqui.
Deste lugar, o ponto mais alto que ele alcança no céu é 65 graus acima do horizonte.
Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.
O que ainda não se sabe
A pergunta principal sobre esta região é se a formação de estrelas dentro da nuvem escura foi induzida pelo aglomerado NGC 6193 ou se teria acontecido de qualquer jeito. Distinguir os dois cenários exige datar com precisão as gerações estelares e mostrar que a mais nova é sistematicamente mais jovem e mais próxima da frente de compressão, o que é difícil quando os objetos estão embutidos em poeira. Também não há valor consensual e preciso para a distância nem para a massa total de gás da nuvem, e essas duas quantidades entram em quase todo cálculo sobre a região, da energia recebida à eficiência com que o gás vira estrela.
Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.
Uma coisa que quase ninguém sabe
A imagem mais antiga do acervo para esta região é de abril de 1999 e a mais recente é de julho de 2025, um intervalo de mais de vinte e seis anos entre dois retratos do mesmo pedaço de céu. Mesmo assim, nada perceptível mudou na nuvem: as estruturas de gás e poeira ali levam milhares de anos para se alterar de forma visível.
Outras imagens deste objeto

Crédito Dark Energy Survey/DOE/FNAL/DECam/CTIO/NOIRLab/NSF/AURAImage processing: R. Colombari and M. Zamani (NSF NOIRLab) NOIRLab CC BY 4.0




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Créditos das imagens desta página
Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.
- Westerlund 1
Crédito ESA/Webb, NASA & CSA, M. Zamani (ESA/Webb), M. G. Guarcello (INAF-OAPA) and the EWOCS team ESA/Webb CC BY 4.0
- Nebulosa de Órion
- Pilares da Criação, na Nebulosa da Águia
Crédito ESO/Digitized Sky Survey 2. Acknowledgment: Davide De Martin. ESA/Hubble CC BY 4.0
- Nebulosa de Carina
Crédito NASA, ESA, N. Smith (University of California, Berkeley), and The Hubble Heritage Team (STScI/AURA) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Nebulosa Cabeça de Cavalo
Crédito NASA, ESA, and the Hubble Heritage Team (AURA/STScI) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Nebulosa do Caranguejo
Crédito NASA, ESA and Allison Loll/Jeff Hester (Arizona State University). Acknowledgement: Davide De Martin (ESA/Hubble) ESA/Hubble CC BY 4.0
- Nebulosa da Lagoa
Crédito NSF–DOE Vera C. Rubin Observatory/NOIRLab/SLAC/AURA NOIRLab CC BY 4.0
Perguntas frequentes
- O que é a Nebulosa NGC 6188?
- NGC 6188 é a borda iluminada de uma grande nuvem molecular na constelação do Altar, a cerca de 4.000 anos-luz da Terra segundo a distância declarada pelo publicador das imagens. O gás brilha porque é ionizado pela radiação das estrelas quentes do aglomerado jovem NGC 6193, que nasceu na mesma nuvem. O SIMBAD classifica o objeto como meio interestelar, categoria usada para nuvens de gás e poeira sem estrutura mais específica.
- Por que a nebulosa parece ter forma de dragões?
- A silhueta vem do contorno irregular da fronteira entre gás quente ionizado e nuvem fria e densa. Onde a nuvem é mais densa, ela resiste melhor à erosão pela radiação e forma saliências e colunas; onde é menos densa, a erosão abre reentrâncias. O resultado é uma parede sinuosa que o cérebro humano interpreta com facilidade como figuras reconhecíveis. O apelido não tem valor técnico e varia conforme quem publica a imagem.
- Qual a relação entre NGC 6188 e NGC 6193?
- NGC 6193 é o aglomerado aberto de estrelas jovens e NGC 6188 é a nebulosa que essas estrelas iluminam. Os dois ocupam a mesma região do céu e têm origem comum: o aglomerado nasceu da nuvem e agora a está desmontando com radiação ultravioleta e ventos estelares. As duas estrelas mais brilhantes do aglomerado fornecem a maior parte da energia que mantém o gás ionizado. A região aparece nos catálogos também como RCW 108.
- O que significa a classificação ISM do SIMBAD?
- ISM é a sigla para meio interestelar, e o SIMBAD usa essa categoria para nuvens de gás e poeira que não se encaixam em classificações mais específicas como nebulosa planetária, região H II ou remanescente de supernova. No caso de NGC 6188, a classificação reflete o fato de que o objeto é uma parte de uma estrutura muito maior e difusa, sem contorno próprio bem definido. Objetos assim raramente têm tamanho aparente registrado no catálogo.
- Por que a imagem da DECam usa só dois filtros?
- O metadado declara filtros nas bandas g, em 473 nanômetros, e r, em 642 nanômetros. Levantamentos de campo largo costumam observar em poucas bandas por questão de tempo de telescópio, e quem monta a imagem colorida distribui esses dois filtros entre os três canais de cor. A consequência é uma paleta mais limitada, em que a variação de cor mede a razão entre duas faixas do espectro e não a composição química detalhada do gás.
- Dá para ver NGC 6188 do Brasil?
- A região fica na constelação do Altar, com declinação em torno de menos 48 graus, o que a torna acessível do hemisfério sul, inclusive de todo o Brasil, embora fique mais alta no céu quanto mais ao sul estiver o observador. O aglomerado NGC 6193 é relativamente fácil de identificar com binóculo em céu escuro. A nebulosa em si tem brilho superficial baixo e praticamente exige astrofotografia com filtro de banda estreita para aparecer com a estrutura das imagens do acervo.
Fontes oficiais
- ESA/Hubble: Condições de uso das imagens do Hubble: licença Creative Commons Attribution 4.0, que permite uso comercial desde que o crédito completo apareça visível e com link ativo.
- ESA/Webb: Mesmas condições para as imagens do James Webb, com o crédito exigido informado imagem por imagem no metadado.
- ESO, Observatório Europeu do Sul: Condições de uso das imagens dos telescópios do ESO no Chile, também sob Creative Commons Attribution 4.0.
- SIMBAD, Centro de Dados Astronômicos de Estrasburgo: Identificação canônica de cada objeto, tipo, coordenadas equatoriais e tamanho aparente. Base operada pelo Observatório Astronômico de Estrasburgo, França.
- Fronteiras das constelações da IAU (Roman 1987): Tabela oficial de fronteiras que define em que constelação cai cada coordenada, usada aqui após precessão para o equinócio B1875,0.
- Astronomy Visualization Metadata (AVM): Padrão que define os campos de comprimento de onda, cor atribuída, escala e coordenada que este acervo lê de cada imagem.
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Como citar esta página
ValorFinal. Nebulosa NGC 6188. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/nebulosa-ngc-6188. Consultado em: 23/08/2026.






