Toda Lua cheia parece ter ganhado um nome. Aparecem manchetes sobre Lua do Morango em junho, Lua do Castor em novembro, Lua Azul de vez em quando. Os nomes existem mesmo, têm origem documentada e contam uma história interessante, com um detalhe que raramente é mencionado: nenhum deles foi criado pensando no Brasil. As datas exatas de cada fase, com horário de Brasília, estão no calendário lunar.
De onde vêm esses nomes
A lista que circula hoje foi popularizada pelo Old Farmer's Almanac, publicação norte-americana que sai desde 1792, e antes dele pelo Maine Farmers' Almanac. Os editores atribuíam os nomes a povos algonquinos do nordeste da América do Norte, misturados a tradições coloniais inglesas e alemãs.
A atribuição precisa ser lida com cuidado. Diferentes nações indígenas norte-americanas tinham nomes distintos para os mesmos meses, e a versão que virou padrão é uma seleção editorial feita por almanaques, não um registro etnográfico. Isso não anula o valor cultural dos nomes: apenas explica por que a mesma Lua aparece com nomes diferentes em fontes diferentes.
Os doze nomes e o que cada um descreve
| Mês | Nome tradicional | O que descreve | Estação no Brasil |
|---|---|---|---|
| Janeiro | Lua do Lobo | Uivos ouvidos com mais frequência no inverno rigoroso | Verão |
| Fevereiro | Lua da Neve | O mês de maior acúmulo de neve no nordeste dos Estados Unidos | Verão |
| Março | Lua da Minhoca | O solo degela e as minhocas voltam à superfície | Fim do verão |
| Abril | Lua Rosa | A floração do musgo-rosa, uma planta rasteira. A Lua não fica rosa | Outono |
| Maio | Lua das Flores | O pico da floração da primavera temperada | Outono |
| Junho | Lua do Morango | A colheita curta do morango silvestre, não a cor | Inverno |
| Julho | Lua do Cervo | O período em que os chifres dos cervos-machos crescem | Inverno |
| Agosto | Lua do Esturjão | A melhor época de pesca do esturjão nos Grandes Lagos | Inverno |
| Setembro | Lua do Milho | A colheita do milho | Primavera |
| Outubro | Lua do Caçador | A caça de estoque para o inverno, com campos já ceifados | Primavera |
| Novembro | Lua do Castor | A época de armar armadilhas antes do congelamento dos rios | Primavera |
| Dezembro | Lua Fria | A entrada do inverno no hemisfério norte | Verão |
A quarta coluna é o motivo de tanta confusão em textos brasileiros. Ler que a Lua Fria acontece em dezembro faz sentido em Boston e nenhum sentido em Cuiabá. Quem quiser usar os nomes por aqui tem duas opções coerentes: usá-los como estão, sabendo que são referências do hemisfério norte, ou deslocá-los seis meses para casar com as estações locais. A segunda opção é usada por alguns divulgadores e não tem padrão estabelecido.
A Lua da Colheita, que é a única com base astronômica
Entre todos esses nomes, um descreve um fenômeno real e mensurável: a Lua da Colheita, definida como a Lua cheia mais próxima do equinócio de setembro. Ela pode cair em setembro ou em outubro, e por isso alguns anos têm Lua do Milho e outros levam o nome para o mês seguinte.
O fenômeno é o seguinte. A Lua nasce, em média, cerca de 50 minutos mais tarde a cada dia. Mas esse atraso não é constante: ele depende do ângulo com que a eclíptica cruza o horizonte. Nos dias em torno do equinócio de outono, esse ângulo fica muito raso, e o atraso cai para 20 ou 30 minutos por dia em latitudes médias, chegando a menos que isso em latitudes altas.
O resultado prático é que, por várias noites seguidas, a Lua cheia nasce logo depois do pôr do sol, dando luz quase contínua no início da noite. Antes da iluminação elétrica, isso significava noites extras de trabalho na colheita, e daí o nome. No hemisfério sul o mesmo efeito acontece em torno do equinócio de março, quando o nosso outono começa.
Lua Azul: dois significados e um erro histórico
Lua Azul não descreve cor. O termo tem duas definições concorrentes, e a mais difundida nasceu de um engano.
A definição original, do Maine Farmers' Almanac, é sazonal: uma estação do ano normalmente tem três luas cheias, e quando tem quatro, a terceira delas é a Lua Azul. A regra parece arbitrária e faz sentido dentro do sistema de nomes que o almanaque usava, em que cada Lua cheia da estação tinha função própria.
Em 1946, a revista Sky & Telescope publicou um artigo de James Hugh Pruett que interpretou a regra do almanaque de forma equivocada e a descreveu como a segunda Lua cheia dentro de um mesmo mês do calendário. Essa versão simplificada era mais fácil de explicar, foi repetida em programas de rádio nos anos 1980, entrou num jogo de perguntas e respostas popular na mesma década e virou a definição corrente.
Como o mês sinódico dura 29,53 dias e a maioria dos meses tem 30 ou 31, é possível encaixar duas luas cheias no mesmo mês. Isso acontece a cada 2,7 anos em média, o que explica a expressão em inglês para algo raro. Fevereiro nunca tem Lua Azul, e às vezes não tem Lua cheia nenhuma.
Existe, sim, um caso em que a Lua fica azulada de verdade, e ele nada tem a ver com calendário. Depois de grandes erupções vulcânicas ou de incêndios florestais extensos, partículas de tamanho específico em suspensão espalham preferencialmente o vermelho e deixam passar o azul. Foi registrado depois da erupção do Krakatoa, em 1883.
O céu que já existia aqui
A discussão sobre nomes de Lua costuma ignorar que o Brasil tem tradições próprias de observação do céu, anteriores a qualquer almanaque. Pesquisas de etnoastronomia documentaram calendários indígenas baseados em constelações e no ciclo lunar, sincronizados com as estações locais e com os ciclos de chuva, floração e piracema.
O exemplo mais conhecido é a Ema, constelação tupi-guarani formada pela Cruzeiro do Sul, pelo Saco de Carvão e por parte de Escorpião. A aparição completa dela no céu do Sul e do Sudeste, ao anoitecer, marca tradicionalmente o começo do inverno. Outras figuras registradas incluem o Homem Velho, o Veado e a Anta do Norte, cada uma ligada a um período do ano.
Esses sistemas são funcionalmente equivalentes aos almanaques do norte: nomes aplicados ao céu para organizar o trabalho e o tempo. A diferença é que descrevem a natureza daqui.
Como usar o calendário lunar na prática
Nome é cultura. Para observação, o que importa é a data e o horário exatos da fase, e eles não são arredondados: a Lua cheia acontece num instante específico, e esse instante pode cair de madrugada ou no meio da tarde, quando a Lua nem está visível daqui.
Por isso o calendário lunar do Observatório mostra o instante de cada fase no fuso da localidade escolhida, e não uma data genérica. Ele também marca quais luas cheias caem perto do perigeu, o que rende as chamadas superluas, assunto tratado em o que é uma superlua.
Para quem quer observar outras coisas além da Lua, o calendário serve para o contrário: encontrar as noites em que ela não estará no céu. As duas semanas em torno da Lua nova são as boas, e a guia sobre como observar o céu a olho nu explica por quê.
Limites desta guia
As atribuições de origem dos nomes seguem o que os próprios almanaques publicam, e parte delas é contestada por pesquisadores de culturas indígenas norte-americanas. Onde há divergência, o texto indica que a fonte é editorial.
Os nomes citados para constelações indígenas brasileiras vêm de trabalhos de etnoastronomia publicados e se referem principalmente à tradição tupi-guarani. Outros povos têm sistemas diferentes, e generalizar seria erro. Para a mecânica das fases em si, veja como funcionam as fases da Lua, e para o que a Lua de fato influencia aqui embaixo, a guia Lua, plantio, marés e sono.