Poucos assuntos misturam tanto fato e crença quanto a influência da Lua. Existe efeito lunar real, e ele é gigantesco: a Lua move oceanos inteiros duas vezes por dia. A partir daí, a lista de coisas atribuídas a ela cresce muito mais rápido do que a evidência. Esta guia separa as duas colunas, com o critério do resto do portal: o que é medido entra, o que não é medido fica marcado como não sustentado. As fases do mês, com data e hora, estão no calendário lunar.
Marés: o efeito real, e maior do que parece
A maré não vem da atração da Lua sobre a água. Vem da diferença de atração entre um lado da Terra e o outro. O lado voltado para a Lua é puxado com mais força que o centro do planeta, e o centro é puxado com mais força que o lado oposto. O resultado é que a Terra é levemente esticada na direção da Lua, com duas protuberâncias de água em lados opostos. Por isso há duas marés altas por dia, e não uma.
A força de maré cai com o cubo da distância, e é por isso que a Lua vence o Sol nesse quesito apesar de ser incomparavelmente menor. O Sol tem cerca de 46% do efeito de maré da Lua, ou seja, a Lua produz cerca de 2,2 vezes mais.
Quando os dois se alinham, na Lua nova e na Lua cheia, os efeitos se somam e a amplitude fica máxima: são as marés de sizígia. Nos quartos crescente e minguante os dois puxam em direções perpendiculares e a amplitude fica mínima: são as marés de quadratura. Essa relação é tão confiável que as tábuas de maré da Marinha do Brasil são calculadas com anos de antecedência.
Existe também maré na crosta terrestre, chamada maré sólida. O solo sobe e desce alguns decímetros por dia, e o efeito é grande o bastante para exigir correção em medições geodésicas de alta precisão. Quem está de pé não sente nada, porque tudo ao redor sobe junto.
A luz da Lua, que é o canal biológico mais forte
Quando existe efeito biológico lunar bem documentado, a explicação quase sempre é a luz, e não a gravidade. A Lua cheia ilumina o ambiente com cerca de 0,1 a 0,3 lux, contra 0,001 lux de uma noite sem Lua. É uma diferença de duas ordens de grandeza, e para organismos noturnos isso é enorme.
Os casos mais estudados são marinhos. Corais do gênero Acropora, na Grande Barreira de Coral, desovam de forma sincronizada em noites específicas depois de determinadas luas cheias, e experimentos mostraram que a sincronia depende de fotorreceptores sensíveis à luz azul do luar. O mosquito marinho Clunio marinus tem ciclo reprodutivo combinando relógio circadiano e relógio lunar, ajustado às marés de sizígia.
Em terra, besouros rola-bostas da espécie Scarabaeus zambesianus se orientam pela polarização da luz da Lua para andar em linha reta, comportamento demonstrado em experimentos com filtros polarizadores. Predadores e presas noturnos ajustam atividade conforme o luar, e muitos roedores reduzem forrageamento em noites claras.
Sono humano: o caso em que os dados discordam
Este é o item mais interessante da lista, porque a evidência é genuinamente mista e vale explicar por quê.
Em 2013, um grupo liderado por Christian Cajochen publicou na revista Current Biology uma reanálise de dados de laboratório de 33 voluntários. Perto da Lua cheia, os participantes levaram em média cinco minutos a mais para adormecer, dormiram cerca de 20 minutos a menos e tiveram menos sono profundo, além de níveis mais baixos de melatonina. O detalhe que chamou atenção é que eles estavam em ambiente sem janelas e não sabiam a data.
Estudos posteriores com amostras maiores encontraram resultados fracos ou nulos, e houve crítica metodológica ao trabalho original, já que a análise foi feita depois sobre dados coletados para outro fim. Em 2021, um trabalho de Leandro Casiraghi publicado na Science Advances mediu sono com actigrafia em comunidades toba e qom da Argentina, com e sem acesso à eletricidade, e em estudantes de Seattle. O padrão encontrado foi de sono mais curto e início mais tardio nas noites que antecedem a Lua cheia, com efeito mais forte onde não havia luz elétrica.
A leitura razoável é essa: se existe efeito, ele é pequeno, mais evidente em ambientes sem iluminação artificial, e a explicação mais econômica é a luz da própria Lua nas horas que antecedem o sono. Isso é bem diferente de uma influência gravitacional misteriosa.
O que a evidência não sustenta
| Crença | Situação da evidência |
|---|---|
| Mais partos na Lua cheia | Estudos com centenas de milhares de nascimentos não encontram correlação |
| Mais atendimentos de emergência | Revisões sistemáticas não encontram efeito consistente |
| Mais crimes ou internações psiquiátricas | Meta-análises não sustentam a associação |
| Mais sangramento em cirurgia | Estudos comparativos não mostram diferença |
| Cabelo cresce mais se cortado em fase X | Nenhum estudo controlado sustenta |
| Alinhamento planetário provoca terremoto | A maré combinada dos planetas é milhares de vezes menor que a da Lua |
A força que sustenta essas crenças é a memória seletiva. Quem trabalha em pronto-socorro lembra da noite agitada que coincidiu com Lua cheia e não registra as vinte noites agitadas em outras fases. Como a Lua cheia dura alguns dias e ocorre todo mês, sempre há alguma coincidência disponível para confirmar a expectativa.
Plantio e corte de madeira
A agricultura lunar é uma tradição antiga e amplamente praticada, inclusive no Brasil. Vale separar três afirmações diferentes que costumam ser tratadas como uma só.
A primeira é que a Lua move a água no solo como move o mar. O efeito de maré sobre a água de um vaso ou de um canteiro é ordens de grandeza menor que a tensão superficial e que a variação normal de umidade do solo. Não há mecanismo plausível aqui, e experimentos controlados não mostram diferença de germinação por fase.
A segunda é sobre corte de madeira em Lua minguante, prática comum na construção rural. A ideia é que a madeira cortada nessa fase teria menos umidade e resistiria melhor a fungos e insetos. Alguns estudos mediram teor de umidade e densidade em função da data de corte e encontraram diferenças pequenas ou nenhuma; outros relataram variações que não se separaram com clareza do efeito da estação do ano. Não há consenso, e a maior parte da variação observada se explica melhor por época seca e época chuvosa que por fase lunar.
A terceira é a que tem base real: a Lua serve de calendário. Um ciclo de 29,5 dias é um relógio prático e visível para organizar tarefas, e povos agrícolas do mundo inteiro o usaram assim. Uma prática ancorada na Lua pode funcionar muito bem por organizar o trabalho em intervalos regulares, sem que a Lua esteja causando efeito biológico algum.
Por que a crença é tão persistente
Antes da iluminação elétrica, a Lua cheia mudava a vida noturna de verdade. Havia luz suficiente para caminhar, trabalhar, viajar e brigar. Mais gente na rua à noite significa mais acidentes, mais conflitos e mais partos assistidos fora de casa. A associação entre Lua cheia e agitação noturna nasceu de um efeito real de disponibilidade de luz, e sobreviveu à eletricidade que a eliminou.
A palavra lunático vem dessa tradição, assim como a suposição, registrada desde a Antiguidade, de que a Lua afetaria a mente. Hipócrates escreveu sobre isso, e a legislação inglesa do século 19 chegou a distinguir categorias de transtorno mental associadas a fases lunares.
Como verificar por conta própria
- Anote a variável que interessa a você, todos os dias, por alguns meses. Sono, humor, produtividade, o que for.
- Anote sem olhar a fase da Lua. Esse ponto é o essencial: saber a fase contamina o registro.
- Só depois, cruze os registros com o calendário lunar, que traz o instante exato de cada fase no fuso da sua cidade.
- Compare o número de eventos em cada fase, e não só os casos que você lembra. É a contagem completa que separa efeito de coincidência.
Esse é, em miniatura, o mesmo procedimento que os estudos citados aqui seguem, e é o motivo pelo qual eles chegam a conclusões diferentes das impressões pessoais.
Limites desta guia
Este texto resume o estado da evidência e não é orientação médica, agronômica nem veterinária. Onde os estudos discordam, o texto diz que discordam, em vez de escolher um lado.
As tábuas de maré para navegação e pesca são responsabilidade da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil, e nenhum cálculo deste portal substitui essa fonte. Para a mecânica das fases, veja como funcionam as fases da Lua; para a variação de distância que altera a amplitude das marés, veja o que é uma superlua. Para observar a Lua de verdade, com a iluminação e os horários de hoje, use a página da fase da Lua hoje.