Num eclipse lunar total a Lua não some. Ela escurece, perde o branco e assume um tom entre o cobre e o vermelho-tijolo, às vezes com a borda ainda azulada. Quem vê pela primeira vez costuma achar que a cor é efeito de fotografia. Não é: a explicação envolve a atmosfera do planeta em que você está de pé. Quando é o próximo eclipse visível da sua cidade, com horário de cada fase, está na página do próximo eclipse.
Umbra e penumbra: a sombra tem duas partes
O Sol não é um ponto, é um disco. Isso faz com que a sombra que a Terra projeta no espaço tenha duas regiões distintas. Na umbra, o cone central, nenhum ponto do disco solar é visível: o Sol está inteiramente bloqueado. Na penumbra, a região cônica externa, parte do disco solar continua visível, então ali ainda chega luz direta, apenas reduzida.
À distância da Lua, a umbra da Terra tem cerca de 9.200 km de largura, aproximadamente 2,6 vezes o diâmetro lunar. É por isso que a Lua cabe inteira dentro dela e a totalidade pode durar bastante: o máximo teórico da fase total é de cerca de uma hora e 47 minutos.
Os três tipos de eclipse lunar
| Tipo | O que acontece | O que se vê |
|---|---|---|
| Total | A Lua entra inteiramente na umbra | Disco cor de cobre, com o céu ao redor visivelmente mais estrelado |
| Parcial | Só parte da Lua entra na umbra | Mordida escura de borda curva avançando sobre o disco |
| Penumbral | A Lua passa só pela penumbra | Sombreado sutil de um lado do disco, difícil de notar sem comparação |
O eclipse penumbral é o que mais gera frustração. Ele aparece em calendários como eclipse, mas o efeito visual é tão discreto que a maioria das pessoas não percebe nada olhando sem referência. Só uma fotografia comparativa, feita antes e durante, mostra a diferença de brilho.
Por que a Lua fica vermelha
Se a Terra não tivesse atmosfera, a Lua sumiria por completo dentro da umbra. Como tem, a atmosfera atua de duas formas ao mesmo tempo.
A primeira é o espalhamento de Rayleigh. A luz de comprimento de onda curto, o azul, interage muito mais com as moléculas do ar e é espalhada em todas as direções. É o mesmo mecanismo que deixa o céu azul de dia e o Sol avermelhado no poente. Ao atravessar a espessura da atmosfera de raspão, quase todo o azul da luz solar é removido.
A segunda é a refração. A atmosfera funciona como uma lente e entorta a luz que passa pela borda do planeta, desviando-a para dentro do cone de sombra. O que chega à Lua, então, é luz solar filtrada e curvada, empobrecida de azul e dominada por vermelho e laranja.
Um astronauta em pé na Lua durante um eclipse lunar total veria a Terra como um disco negro cercado por um anel fino e brilhante, avermelhado: o nascer e o pôr do sol de todo o planeta acontecendo ao mesmo tempo, vistos de fora.
A escala de Danjon: nem todo eclipse tem a mesma cor
A cor e o brilho da Lua eclipsada variam muito de um evento para outro. O astrônomo francês André Danjon propôs, na primeira metade do século 20, uma escala visual de cinco níveis para registrar isso, e ela é usada até hoje.
| Nível | Aparência |
|---|---|
| L = 0 | Eclipse muito escuro. A Lua quase desaparece no meio da totalidade |
| L = 1 | Cinza escuro ou marrom, com detalhes de superfície difíceis de distinguir |
| L = 2 | Vermelho escuro ou ferrugem, com a região central da umbra bem escura |
| L = 3 | Vermelho-tijolo, com a borda da umbra clara ou amarelada |
| L = 4 | Cobre ou laranja brilhante, com borda azulada e muito luminosa |
O que decide o nível é o estado da atmosfera terrestre naquele momento. Aerossóis de erupções vulcânicas bloqueiam a luz que atravessaria a borda do planeta e escurecem o eclipse. O caso mais citado é o eclipse de dezembro de 1992, ocorrido pouco mais de um ano depois da erupção do monte Pinatubo, nas Filipinas: a Lua ficou tão escura que observadores relataram dificuldade em localizá-la a olho nu.
Isso dá ao eclipse lunar uma função curiosa. Ele é um sensor remoto da atmosfera do próprio planeta: observando a cor da Lua a centenas de milhares de quilômetros, se infere quanta poeira e quantos aerossóis estão em suspensão aqui.
Por que não acontece toda Lua cheia
A órbita da Lua é inclinada cerca de 5,1 graus em relação ao plano da órbita da Terra em torno do Sol. Na maioria das luas cheias, a Lua passa acima ou abaixo do cone de sombra e nada acontece.
Eclipses só ocorrem quando a fase cheia coincide com a passagem da Lua por um dos dois nodos, os pontos em que as duas órbitas se cruzam. Isso acontece em temporadas de eclipse, que ocorrem cerca de duas vezes por ano e duram algumas semanas. Em cada temporada há sempre pelo menos um eclipse solar e um lunar, separados por cerca de duas semanas. A mecânica das fases está detalhada na guia sobre como funcionam as fases da Lua.
Por que é mais fácil ver eclipse lunar que solar
Um eclipse solar só é visível de uma faixa estreita da superfície terrestre, porque a sombra da Lua projetada na Terra tem no máximo algumas centenas de quilômetros de largura. Por isso a maioria das pessoas nunca viu um eclipse solar total: seria preciso estar dentro daquela faixa.
Com o eclipse lunar é o contrário. Quem está sendo eclipsada é a Lua, e ela é visível de todo o hemisfério da Terra que estiver com a noite naquele momento. Isso significa que metade do planeta assiste ao mesmo evento simultaneamente, e que qualquer lugar vê vários eclipses lunares por década sem precisar viajar.
Como observar
Não há precaução de segurança. A Lua eclipsada é milhares de vezes mais fraca que a Lua cheia comum, e olhar para ela a olho nu, com binóculo ou com telescópio não oferece risco nenhum. Isso é o oposto do eclipse solar, e a confusão entre os dois casos é comum. A regra do eclipse solar está na guia como observar um eclipse solar com segurança.
- Comece a olhar antes do início da fase total. A entrada da umbra sobre o disco é a parte mais dinâmica, e a borda curva da sombra é uma prova visual direta de que a Terra é esférica, argumento que já era usado na Grécia antiga.
- Durante a totalidade, procure estrelas perto da Lua. Com o brilho lunar reduzido em várias ordens de grandeza, o céu ao redor volta a ficar estrelado, o que nunca acontece numa noite de Lua cheia normal.
- Fotografe com exposição manual. A Lua eclipsada exige exposições de 1 a 4 segundos com ISO alto, muito diferente da Lua cheia comum, que satura o automático.
- Registre a cor pela escala de Danjon. É uma observação amadora com valor real, e existem campanhas que reúnem estimativas de observadores.
Lua de sangue e outros nomes
Lua de sangue é termo popular, sem definição astronômica. Ele ganhou circulação a partir de 2013 em contextos religiosos e depois foi adotado pela imprensa para qualquer eclipse lunar total. Astronomicamente, a expressão correta é eclipse lunar total, e a cor vermelha é característica de todos eles, não de um subconjunto especial.
Quando um eclipse total coincide com uma Lua cheia próxima do perigeu, aparecem combinações como superlua de sangue. Cada componente existe, e a soma é apenas uma coincidência de calendário. Quanto a superlua realmente muda está na guia sobre o que é uma superlua. Os nomes tradicionais de cada Lua cheia, que também aparecem nessas manchetes, estão em nomes das luas cheias.
Limites desta guia
A duração máxima de totalidade citada é um limite teórico, atingido apenas quando a Lua passa exatamente pelo centro da umbra e está próxima do apogeu. A maioria dos eclipses totais tem fase total bem mais curta, entre 20 minutos e uma hora e meia.
A previsão de cor pela escala de Danjon não é possível com antecedência confiável, porque depende do estado da atmosfera no momento. Para os horários exatos de cada fase na sua cidade e para saber se o evento é visível dali, use a página do próximo eclipse, e confira as condições da noite no céu hoje.