Eclipse solar é o evento astronômico que mais mobiliza gente que nunca olhou para o céu, e é também o único em que olhar errado causa dano permanente. A boa notícia é que a proteção correta é barata e a alternativa gratuita funciona bem. Esta guia trata só disso: como olhar sem se machucar. Quando é o próximo eclipse e se ele será visível da sua cidade está na página do próximo eclipse.
Regra que não tem exceção
Enquanto qualquer parte do disco solar estiver visível, olhar sem filtro certificado causa lesão. Isso vale para eclipse parcial, para eclipse anular e para todas as fases parciais de um eclipse total. A única janela segura sem filtro é a fase de totalidade, quando a Lua cobre 100% do disco, e ela dura poucos minutos.
O que o Sol faz com a retina
O dano tem nome: retinopatia solar. Ele acontece por dois mecanismos. O primeiro é térmico, com a energia concentrada pelo cristalino aquecendo o tecido da retina. O segundo, e mais insidioso, é fotoquímico: a luz azul e a ultravioleta desencadeiam reações que destroem células fotorreceptoras sem precisar de calor.
A retina não tem terminações nervosas de dor. Isso significa que a pessoa olha, não sente nada, conclui que está tudo bem e continua olhando. Os sintomas aparecem entre quatro e doze horas depois: mancha central na visão, distorção de linhas retas, dificuldade para ler. Parte dos casos melhora em meses. Parte não melhora nunca.
Durante um eclipse parcial o risco aumenta por um motivo perverso. Com boa parte do disco coberta, a claridade geral diminui e a pupila dilata, o que deixa entrar mais luz da parte que ainda está exposta. O reflexo natural de desviar o olhar também enfraquece. É por isso que a maioria dos casos registrados de retinopatia solar está ligada a eclipses, e não a olhar para o Sol num dia comum.
A norma ISO 12312-2
A referência internacional para filtros de observação solar direta é a norma ISO 12312-2. Ela define limites de transmitância em três faixas: ultravioleta, visível e infravermelho, e é a exigência nas três ao mesmo tempo que separa um filtro solar de um vidro escuro qualquer. Na faixa visível o teto é de 0,0032% da luz incidente, ou seja, menos de um trinta-mil-avos do que chega ao filtro. Filtros de graus mais escuros, ainda dentro da norma, transmitem bem menos que isso.
Óculos de eclipse conformes à norma trazem a identificação impressa na haste ou na moldura. Com eles, olhar para um céu comum durante o dia mostra escuridão total: a única coisa visível deve ser o disco do Sol. Se você consegue enxergar lâmpadas comuns, nuvens ou a paisagem através do filtro, ele não é um filtro solar.
Filtros danificados devem ser descartados. Risco, furo, ruga no material metalizado ou descolamento da moldura comprometem a proteção em pontos específicos, e um único furo já é suficiente para concentrar luz na retina.
O que não serve, e por quê
| Método | Por que não protege |
|---|---|
| Óculos escuros, mesmo polarizados | Transmitem entre 10% e 20% da luz visível, milhares de vezes acima do limite |
| Vários óculos escuros empilhados | A soma continua muito acima do limite e não filtra infravermelho |
| Radiografia médica | Escurece o visível, deixa passar infravermelho quase livremente |
| Vidro esfumaçado com vela | Camada irregular, com pontos finos imprevisíveis, e nada de filtragem infravermelha |
| Negativo fotográfico ou filme velado | Filmes coloridos não têm prata metálica e não bloqueiam infravermelho |
| CD, DVD ou disquete | Camada refletiva com defeitos e transmissão descontrolada |
| Filtro de densidade neutra de câmera | Projetado para luz visível em sensor, não para segurança ocular |
| Máscara de solda comum | Só a partir do grau 12, e o grau 14 é o recomendado. Graus menores são inseguros |
| Balde de água ou espelho para reflexo | Reflexo especular mantém a intensidade suficiente para causar dano |
O ponto comum a quase todos esses métodos é o infravermelho. Eles reduzem o desconforto visual sem reduzir a energia térmica que chega à retina, o que produz a pior combinação possível: você consegue olhar por muito mais tempo, e o dano continua acontecendo.
Projeção com furo: o método gratuito que funciona
A projeção estenopeica resolve o problema por não envolver olhar para o Sol em momento nenhum. Você olha para uma imagem projetada, e o Sol fica atrás de você.
- Pegue dois cartões de papel firme. Faça um furo pequeno e limpo em um deles, com a ponta de uma agulha ou de um alfinete.
- De costas para o Sol, segure o cartão furado de forma que a luz o atravesse e caia sobre o segundo cartão, que serve de tela.
- Afaste os dois cartões até a imagem ficar nítida. Quanto maior a distância, maior e mais fraca a imagem. Um a dois metros dá um bom resultado.
- Durante o eclipse, o círculo projetado vira uma foice. Não olhe pelo furo em momento algum: o furo não é filtro.
Existe uma versão que não exige preparo nenhum. Cruze os dedos das duas mãos formando uma grade e deixe a luz do Sol passar entre eles sobre o chão. Cada abertura funciona como um furo e projeta uma pequena imagem do Sol. Pelo mesmo motivo, a sombra de uma árvore frondosa durante um eclipse fica coberta de foices: cada espaço entre as folhas é um estenopo natural. É a demonstração mais bonita do fenômeno e muita gente passa por ela sem reparar.
Binóculo, telescópio e câmera
Aqui está o erro mais grave que se comete em eclipses. Um binóculo ou telescópio concentra luz, e olhar para o Sol através dele sem filtro adequado causa lesão em fração de segundo. Óculos de eclipse na frente do olho não resolvem: o instrumento concentra energia suficiente para derreter o filtro.
A regra é que o filtro fica na frente da abertura, nunca na ocular. Filtros de ocular vendidos com telescópios baratos décadas atrás causaram acidentes justamente por acumularem calor até trincar. Filtros de abertura, em vidro revestido ou em película de polímero preto certificada, bloqueiam a luz antes de ela entrar no tubo.
Para fotografar com celular, a mesma película deve cobrir a lente. Sem filtro, além do risco de olhar para a tela e depois para o Sol por reflexo, o sensor pode ser danificado por exposição prolongada. Um celular apontado para o Sol por poucos segundos costuma sobreviver, mas o problema real continua sendo o olho de quem está alinhando o enquadramento.
A única exceção: a totalidade
Durante a fase total de um eclipse solar, quando a Lua cobre 100% do disco, é seguro e recomendado olhar a olho nu. É o único momento em que a coroa solar fica visível, e nenhum filtro deixa ver a coroa: ela é fraca demais.
A totalidade dura de alguns segundos a pouco mais de sete minutos, dependendo da geometria. Os filtros voltam no instante em que o primeiro raio reaparece na borda, o efeito chamado anel de diamante. Esse retorno precisa ser rápido, e por isso quem organiza observação pública costuma marcar o horário do fim da totalidade com alarme.
Eclipse anular não tem totalidade. Nele a Lua está mais distante e não cobre o disco inteiro, deixando um anel de Sol visível o tempo todo. Não existe um único instante seguro sem filtro num eclipse anular, e essa confusão já causou acidentes. A página do próximo eclipse informa o tipo do evento e o que se verá da sua cidade, o que é justamente a informação que decide se haverá ou não uma janela sem filtro.
O que observar durante o eclipse
Além do disco, há fenômenos que acontecem ao redor e que muita gente perde por estar com o olho no filtro o tempo todo.
- A luz muda de qualidade antes de mudar de intensidade. As sombras ficam mais nítidas, porque a fonte de luz vira uma foice fina em vez de um disco.
- A temperatura cai de forma perceptível, tipicamente alguns graus, e o vento muda.
- Aves e insetos reagem. Em eclipses totais, cigarras começam a cantar e aves voltam a poleiros como se fosse o fim do dia.
- Perto da totalidade podem aparecer as faixas de sombra: linhas claras e escuras ondulando sobre superfícies claras, causadas por turbulência atmosférica.
- Durante a totalidade, planetas e estrelas brilhantes ficam visíveis no céu escuro, e o horizonte inteiro ganha uma faixa alaranjada de 360 graus.
Observação com crianças e em grupo
Criança não deve usar filtro solar sozinha, porque o filtro só protege enquanto está posicionado corretamente e uma criança pequena o desloca sem perceber. A projeção com furo é a opção certa para grupos escolares: ela protege por construção, funciona para várias pessoas ao mesmo tempo e permite acompanhar a evolução do eclipse.
Em observação coletiva, vale designar alguém para vigiar o horário e avisar a transição entre as fases. É nos poucos segundos em torno do fim da totalidade que se concentra a maior parte do risco.
Limites desta guia
Este texto não substitui orientação médica. Se houve exposição sem proteção e aparecerem mancha central, distorção de linhas ou perda de nitidez, procure oftalmologista, mesmo que os sintomas pareçam leves.
A verificação de conformidade de um filtro não pode ser feita por inspeção visual. Compre de fornecedor que declare a norma ISO 12312-2 e desconfie de produto sem identificação. Para a parte astronômica, a página do próximo eclipse mostra o tipo, os horários de cada fase e a fração do disco coberta na sua cidade. Eclipses lunares, ao contrário dos solares, são inteiramente seguros a olho nu, e a mecânica deles está na guia sobre por que a Lua fica vermelha no eclipse.