Módulo 2 - Como a IA funciona por dentro
Tokens e a próxima palavra
9 min de leitura · por Cesar Gargiulo, revisado pela equipe ValorFinal e GuardiaSec · Atualizado em 14/07/2026
O que você vai aprender
- Explicar o que é um token com as próprias palavras.
- Descrever o ciclo que gera a resposta, pedaço por pedaço.
- Entender por que contar letras é um ponto fraco conhecido.
- Aceitar o não determinismo: a mesma pergunta pode dar respostas diferentes.
Ouvir o resumo desta aula
Um recap de cerca de 2 minutos na voz do Valim, para ouvir no trânsito ou na academia.
Ler a transcrição do resumo
Resumo da aula: Tokens e a próxima palavra.
Os objetivos desta aula. Explicar o que é um token com as próprias palavras. Descrever o ciclo que gera a resposta, pedaço por pedaço. Entender por que contar letras é um ponto fraco conhecido. Aceitar o não determinismo: a mesma pergunta pode dar respostas diferentes.
Veja o essencial, parte por parte.
O texto vira pedaços antes de tudo. O modelo não lê letras nem palavras: ele lê tokens, pedaços de texto que podem ir de um caractere a uma palavra inteira.
Um pedaço de cada vez, sempre olhando para trás. Treine um modelo para completar a frase: em vez de virar à esquerda, ela virou ___.
Dois defeitos que nascem do mecanismo. Entendido o mecanismo, dois defeitos famosos deixam de ser mistério.
Esse foi o resumo do essencial. Para se aprofundar, leia a aula completa e responda os exercícios.
O texto vira pedaços antes de tudo
No módulo anterior ficou a frase que resume tudo: ele prevê a próxima palavra. A OpenAI escreve isso quase igual na documentação para leigos: durante o treinamento o modelo analisa as relações dentro dos dados e usa esse entendimento para prever a próxima palavra mais provável ao gerar uma resposta, uma palavra por vez. Agora vem a versão precisa dessa frase, e a diferença importa. O que o modelo processa não é exatamente palavra, é token. A definição oficial: o texto pode ser convertido em unidades menores, às vezes chamadas de tokens, que podem representar palavras inteiras, pedaços de palavras ou pontuação. Tokens são os blocos de construção do texto que o modelo processa.
Um detalhe da própria documentação da OpenAI mostra como isso é literal. A palavra red, em inglês, não tem um código único. Escrita em minúscula no meio da frase, ela recebe um código. Com inicial maiúscula no meio da frase, recebe outro. No começo da frase, sem o espaço antes, recebe um terceiro. São três peças diferentes para o que os nossos olhos leem como a mesma palavra. O modelo não vê a palavra que você vê, ele vê a peça que aquele trecho virou naquele lugar exato.
Existe uma régua aproximada, que a OpenAI publica para o inglês: um token equivale mais ou menos a quatro caracteres, ou a três quartos de uma palavra, e cem tokens dão perto de setenta e cinco palavras. Guarde como ordem de grandeza, não como conta exata, e lembre que a própria documentação avisa que a fatia depende do idioma. Português cheio de acento e de palavra comprida não se comporta igual ao inglês. O que interessa aqui não é o número, é a ideia: existe uma moeda invisível por trás de toda conversa, e ela se chama token.
Um pedaço de cada vez, sempre olhando para trás
Com o texto fatiado, o ciclo é quase decepcionante de tão simples. O modelo olha todos os tokens que já existem, o seu pedido e o que ele mesmo já escreveu, e calcula qual é o próximo token mais provável. Escolhe um, escreve, e recomeça o cálculo com a lista agora um token maior. De novo. E de novo. É por isso que a resposta aparece escorrendo na tela em vez de surgir pronta: você está assistindo ao ciclo acontecer. Cada peça que ele acabou de colocar entra na conta da peça seguinte.
🎮 Jogo da aula
Como nasce uma resposta
Coloque na ordem certa o que acontece entre você apertar enter e a resposta aparecer na tela.
Isso já explica um comportamento que irrita muita gente. Quando o ChatGPT começa a resposta com uma premissa errada, o resto costuma sair errado junto, mesmo que ele fosse capaz de acertar. Não é teimosia. É que a premissa errada virou contexto, e a partir dali a continuação mais provável é a que combina com o erro. A saída prática é não brigar com a resposta ruim: peça de novo, ou edite o pedido original em vez de discutir por cima. Recomeçar sai mais barato que consertar.
Dois defeitos que nascem do mecanismo
Entendido o mecanismo, dois defeitos famosos deixam de ser mistério. O primeiro é contar letras. Pergunte quantas vezes a letra R aparece em uma palavra e há uma chance real de vir bobagem. Parece absurdo, porque até criança conta letra. Só que o modelo não recebeu a palavra como uma fila de letras: recebeu um bloco, às vezes dois. Pedir para ele contar as letras de dentro de um bloco é como pedir para você contar quantos grãos de trigo tem uma fatia de pão. O trigo está lá, mas não é assim que a fatia chegou até você.
O segundo defeito incomoda mais: a mesma pergunta pode dar respostas diferentes. Você testa um prompt, funciona, mostra para o colega e sai outra coisa. A explicação oficial é elegante e vem direto do mecanismo. Como existem múltiplas maneiras plausíveis de completar uma frase, diz a OpenAI, há um elemento inerente de aleatoriedade em como o modelo responde, e por isso a mesma pergunta pode gerar respostas diferentes em consultas diferentes. O guia técnico deles reforça: o conteúdo gerado é não determinístico, e é justamente por isso que escrever bons prompts é descrito como uma mistura de arte e ciência, não como fórmula. Duas consequências valem ouro. Primeira: se a resposta veio ruim, tentar de novo é uma tática legítima, não teimosia. Segunda: desconfie de quem vende o prompt mágico que sempre funciona, porque nem a empresa que fez a ferramenta promete isso.
O que o mecanismo explica bem
- A fluência: linguagem é cheia de padrão, e padrão é o que ele domina.
- A velocidade: cada pedaço é uma escolha rápida, não uma pesquisa.
- A versatilidade: resumir, traduzir e reescrever são o mesmo truque em roupas diferentes.
O que ele cobra de você
- Conferir fato, porque provável e verdadeiro são coisas diferentes.
- Aceitar variação entre uma resposta e outra, e testar mais de uma vez.
- Recomeçar quando a resposta nasceu torta, em vez de discutir com ela.
Teste rápido
Por que o ChatGPT costuma tropeçar ao contar quantas vezes uma letra aparece em uma palavra?
Perguntas frequentes
- Token é a mesma coisa que palavra?
- Não. Na definição oficial da OpenAI, um token pode representar palavras inteiras, pedaços de palavras ou pontuação. A empresa publica uma régua aproximada para o inglês, em que um token dá mais ou menos três quartos de uma palavra. Trate isso como ordem de grandeza, porque a fatia muda de um idioma para outro.
- Por que a mesma pergunta me dá respostas diferentes?
- Porque existe aleatoriedade no processo, e a OpenAI explica o motivo: como há múltiplas maneiras plausíveis de completar uma frase, a mesma pergunta pode gerar respostas diferentes em consultas diferentes. Na prática é até útil: se a primeira resposta veio ruim, pedir de novo é uma tática válida. E é o motivo de nenhum prompt ser garantido, nem o do vídeo que promete que sempre funciona.
- Se ele erra ao contar letras, ele também erra contas?
- Pela mesma raiz, sim: o modelo de linguagem estima o texto de um resultado em vez de calcular. A diferença é que o produto tem ferramentas de análise de dados que executam a conta de verdade, com disponibilidade que varia conforme o plano. Sem ferramenta, trate qualquer número como estimativa e confira.
- Por que ele insiste no erro depois que começou errado?
- Porque o que ele já escreveu virou contexto, e a continuação mais provável passa a ser a que combina com aquilo. Não é teimosia, é o ciclo funcionando. Por isso costuma render mais editar o pedido original ou começar uma resposta nova do que discutir em cima de uma resposta que nasceu torta.
- Então é só um autocompletar mais caro?
- A mecânica é parecida, mas a conclusão é falsa. O corretor do celular olha duas ou três palavras para trás; o modelo considera a conversa inteira e foi treinado em uma quantidade de texto sem comparação. Escala nessa proporção muda o que aparece do outro lado: resumo, tradução, código e argumento. A mecânica é humilde, o resultado não é.
- Preciso contar tokens para usar o ChatGPT?
- No dia a dia, não. Isso importa para quem programa usando a API e paga por token. Para você, o conceito serve para entender por que conversa muito longa começa a falhar e por que existe um limite de memória, que é o assunto da terceira aula deste módulo.
Fontes
Seu progresso fica salvo neste aparelho. Assinantes sincronizam entre os aparelhos.