Módulo 4 - A arte de conversar

O esqueleto de um bom pedido

10 min de leitura · por Cesar Gargiulo, revisado pela equipe ValorFinal e GuardiaSec · Atualizado em 14/07/2026

O que você vai aprender

  • Nomear as quatro partes de um bom pedido.
  • Montar um pedido completo com as quatro partes na ordem certa.
  • Colocar o contexto no fim do pedido, e entender por quê.
  • Usar exemplos diversos para mostrar o formato que você quer.

As quatro partes, na ordem

A OpenAI documenta um esqueleto para uma boa mensagem, e ele é a coisa mais útil deste curso inteiro. São quatro partes, em ordem. A primeira é a Identidade: descreva o propósito, o estilo de comunicação e o objetivo geral do assistente. A segunda são as Instruções: as regras que ele deve seguir, o que deve fazer e o que nunca deve fazer. A terceira são os Exemplos: entradas possíveis junto com a saída desejada. A quarta é o Contexto: a informação adicional de que ele precisa. Quatro partes, quatro perguntas, e o pedido morno morre.

Diagrama de um pedido em quatro blocos empilhados de cima para baixo, numerados. Primeiro bloco: Identidade, com ícone de crachá e as palavras propósito, estilo de comunicação e objetivo. Segundo bloco: Instruções, com ícone de lista de regras e as palavras o que fazer e o que nunca fazer. Terceiro bloco: Exemplos, com duas setas mostrando entrada virando saída desejada. Quarto bloco, na base e mais largo: Contexto, com ícone de documento e a etiqueta vai no fim.
Identidade, Instruções, Exemplos e Contexto. Nessa ordem, com o material no fim.

Uma ressalva importante antes de seguir. Esse esqueleto vem do guia da OpenAI voltado para quem programa, onde cada parte tem um lugar técnico específico. No ChatGPT que você usa no navegador não existe nada disso: você digita tudo na mesma caixa. E funciona igual. A Identidade e as Instruções podem ir direto na mensagem, ou ficar fixas nas instruções personalizadas das configurações, nas instruções de um projeto ou de um GPT, que é onde elas passam a valer para toda conversa sem você repetir. Os Exemplos e o Contexto quase sempre vão na própria mensagem.

Vale entender o que cada parte resolve, porque elas não são decoração. A Identidade responde quem está escrevendo e com que voz, e é o que mata o tom genérico. As Instruções respondem quais são as regras do jogo, e reparem que a formulação oficial pergunta explicitamente o que o modelo nunca deve fazer, ou seja, proibição faz parte da estrutura e não é um extra. Os Exemplos respondem qual é o formato certo, mostrando em vez de descrever. E o Contexto responde com qual material, que é o que impede o modelo de inventar dado que ele não tem.

O detalhe que quase todo mundo erra: o contexto vai no fim

Agora o achado que quase nenhum material em português menciona. Ao descrever a parte de Contexto, o guia oficial diz que esse conteúdo geralmente fica melhor posicionado perto do fim do seu prompt. Perto do fim. Leia de novo, porque a maioria das pessoas faz exatamente o contrário: cola o contrato de oito páginas primeiro e, lá embaixo, depois de todo o material, escreve resume isso pra mim. O pedido fica soterrado. As instruções viram um sussurro no rodapé de um documento gigante, disputando atenção com tudo que veio antes.

Diagrama comparando dois pedidos verticais lado a lado. À esquerda, marcado com um X vermelho, um bloco enorme de documento colado ocupa quase tudo e uma frase minúscula de instrução aparece embaixo, com a etiqueta o pedido fica soterrado. À direita, marcado com um sinal de correto, aparecem primeiro os blocos pequenos de identidade e instruções, depois os exemplos, e por último o bloco grande do documento colado, com a etiqueta instrução primeiro, material depois.
A recomendação oficial: o material de contexto fica melhor perto do fim do prompt.

A ordem certa é o oposto: você diz quem ele é, dá as regras, mostra o formato com exemplos e só então despeja o material. Assim, quando o modelo chega no contrato, ele já sabe o que fazer com aquilo. É a mesma lógica de dar uma tarefa para uma pessoa: você explica o que quer e depois entrega a pasta de documentos. Ninguém entrega a pasta primeiro, deixa o colega ler tudo sem saber para quê e só no fim diz o que era para fazer. Parece detalhe bobo. Na prática, é uma das mudanças de maior efeito neste módulo.

PEDIDO RUIM (material primeiro, instrução soterrada no fim)
[oito páginas de contrato de aluguel coladas aqui]
resume isso pra mim

PEDIDO BOM (as quatro partes, com o contexto no fim)

# Identidade
Você é um assistente que explica contratos para quem não é da área jurídica, em português simples e direto, sem juridiquês.

# Instruções
- Resuma o contrato em no máximo 6 pontos.
- Destaque obrigatoriamente: valor do aluguel, prazo, índice de reajuste, multa por rescisão e quem paga o IPTU.
- Use SOMENTE o que está escrito no contrato abaixo.
- Se alguma dessas informações não estiver no texto, escreva NÃO CONSTA. Nunca preencha por conta própria.
- Não dê conselho jurídico e não diga se o contrato é bom ou ruim.

# Exemplos do formato de cada ponto
Prazo: 30 meses, com início em 01/08/2026. (cláusula 3)
IPTU: NÃO CONSTA.

# Contexto
Contrato a analisar:
[cole aqui as oito páginas do contrato]

As quatro partes montadas em um caso real. Repare que o contrato, que é o texto mais longo, é a última coisa do pedido.

🎮 Jogo da aula

Monte o esqueleto na ordem oficial

As quatro partes de um bom pedido apareceram embaralhadas. Coloque na ordem que a OpenAI recomenda, de cima para baixo.

    Exemplos: mostrar vale mais que descrever

    A parte dos Exemplos merece um parágrafo só dela, porque é a mais subutilizada das quatro. O nome técnico é few-shot, e a ideia oficial é simples: incluir um punhado de exemplos de entrada e saída no prompt faz o modelo captar o padrão implicitamente e aplicá-lo. Em português direto: em vez de gastar cinco linhas descrevendo como você quer o formato, escreva um exemplo pronto do jeito que você quer. Ele copia o padrão. Descrever formato é difícil e ambíguo. Mostrar formato é uma linha e não deixa dúvida.

    Tem uma orientação oficial sobre quantos e quais exemplos usar, e ela é contraintuitiva. O guia recomenda mostrar uma variedade de entradas possíveis com as saídas desejadas. Variedade, não volume. Dez exemplos de clientes elogiando o produto ensinam o modelo a responder um tipo só de mensagem. Três exemplos diferentes, um elogio, uma reclamação e uma dúvida sobre prazo, ensinam o padrão de verdade, que é o seu jeito de responder qualquer coisa. Se você só vai usar dois ou três exemplos, faça eles serem o mais diferentes possível entre si.

    ParteA pergunta que ela respondeExemplo de uma linha
    IdentidadeQuem escreve e com que voz?Você é um revisor de currículos objetivo, que corta gordura e não elogia à toa.
    InstruçõesQuais são as regras, e o que é proibido?Reescreva em até 4 linhas. Nunca invente experiência que não esteja no texto.
    ExemplosQual é o formato certo?Antes: Fui responsável por vendas. Depois: Aumentei as vendas da loja em 18 por cento em 6 meses.
    ContextoCom qual material?Meu currículo atual e a descrição da vaga, colados no fim do pedido.

    As quatro partes viram quatro perguntas simples. Responder as quatro é o método inteiro.

    Agora um aviso que muda como você usa tudo isso, e que quase nenhum material em português acompanhou. Durante anos a orientação da OpenAI foi ser específico, descritivo e o mais detalhado possível. A orientação atual, publicada para os modelos mais recentes, virou outra: favoreça prompts mais enxutos. O texto oficial diz que remover instruções e exemplos repetidos e simplificar descrições melhora o desempenho na tarefa e a eficiência de tokens. Em avaliações internas com agentes de código, prompts mais enxutos melhoraram a pontuação em torno de 10 a 15 por cento e reduziram os tokens entre 41 e 66 por cento. A própria OpenAI pede para tratar esses números como direcionais e validar no seu caso.

    Isso não derruba o esqueleto, e entender por que é o que separa quem seguiu a moda de quem entendeu a coisa. Específico e prolixo não são a mesma coisa. Use um parágrafo de 3 a 5 frases é específico e curto ao mesmo tempo. Escrever a mesma regra três vezes com palavras diferentes é prolixo e, pela orientação atual, piora o resultado. A regra oficial é de uma linha: declare cada instrução uma vez. Aquela mania de reforçar, do tipo não invente nada e, mais embaixo, lembre-se de não inventar nada, sai do pedido. Tem até uma armadilha documentada: mandar ser conciso pode atrapalhar, porque os modelos atuais já são concisos por padrão e a ordem genérica de brevidade às vezes deixa a resposta curta demais.

    Não confunda esqueleto com burocracia. Você não precisa escrever as quatro partes com título e tudo para pedir uma receita com o que tem na geladeira. O esqueleto é uma lista de checagem mental, e ele rende mais quanto mais a tarefa importa. Um pedido rápido pode ter só Instruções. Um e-mail delicado pede Identidade e Instruções. Uma tarefa que você vai repetir toda semana merece as quatro partes bem escritas, e aí vale guardar em um projeto ou num GPT, para não redigitar sempre. Quanto maior a consequência, mais partes valem o seu tempo.

    Teste rápido

    Você vai pedir ao ChatGPT um resumo de um contrato de aluguel de oito páginas. Onde o texto do contrato deve entrar no seu pedido?

    Perguntas frequentes

    Preciso escrever as quatro partes toda vez que uso o ChatGPT?
    Não. O esqueleto é uma lista de checagem, não um formulário obrigatório. Para um pedido rápido, só as Instruções resolvem. Quanto maior a consequência da tarefa, mais partes compensam. Se é algo que você repete toda semana, aí vale escrever as quatro com calma e guardar em um projeto ou GPT.
    Onde eu escrevo a Identidade no ChatGPT, se não tem campo para isso?
    Na própria caixa de mensagem mesmo, como primeira linha do pedido. Se você quer que ela valha para várias conversas sem redigitar, o lugar são as instruções personalizadas nas configurações, ou as instruções de um projeto ou de um GPT. O curso tem um módulo dedicado a esses recursos.
    Por que o contexto vai no fim se eu acho mais natural colar o documento primeiro?
    Porque é a recomendação oficial: o guia da OpenAI diz que esse conteúdo geralmente fica melhor posicionado perto do fim do prompt. Colar primeiro faz a instrução ficar soterrada embaixo de páginas de material. Diga o que quer, mostre o formato e só então entregue a pasta de documentos.
    Quantos exemplos devo dar?
    Poucos e diferentes entre si. A orientação oficial é mostrar uma variedade de entradas possíveis com as saídas desejadas, então dois a quatro exemplos bem diversos rendem mais que dez parecidos. Se todos os seus exemplos são do mesmo tipo, o modelo aprende só aquele tipo.
    Preciso usar títulos com cerquilha, como no exemplo da aula?
    Ajuda, mas não é obrigatório. Títulos e listas servem para marcar seções e hierarquia, o que deixa claro onde cada parte do pedido começa e termina. Em pedido curto, uma quebra de linha já basta. Em pedido longo com material colado, marcar as seções faz diferença real.
    Isso não é a mesma coisa que as seis estratégias que eu vi em outro curso?
    Não. Aquela lista de seis estratégias era a estrutura de uma versão antiga do guia da OpenAI e não é mais a estrutura atual, que organiza um bom pedido em Identidade, Instruções, Exemplos e Contexto. E tem uma ironia útil aqui: em julho de 2026, um artigo do próprio Help Center ainda apontava o endereço antigo como o guia oficial de engenharia de prompt, e o link redirecionava para a página que já não tem as seis estratégias. Nem a documentação da OpenAI acompanha a OpenAI.

    Fontes

    Seu progresso fica salvo neste aparelho. Assinantes sincronizam entre os aparelhos.