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ObservatórioAstronomia

Aglomerado de galáxias

El Gordo, o aglomerado gordo

Dois aglomerados de galáxias em plena colisão na constelação da Fênix, vistos como eram quando o universo tinha cerca de metade da idade atual.

El Gordo, o aglomerado gordo, aglomerado de galáxias, em imagem do Hubble Space Telescope
"A gargantuan collision", como o acervo nomeou esta imagem.Em 2014, astrônomos usando o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA descobriram que esse enorme aglomerado de galáxias contém a massa de impressionantes três milhões de bilhões de Sóis, então não é de admirar que ele tenha ganhado o apelido de "El Gordo" ("o Gordo", em espanhol)!Descrição do acervo ESA/Hubble, traduzida.

Crédito ESA/Hubble & NASA, RELICS ESA/Hubble CC BY 4.0

Tipo
Aglomerado de galáxiasSIMBAD: ClG
Distância
9,7 bilhões de anos-luzdeclarada pelo publicador da imagem, em 2014
Constelação
FênixPhe
Tamanho no céu
1,0 minutos de arcoextensão catalogada no SIMBAD
Observado por
Hubble Space Telescope, Very Large Telescope
Imagem publicada
janeiro de 2018
Original do acervo
7.791 × 4.784 px37 megapixels
Desvio para o vermelho
z = 0,870

O objeto catalogado como ACT-CL J0102-4915 ganhou o apelido de El Gordo, o gordo em espanhol, dado pela equipe que o descreveu. Ele fica na constelação da Fênix, no céu do sul, e o SIMBAD o classifica como ClG, aglomerado de galáxias, com desvio para o vermelho de 0,87. Não é um aglomerado comum: o que está ali são dois aglomerados atravessando um ao outro, num choque que ainda está acontecendo.

O prefixo ACT do nome vem do instrumento que o encontrou, um telescópio instalado em grande altitude no deserto do Atacama, no Chile, dedicado a medir a radiação de fundo em micro-ondas. Achar aglomerado desse jeito é diferente de achar por imagem óptica, e é justamente o método que permite localizar sistemas muito distantes sem depender de quão brilhantes as galáxias parecem.

A imagem do acervo é do Hubble, publicada em 2018, e combina dois instrumentos, ACS e WFC3, em nove filtros que vão de 606 nanômetros, no visível, até 1.600 nanômetros, já no infravermelho próximo. O título original da divulgação descreve uma colisão gigantesca. O que aparece no quadro é um enxame alongado de galáxias amareladas com arcos de lente espalhados em volta, sinal de que a massa ali também entorta a luz do que está atrás.

O que acontece quando aglomerados colidem

Um aglomerado de galáxias é feito de três componentes que se comportam de formas diferentes numa colisão. As galáxias são pequenas comparadas ao espaço entre elas e passam quase sempre sem se tocar, como dois enxames de abelhas atravessando um ao outro. A matéria escura interage ainda menos e também segue em frente praticamente sem freio.

O gás quente entre as galáxias é o oposto disso. Ele preenche todo o volume, colide de fato, aquece por choque, desacelera e fica para trás. O resultado é uma separação física entre onde está a maior parte da massa e onde está a maior parte do gás visível.

Essa separação é um dos testes observacionais mais diretos que existem sobre a natureza da matéria escura. Se toda a massa fosse gás e estrelas, massa e gás deveriam continuar juntos depois do encontro. Quando a lente gravitacional aponta a massa para um lado e a emissão em raios X aponta o gás para outro, a conclusão é que existe algo massivo que atravessou sem interagir.

Como um aglomerado é achado pela sombra

O telescópio que encontrou o El Gordo não procurava galáxias. Ele mapeava a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, o brilho remanescente do universo primitivo que preenche o céu inteiro em todas as direções.

Quando essa radiação atravessa o gás quentíssimo de um aglomerado, uma fração dos fótons ganha energia ao esbarrar em elétrons muito velozes. O espectro da radiação de fundo naquela direção fica levemente distorcido, com déficit em algumas frequências e excesso em outras. É uma marca característica, produzida por qualquer aglomerado massivo, e o levantamento consiste em varrer o céu procurando por ela.

A vantagem desse método é que a intensidade da marca praticamente não depende da distância do aglomerado. Um sistema massivo muito longe produz um sinal comparável ao de um sistema massivo perto, o que é exatamente o oposto do que acontece em levantamentos ópticos, onde tudo fica mais fraco com o quadrado da distância. Foi assim que objetos como o El Gordo, muito distantes, entraram no radar.

O que z igual a 0,87 significa em tempo

O desvio para o vermelho de 0,87 indica que os comprimentos de onda da luz do El Gordo chegam quase o dobro do tamanho que tinham na emissão. Nessa escala, o número não mede movimento local: mede quanto o espaço se esticou enquanto a luz vinha.

Traduzido em época, esse valor coloca a emissão num momento em que o universo tinha aproximadamente metade da idade que tem hoje. A imagem do Hubble não mostra o El Gordo como ele é agora, e sim como era quando aquela luz partiu. A colisão que aparece no quadro já terminou faz bilhões de anos.

É a mesma razão pela qual aglomerados muito distantes são interessantes: eles funcionam como amostras de outra época. Comparar quantos aglomerados massivos existiam em cada fase da história cósmica é um dos testes mais sensíveis dos modelos de formação de estruturas.

Por que a distância não aparece na tabela

O metadado da imagem do El Gordo traz um campo de distância com valor manifestamente inválido. Um aglomerado de galáxias a 1 ano-luz seria mais próximo do que a estrela mais próxima do Sol, o que é impossível para um objeto com desvio para o vermelho de 0,87.

Este acervo trata casos assim de uma forma só: descarta o valor e registra a ausência. Publicar um número errado por respeito automático à fonte é pior do que dizer que o dado não está disponível, sobretudo num portal que se propõe a ser conferível.

O que sobra é sólido e suficiente. O desvio para o vermelho é medido e permite situar o objeto na história cósmica com segurança. A conversão de z em anos-luz depende de parâmetros cosmológicos que variam entre trabalhos, e por isso preferimos apresentar o z e explicar o que ele significa a fabricar precisão que não temos.

O que os nove filtros do Hubble cobrem

A imagem combina os instrumentos ACS e WFC3. Os filtros mais curtos ficam em 606 e 625 nanômetros, na faixa visível amarelo-avermelhada. Depois vêm 775, 814 e 850 nanômetros, no vermelho profundo e no limite da percepção humana. E os quatro últimos, entre 1.100 e 1.600 nanômetros, já são infravermelho próximo.

Essa distribuição não é arbitrária. Num aglomerado com z de 0,87, a luz que as galáxias emitiram na faixa visível chega deslocada para o vermelho e o infravermelho próximo. Observar apenas no visível deixaria de fora justamente a parte mais informativa do espectro daqueles objetos.

A cobertura ampla também ajuda a separar quem é quem no campo. Galáxias do aglomerado, galáxias de fundo lenteadas e estrelas da Via Láctea têm comportamentos diferentes ao longo dessas nove faixas, e comparar o brilho relativo entre filtros é o primeiro filtro de classificação antes de qualquer espectroscopia.

Os números deste objeto

Distâncianão disponível (o valor no metadado é inválido)
ConstelaçãoFênix (Phe)
Identificação principalACT-CL J0102-4915SIMBAD
ClassificaçãoClG, aglomerado de galáxiasSIMBAD
Coordenadas J2000AR 15,719 graus, Dec -49,249 graus
Tamanho aparentecerca de 1 minuto de arcoSIMBAD
Desvio para o vermelhoz = 0,87
Campo da imagem3,9 por 2,4 minutos de arco
Imagens no acervo1

O que reparar nesta imagem

  • A forma alongada do enxameAs galáxias não formam uma bola concentrada. A distribuição esticada é a assinatura visual de um encontro entre dois sistemas que ainda não se acomodaram num só.
  • Os arcos ao redor das concentraçõesRiscos finos e curvos espalhados pelo campo são galáxias de fundo distorcidas pela massa do El Gordo. Eles aparecem preferencialmente em volta das regiões mais densas.
  • Duas concentrações, não umaProcure por mais de um adensamento de galáxias grandes no quadro. Cada um corresponde a um dos aglomerados que estão se atravessando.
  • A cor uniforme das galáxias membrosAs galáxias do aglomerado tendem a ter cores parecidas entre si, porque estão à mesma distância e têm populações estelares semelhantes. Objetos que fogem desse padrão costumam estar na frente ou atrás.

Por que esta imagem tem essas cores

Estas cores não são as que seus olhos veriam. Parte da luz registrada está fora da faixa visível, então cada filtro recebeu uma cor para que a informação pudesse aparecer numa tela.

ultravioletainfravermelho e ondas de rádio

  • Azulluz visível · ACS · V606 nmolho enxerga
  • Azulluz visível · ACS · r625 nmolho enxerga
  • Cianoluz visível · ACS · i775 nminvisível ao olho
  • Verdeluz visível · ACS · I814 nminvisível ao olho
  • Laranjaluz visível · ACS · z850 nminvisível ao olho
  • Vermelhoinfravermelho · WFC3 · J1,1 µminvisível ao olho
  • Vermelhoinfravermelho · WFC3 · J1,25 µminvisível ao olho
  • Vermelhoinfravermelho · WFC3 · J/H1,4 µminvisível ao olho
  • Vermelhoinfravermelho · WFC3 · H1,6 µminvisível ao olho

Estes dados vêm do metadado publicado pelo próprio ESA/Hubble junto com a imagem, filtro por filtro. Nada aqui é estimativa nossa.

Que tamanho é isso, de verdade

Cerca de 7,9 recortes como este caberiam lado a lado dentro da Lua cheia. O recorte fotografado mede 3,9 minutos de arco de largura no céu, e a Lua cheia mede cerca de 31 minutos de arco.

Levando a distância em conta, o objeto tem cerca de 2,8 milhões de anos-luz de ponta a ponta. Para comparar: a Via Láctea inteira tem por volta de 100 mil anos-luz de diâmetro.

A luz desta imagem levou 9,7 bilhões de anos para chegar até o telescópio. Você não está vendo o objeto como ele é hoje, e sim como ele era antes de a Terra existir: nosso planeta se formou há cerca de 4,54 bilhões de anos.

Dá para ver isso daqui?

Agora este objeto está acima do horizonte de São Paulo, SP, bem alto, a 64° de altura, na direção S.

Deste lugar, o ponto mais alto que ele alcança no céu é 64 graus acima do horizonte.

Este objeto não é visível a olho nu. A imagem existe porque um telescópio acumulou luz por muito tempo, com instrumentos que enxergam faixas que o olho humano não alcança.

Quanto já se olhou para aqui

  • 119registros do Hubble
  • 20registros do James Webb
  • 2registros do GALEX

Contagem de observações arquivadas no Mikulski Archive for Space Telescopes, o repositório público operado pelo Space Telescope Science Institute, para uma busca num raio de 1,2 minutos de arco em torno da coordenada deste objeto. Um registro é um produto de observação, e não uma noite de telescópio nem uma fotografia: uma única campanha científica costuma render dezenas deles. O número serve para comparar a atenção que cada objeto recebeu, não para contar fotos.

O que ainda não se sabe

A massa do El Gordo é objeto de discussão desde que ele foi descrito. Estimativas diferentes, obtidas por lente gravitacional, por raios X e por velocidades das galáxias, não convergem para o mesmo valor, e isso era esperado num sistema em plena fusão, onde a hipótese de equilíbrio falha. O debate tem consequência cosmológica direta: se o objeto for tão massivo quanto as estimativas mais altas sugerem, aglomerados assim em época tão remota seriam raros demais para o modelo padrão de formação de estruturas acomodar com folga. Outros trabalhos argumentam que a geometria da colisão infla a massa aparente e que a tensão desaparece com modelagem mais cuidadosa. A questão continua aberta.

Divulgação que só conta o que já está resolvido dá a impressão errada de que a astronomia acabou. Ela não acabou, e este bloco existe para separar o que está estabelecido do que continua em disputa entre pesquisadores.

Uma coisa que quase ninguém sabe

O apelido El Gordo foi dado em espanhol pela equipe que descreveu o objeto, numa referência ao tamanho do sistema e ao país onde fica o telescópio que o encontrou. Poucos objetos de catálogo carregam um nome popular em espanhol na literatura astronômica internacional.

Outras imagens deste objeto

El Gordo, o aglomerado gordo, aglomerado de galáxias, em imagem do Hubble Space Telescope
Hubble Space Telescope, instrumento ACS.Quando objetos astronômicos são batizados, os astrônomos gostam de escolher características notáveis como inspiração, por exemplo, a Galáxia do Redemoinho, com seus braços em forma de cata-vento, ou a Galáxia da Agulha, que aparece como um risco longo e fino de prata no céu.Descrição do acervo ESA/Hubble, traduzida.

Crédito NASA, ESA, J. Jee (University of California, Riverside, USA) ESA/Hubble CC BY 4.0

El Gordo, o aglomerado gordo, aglomerado de galáxias, em imagem do Very Large Telescope
Very Large Telescope, instrumento FORS2.Esta imagem do aglomerado de galáxias ACT-CL J0102−4915 combina imagens feitas com o Very Large Telescope do ESO com imagens do SOAR Telescope e observações em raios X do Chandra X-ray Observatory da NASA. A imagem em raios X mostra o gás quente do aglomerado e é apresentada em azul.Descrição do acervo ESO, traduzida.

Crédito ESO/SOAR/NASA ESO CC BY 4.0

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Créditos das imagens desta página

Todas as imagens deste acervo são publicadas sob licença Creative Commons Attribution 4.0 pelos observatórios que as produziram, e o crédito exigido por cada uma vem abaixo, na íntegra.

  • Abell 2744, o Aglomerado de Pandora

    Crédito NASA, ESA, ESO, CXC, and D. Coe (STScI)/J. Merten (Heidelberg/Bologna) ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Aglomerado Abell 370

    Crédito NASA, ESA, A. Koekemoer, M. Jauzac, C. Steinhardt, and the BUFFALO team ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Aglomerado de Coma

    Crédito NASA, ESA, Digitized Sky Survey 2 Acknowledgement: Davide De Martin ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Aglomerado MACS J0416

    Crédito ESA/Hubble, NASA, HST Frontier FieldsAcknowledgement: Mathilde Jauzac (Durham University, UK and Astrophysics & Cosmology Research Unit, South Africa) and Jean-Paul Kneib (École Polytechnique Fédérale de Lausanne, Switzerland) ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Aglomerado MACS J0717

    Crédito NASA, ESA, CXC, NRAO/AUI/NSF, STScI, and R. van Weeren (Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics) Acknowledgment: NASA, ESA, and J. Lotz (STScI), and the HFF team ESA/Hubble CC BY 4.0

  • Aglomerado Abell 2218

    Crédito NASA, ESA, A. Fruchter and the ERO Team (STScI, ST-ECF ) ESA/Hubble CC BY 4.0

Perguntas frequentes

O que é o aglomerado El Gordo?
O El Gordo, catalogado como ACT-CL J0102-4915, é um sistema formado por dois aglomerados de galáxias em colisão, na constelação da Fênix, com desvio para o vermelho de 0,87. O apelido em espanhol foi dado pela equipe que o descreveu. O que aparece na imagem do Hubble é o resultado parcial desse encontro: um enxame alongado de galáxias, com arcos de lente gravitacional ao redor, indicando uma concentração de massa muito grande.
Por que dois aglomerados colidindo interessam tanto?
Porque a colisão separa os componentes de um aglomerado, e essa separação é uma medida direta. Galáxias e matéria escura atravessam quase sem freio, já que interagem pouco. O gás quente entre as galáxias colide de verdade, aquece e fica para trás. Quando a lente gravitacional aponta a massa para um lado e a emissão em raios X aponta o gás para outro, fica evidenciado que existe massa que não é gás nem estrelas.
Como o El Gordo foi descoberto?
Por um telescópio instalado em grande altitude no deserto do Atacama, no Chile, dedicado a mapear a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Quando essa radiação atravessa o gás quentíssimo de um aglomerado, o espectro fica levemente distorcido de forma característica. Varrer o céu procurando essa marca localiza aglomerados massivos sem depender do brilho aparente das galáxias, o que funciona mesmo para sistemas muito distantes.
A que distância fica o El Gordo?
O metadado da imagem traz um valor de distância manifestamente inválido, e por isso este acervo registra o dado como indisponível em vez de reproduzir o número errado. O que existe de sólido é o desvio para o vermelho medido, z = 0,87, que situa a emissão numa época em que o universo tinha por volta de metade da idade atual. Converter esse valor em anos-luz depende de parâmetros cosmológicos que variam entre trabalhos.
A colisão do El Gordo ainda está acontecendo?
Não no presente. A imagem mostra a luz que saiu do sistema há bilhões de anos, quando o universo tinha cerca de metade da idade atual, então o encontro retratado terminou faz muito tempo. Colisões de aglomerados levam de centenas de milhões a alguns bilhões de anos até o sistema se acomodar num único aglomerado relaxado. O que se observa é uma cena congelada num instante muito antigo dessa história.
O El Gordo pode ser visto com telescópio amador?
Não. O objeto ocupa cerca de 1 minuto de arco no céu, está a um desvio para o vermelho de 0,87 e suas galáxias são extremamente fracas. Detectá-lo exige tempo longo de exposição em telescópio espacial ou em grandes telescópios profissionais em solo. A constelação da Fênix é acessível do hemisfério sul, inclusive do Brasil, mas o que se enxerga naquela direção com equipamento amador são apenas estrelas do primeiro plano.

Fontes oficiais

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Como citar esta página

ValorFinal. El Gordo, o aglomerado gordo. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/universo/aglomerado-el-gordo. Consultado em: 23/08/2026.