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Por que a ISS dá uma volta a cada 90 minutos

A estação não está fora da gravidade. Ela está caindo o tempo todo, e erra a Terra porque anda rápido demais para acertá-la.

Publicado sob responsabilidade editorial de Cesar GargiuloParâmetros orbitais públicos e dados de referência da NASA.

Resposta rápida

  • A 420 km de altitude, uma órbita circular exige velocidade de cerca de 27.600 km/h. Nessa velocidade, a volta completa leva aproximadamente 93 minutos.
  • A tripulação não está fora da gravidade: a 420 km a gravidade ainda é cerca de 88% da que existe no solo. Eles flutuam porque estão em queda livre permanente.
  • Como a estação dá cerca de 16 voltas por dia, a tripulação vê aproximadamente 16 amanheceres e 16 entardeceres a cada 24 horas.
  • A alta atmosfera ainda tem gás suficiente para frear a estação. Ela perde cerca de 2 km de altitude por mês e precisa de manobras periódicas de reimpulso.

A pergunta parece simples e a resposta revela quase toda a mecânica orbital. A Estação Espacial não escolhe a velocidade dela: a altitude escolhida determina a velocidade necessária, e a velocidade determina o tempo de volta. Não há acelerador, não há como ir mais devagar sem cair. A posição atual da estação, com altitude, velocidade e a região do planeta sobrevoada, está em onde está a ISS agora.

Estar em órbita é errar a Terra

Isaac Newton propôs a explicação mais clara que já se produziu sobre isso, e ela vem num desenho. Imagine um canhão no alto de uma montanha muito alta, disparando na horizontal. Com pouca pólvora, a bala cai a poucos quilômetros. Com mais, cai mais longe, e a curvatura da Terra começa a importar. Com pólvora suficiente, a bala cai tão rápido para os lados que a superfície curva se afasta na mesma taxa em que ela desce, e a bala nunca chega ao chão.

É exatamente isso que a Estação Espacial faz. Ela está caindo o tempo todo, e erra a Terra porque anda rápido demais para acertá-la. Órbita não é ausência de gravidade: é queda livre com velocidade lateral suficiente.

Daí decorre o esclarecimento mais importante desta guia. A 420 quilômetros de altitude, a gravidade terrestre ainda vale cerca de 88% do valor na superfície. Os astronautas não flutuam porque escaparam da gravidade. Eles flutuam porque tudo ao redor deles está caindo junto, exatamente na mesma taxa, o que elimina qualquer sensação de peso. O nome técnico para essa condição é microgravidade, e não gravidade zero.

A conta que fixa a velocidade

Para uma órbita circular, a força gravitacional precisa fornecer exatamente a força centrípeta necessária. Igualando as duas, a massa do satélite se cancela e sobra uma relação que depende apenas da massa da Terra e da distância ao centro do planeta.

Isso tem duas consequências que valem a pena registrar. A primeira é que a velocidade de órbita não depende da massa do objeto: uma estação de 420 toneladas e um parafuso solto na mesma altitude viajam à mesma velocidade. A segunda é que a velocidade cai conforme a altitude aumenta, o que contraria a intuição de que órbitas mais altas seriam mais rápidas.

AltitudeVelocidadePeríodo orbitalExemplo
420 km27.600 km/h93 minutosEstação Espacial Internacional
550 km27.300 km/h96 minutosSatélites de internet em órbita baixa
20.200 km13.900 km/h12 horasSatélites de navegação por satélite
35.786 km11.070 km/h23 h 56 minSatélites geoestacionários
384.400 km3.680 km/h27,3 diasA Lua

A linha dos 35.786 quilômetros é especial. Nessa altitude o período orbital coincide com o dia sideral da Terra, então o satélite acompanha a rotação do planeta e parece parado no céu. É por isso que antenas parabólicas ficam fixas apontando para um ponto, e é por isso que essa altitude específica é um recurso disputado.

Dezesseis amanheceres por dia

Com 93 minutos por volta, a estação completa cerca de 15,5 órbitas em 24 horas. Como aproximadamente metade de cada órbita é passada no lado iluminado e metade na sombra da Terra, a tripulação atravessa 16 amanheceres e 16 entardeceres por dia.

Isso torna impossível regular o sono pelo ciclo natural de luz, então a estação opera no Tempo Universal Coordenado, com horários de trabalho e descanso definidos por cronograma e com iluminação interna controlada. Persianas nas janelas e rotinas rígidas substituem o que o Sol faz aqui embaixo.

Cada travessia da sombra dura cerca de 35 minutos, e é nela que a estação some subitamente do céu para quem está observando do solo. O fenômeno está descrito na guia sobre como ver a ISS a olho nu.

Por que a órbita é inclinada 51,6 graus

A órbita da estação faz um ângulo de 51,6 graus com o equador, o que significa que ela sobrevoa qualquer ponto entre 51,6 graus de latitude norte e 51,6 graus de latitude sul. Todo o território brasileiro está confortavelmente dentro dessa faixa.

A escolha desse ângulo é histórica e prática. Foguetes russos partem do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, a cerca de 46 graus de latitude norte, e uma órbita de menor inclinação exigiria manobras caras ou sobrevoo de áreas povoadas com estágios descartados. Os 51,6 graus foram o compromisso que permitiu acesso a partir tanto da Rússia quanto dos Estados Unidos.

A inclinação também explica por que a estação passa em horários e direções diferentes a cada dia. Como o plano da órbita permanece aproximadamente fixo enquanto a Terra gira embaixo, cada volta cruza uma longitude diferente, e o padrão de passagens sobre um mesmo lugar se repete apenas de forma aproximada em ciclos de alguns dias.

O ar que ainda existe a 420 quilômetros

A altitude da estação fica dentro da termosfera, e ali ainda há gás. É pouquíssimo, com densidade da ordem de um trilionésimo da atmosfera ao nível do mar, mas a estação atravessa esse gás a 7,7 quilômetros por segundo, e o arrasto acumulado é significativo.

O resultado é perda contínua de altitude, da ordem de 2 quilômetros por mês em média. Sem correção, a órbita decairia até a reentrada em cerca de um a dois anos. Por isso a estação recebe manobras periódicas de reimpulso, geralmente executadas pelos motores de naves de carga acopladas.

A taxa de decaimento não é constante. Ela depende da densidade da alta atmosfera, que por sua vez depende da atividade solar: em períodos de Sol ativo, o aquecimento faz a termosfera se expandir e o arrasto aumenta bastante. Essa é a ligação direta entre clima espacial e operação em órbita baixa, tratada na guia sobre tempestade geomagnética e índice Kp.

Manobras de desvio de detritos

Além do reimpulso, a estação executa manobras de desvio quando algum objeto catalogado tem probabilidade de aproximação perigosa. A decisão é tomada com base em uma caixa de segurança em torno da trajetória e numa probabilidade de colisão calculada com antecedência de horas a dias.

A necessidade dessas manobras cresceu com a quantidade de detritos em órbita baixa. Um fragmento de poucos centímetros a velocidade orbital carrega energia cinética comparável à de um veículo em alta velocidade, e a blindagem da estação protege apenas contra partículas bem menores.

Quando não há tempo para manobrar, a tripulação se abriga nas naves acopladas, que funcionam como veículos de escape. É um procedimento raro, mas já executado mais de uma vez.

Por que descer é mais difícil do que parece

A energia envolvida em colocar algo em órbita não está principalmente na altitude, e sim na velocidade. Subir 420 quilômetros é a parte barata; ganhar 7,7 quilômetros por segundo de velocidade horizontal é a parte cara.

Na volta, essa energia toda precisa ser dissipada, e a solução é usar a própria atmosfera como freio. O aquecimento da reentrada não vem de atrito com o ar no sentido comum: vem da compressão do gás à frente do veículo, que é comprimido tão rápido que chega a milhares de graus. É por isso que cápsulas têm escudo térmico ablativo em vez de superfícies lisas.

A própria estação terá esse destino. As agências parceiras planejam encerrar a operação no início da década de 2030, com uma reentrada controlada sobre região oceânica remota, conduzida por um veículo dedicado. Estruturas grandes não podem simplesmente decair sozinhas, porque partes sobrevivem à reentrada.

Limites desta guia

Os valores de altitude, velocidade e período são aproximações para uma órbita circular média. A órbita real da estação é levemente elíptica e a altitude oscila conforme os reimpulsos, então velocidade e período variam um pouco ao longo do tempo.

A taxa de decaimento citada é média de longo prazo e muda bastante com a fase do ciclo solar. Para os números atuais, com altitude e velocidade medidas a partir de dados de rastreamento, use a página de onde está a ISS agora, e para ver outros objetos em órbita cruzando o seu céu, a de satélites visíveis hoje.

Perguntas frequentes

Por que a ISS dá uma volta a cada 90 minutos?

Porque a altitude determina a velocidade necessária para manter a órbita. A 420 km, a velocidade orbital é de cerca de 27.600 km/h, e nessa velocidade o percurso completo em torno da Terra leva aproximadamente 93 minutos. Não há escolha: mais devagar a estação cairia, mais rápido ela subiria para uma órbita maior.

Existe gravidade na Estação Espacial?

Existe, e é forte: a 420 km de altitude a gravidade ainda vale cerca de 88% do valor na superfície. Os astronautas flutuam porque estão em queda livre permanente junto com tudo ao redor, o que elimina a sensação de peso. A condição correta se chama microgravidade, não gravidade zero.

Quantos amanheceres a tripulação vê por dia?

Cerca de 16, e o mesmo número de entardeceres, já que a estação completa aproximadamente 15,5 voltas em 24 horas e passa metade de cada órbita no lado iluminado. Por isso a estação opera no Tempo Universal Coordenado, com horários de trabalho e descanso definidos por cronograma.

Satélites mais altos são mais rápidos?

Não, é o contrário. Quanto maior a altitude, menor a velocidade orbital e maior o período. A Estação Espacial, a 420 km, faz 27.600 km/h; um satélite geoestacionário, a 35.786 km, faz 11.070 km/h; a Lua, a 384.400 km, faz cerca de 3.680 km/h.

Por que satélites geoestacionários parecem parados?

Porque a 35.786 km de altitude o período orbital coincide com o dia sideral da Terra. O satélite acompanha a rotação do planeta e permanece sobre o mesmo ponto do equador. É por isso que antenas parabólicas ficam fixas apontando para uma direção.

Por que a órbita da ISS é inclinada 51,6 graus?

Por razão histórica e prática. Foguetes russos partem do cosmódromo de Baikonur, a cerca de 46 graus de latitude norte, e uma inclinação menor exigiria manobras caras ou sobrevoo de áreas povoadas com estágios descartados. Os 51,6 graus permitiram acesso tanto da Rússia quanto dos Estados Unidos, e fazem a estação sobrevoar todo o território brasileiro.

A ISS perde altitude?

Perde, cerca de 2 quilômetros por mês em média. A 420 km ainda há gás residual na termosfera, e a estação o atravessa a 7,7 km por segundo. Sem correção, a órbita decairia até a reentrada em um a dois anos, por isso são feitas manobras periódicas de reimpulso com motores de naves de carga acopladas.

A atividade solar afeta a órbita da estação?

Afeta diretamente. Em períodos de Sol ativo, o aquecimento faz a termosfera se expandir, a densidade na altitude da estação aumenta e o arrasto cresce. Isso acelera a perda de altitude e exige mais reimpulsos. O mesmo efeito já causou a perda de satélites recém-lançados em órbita baixa.

A estação desvia de lixo espacial?

Sim. Quando um objeto catalogado tem probabilidade de aproximação perigosa, a estação executa manobra de desvio, decidida com antecedência de horas a dias. Quando não há tempo, a tripulação se abriga nas naves acopladas, que servem de veículos de escape. Um fragmento de poucos centímetros a velocidade orbital carrega energia cinética suficiente para perfurar a estrutura.

O que vai acontecer com a ISS no fim da vida útil?

As agências parceiras planejam encerrar a operação no início da década de 2030, com reentrada controlada sobre região oceânica remota, conduzida por um veículo dedicado. Estruturas desse porte não podem decair sozinhas, porque partes significativas sobrevivem à reentrada e precisam cair em área desabitada.

Para continuar daqui

A parte prática desta guia vive em onde está a iss agora, que calcula tudo isto para a coordenada e o fuso da cidade que você escolher, com os dados do dia. A outra guia desta seção é como ver a iss a olho nu. O índice completo das guias do Observatório reúne todas elas por seção, e a metodologia do portal está em como validamos os cálculos.

Fontes oficiais

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Como citar esta página

ValorFinal. Por que a ISS dá uma volta a cada 90 minutos. Disponível em: https://valorfinal.com.br/astronomia/guia/por-que-a-iss-da-uma-volta-a-cada-90-minutos. Consultado em: 23/08/2026.