Existe um objeto de 420 toneladas com pessoas dentro passando sobre a sua cidade várias vezes por semana, e dá para vê-lo a olho nu de dentro de uma cidade grande, sem equipamento nenhum. O que separa quem vê de quem não vê é apenas saber o horário e a direção. Quando a Estação Espacial passa sobre a sua cidade, com horário, direção e altura de cada passagem, está em onde está a ISS agora.
Por que ela é tão brilhante
A estação não tem luz própria visível daqui. O que se vê é luz do Sol refletida, principalmente pelos painéis solares e pelos módulos revestidos de material claro. A área total dos painéis passa de 2.500 metros quadrados, e a estrutura principal tem cerca de 109 metros de comprimento, o que a torna de longe o maior objeto artificial em órbita.
Essa combinação de área grande e órbita baixa produz um brilho que, nas melhores passagens, chega a rivalizar com Vênus, ou seja, mais forte que qualquer estrela do céu. É por isso que ela atravessa o clarão urbano sem dificuldade e é frequentemente confundida com um avião.
Por que só dá para ver no crepúsculo
Para enxergar a estação, duas condições precisam valer ao mesmo tempo. Ela precisa estar iluminada pelo Sol, e você precisa estar no escuro. Como ela voa a cerca de 420 quilômetros de altitude, continua recebendo luz solar por um bom tempo depois de o Sol já ter se posto no solo, exatamente como um avião em grande altitude ainda brilha quando embaixo já está escuro.
Essa sobreposição acontece em duas janelas por dia: nas primeiras horas depois do pôr do sol e nas últimas antes do amanhecer. Fora delas, ou o céu está claro demais, ou a estação está dentro da sombra da Terra. Nenhuma passagem é visível à meia-noite.
Como a estação completa uma volta a cada 93 minutos aproximadamente, ela passa perto da sua região várias vezes por dia, e apenas algumas dessas passagens caem na janela de visibilidade. Por isso as boas passagens vêm em séries: alguns dias com várias oportunidades, seguidos por uma semana sem nenhuma.
Como reconhecer a estação
| Característica | Estação Espacial | Avião |
|---|---|---|
| Piscar | Não pisca em momento algum | Luzes estroboscópicas piscando |
| Cor | Branco levemente amarelado, constante | Verde e vermelho nas pontas das asas |
| Ruído | Nenhum | Audível quando próximo |
| Trajetória | Linha reta, geralmente de oeste para leste | Qualquer direção, com curvas |
| Fim da passagem | Some no horizonte ou apaga no meio do céu | Continua até sumir por distância |
| Duração | 2 a 6 minutos | Muito mais tempo em campo |
O sinal mais confiável é o desaparecimento súbito no meio do céu. Isso acontece quando a estação cruza a borda da sombra da Terra: o brilho cai a nada em poucos segundos, mesmo com o objeto ainda bem alto. Nas passagens da madrugada ocorre o inverso, e ela aparece do nada no meio do céu ao sair da sombra. Nenhum avião faz isso.
O que é uma passagem boa
Passagens não são iguais. O que decide a qualidade é a altura máxima que a estação atinge no céu, medida em graus acima do horizonte.
- Acima de 60 graus: passagem excelente. A estação cruza quase a pino, fica muito brilhante e é impossível de perder.
- Entre 30 e 60 graus: passagem boa. Vale sair de casa, com horizonte parcialmente livre.
- Entre 10 e 30 graus: passagem baixa. Exige horizonte limpo naquela direção e o brilho é bem menor.
- Abaixo de 10 graus: dificilmente vale a tentativa, com prédios, árvores e a atenuação atmosférica trabalhando contra.
A página da ISS lista as próximas passagens da sua cidade com a direção de surgimento, a altura máxima e a direção de desaparecimento, exatamente porque uma lista de horários sem essas informações mandaria a pessoa olhar para o lado errado.
Rotina para não perder a passagem
- Escolha uma passagem com altura máxima acima de 30 graus. Ignore as baixas até ganhar prática.
- Esteja no lugar cinco minutos antes. A passagem não espera, e chegar em cima da hora costuma significar procurar enquanto ela já está atravessando.
- Fique de frente para a direção de surgimento anotada. Ela é dada em ponto cardeal, e um aplicativo de bússola resolve a orientação.
- Olhe baixo, perto do horizonte. A estação surge de baixo e sobe, e quem olha para cima demora a encontrá-la.
- Não use o celular enquanto espera. Alguns minutos de adaptação ao escuro ajudam, especialmente em passagens fracas.
- Acompanhe até o fim. O apagamento no meio do céu é a parte mais interessante, e é a confirmação de que era mesmo ela.
Vale exportar a passagem para a agenda do celular. A página da ISS oferece um arquivo de calendário com alarme dez minutos antes, e esse detalhe faz diferença: uma passagem boa acontece a cada vários dias, e a maioria das pessoas simplesmente esquece.
Como fotografar a passagem
A estação se move rápido demais para uma foto instantânea, então a técnica correta é a exposição longa, que registra um rastro contínuo em vez de um ponto.
Com câmera ou celular em modo manual, apoiado num tripé ou numa superfície firme, use exposição de 15 a 30 segundos, ISO entre 400 e 800, foco no infinito e abertura máxima. O rastro aparece como uma linha reta atravessando o quadro. Enquadrar com um elemento em primeiro plano, como uma árvore ou o telhado de uma casa, dá escala e transforma o registro técnico numa imagem.
Quem quiser mais pode emendar várias exposições consecutivas e empilhá-las num único arquivo, obtendo um rastro longo. Nesse caso, use o intervalo mais curto possível entre disparos, para não deixar falhas na linha.
Ela não é a única
A estação chinesa Tiangong também é visível a olho nu, embora bem menos brilhante, por ser bastante menor. Corpos de foguete abandonados, satélites de observação da Terra e o telescópio espacial Hubble aparecem regularmente, mas com brilho muito menor, exigindo céu razoavelmente escuro.
O caso que mais gera dúvida é o trem de satélites da constelação Starlink, uma fila de pontos idênticos logo após um lançamento. O que é e por que ele some em poucos dias está na guia sobre o trem de satélites. A página de satélites visíveis hoje lista o que passa sobre a sua cidade nas próximas horas com brilho suficiente para o olho nu.
Por que a previsão perde precisão depois de alguns dias
As previsões de passagem são calculadas a partir de elementos orbitais publicados periodicamente, que descrevem a órbita naquele instante. A propagação a partir deles é confiável dentro de poucos segundos por até cerca de três dias.
Depois disso, dois fatores degradam a previsão. O primeiro é o arrasto atmosférico, que faz a estação perder altitude continuamente e depende do estado da alta atmosfera, que por sua vez varia com a atividade solar. O segundo é que a própria estação executa manobras de reimpulso e desvios de detritos, que deslocam a órbita de forma não prevista pelos elementos anteriores. Por que ela precisa dessas manobras está explicado na guia sobre por que a ISS dá uma volta a cada 90 minutos.
Limites desta guia
Os horários de passagem valem para uma coordenada específica. Uma previsão calculada para a capital não serve para uma cidade a 200 quilômetros dali: a diferença pode ser de vários minutos e de dezenas de graus na direção.
Céu encoberto elimina a passagem, por mais alta que ela seja. Antes de sair, confira a previsão de nuvens hora a hora no céu hoje, que também mostra a janela escura da noite.