Estudo ValorFinalInvestimentos

Real, dólar e inflação: o que R$ 1.000 viraram em 10 anos

Estudo ValorFinal com as séries oficiais do BCB e do IBGE: em 10 anos, R$ 1.000 em dólar viraram R$ 1.411, abaixo dos R$ 1.637 exigidos pela inflação; no CDB a 100% do CDI viraram R$ 2.230 líquidos. O dólar guardado perdeu da inflação nas janelas de 1, 5 e 10 anos.

Metodologia ValorFinalBanco Central (SGS: dólar PTAX 3698, CDI 4390, poupança 196), IBGE (IPCA, SGS 433); bases mensais versionadas do ValorFinal
R$ 2.230 x R$ 1.411é o placar de 10 anos entre o CDB a 100% do CDI (líquido de IR) e o dólar guardado, para cada R$ 1.000: o dólar ficou abaixo até da inflação (R$ 1.637); o colchão vale R$ 611 de poder de compra.

Principais conclusões

  • O dólar em espécie perdeu da inflação nas três janelas do estudo (1, 5 e 10 anos): em 10 anos, R$ 1.000 viraram R$ 1.411, contra R$ 1.637 exigidos pelo IPCA.
  • Nas janelas de 1 e 5 anos, o dólar perdeu até em valor NOMINAL, porque o câmbio recuou dos picos de 2020-2021 para R$ 5,03 em abril de 2026.
  • O juro brasileiro venceu com folga: R$ 1.000 num CDB a 100% do CDI viraram R$ 2.230 líquidos de IR em 10 anos, o único veículo a bater a inflação com margem.
  • A poupança fez R$ 1.790 em 10 anos, pouco acima da inflação; o colchão perdeu 39% do poder de compra (R$ 1.000 de 2016 compram R$ 611 de hoje).
  • Dólar é proteção cambial (gastos em dólar, crises agudas), não poupança de longo prazo contra a inflação doméstica: nessa função, a década pagou o juro local.

"Devia ter comprado dólar." A frase atravessa qualquer conversa sobre dinheiro no Brasil, geralmente logo depois de uma alta do câmbio. Mas será que o dólar guardado protegeu, de fato, quem fugiu do real? Neste estudo, o ValorFinal pôs R$ 1.000 para correr em quatro pistas ao longo da última década: o colchão, a cédula de dólar, a poupança e um CDB a 100% do CDI, sempre contra a régua que importa, a inflação oficial (IPCA).

O placar da janela de 10 anos (Abril/2016 a Abril/2026) desmonta o senso comum: o dólar transformou R$ 1.000 em R$ 1.411,49, abaixo dos R$ 1.637,42 que a inflação exigia para empatar. O juro brasileiro venceu com folga: R$ 2.230,20 líquidos no CDB. A poupança empatou com a inflação com vantagem mínima, e o colchão perdeu 39% do poder de compra.

A corrida em três janelas

A tabela mostra o que R$ 1.000 viraram em cada veículo, nas janelas de 1, 5 e 10 anos terminando em Abril/2026. A coluna da inflação é a linha de chegada: quanto seria preciso ter para manter o poder de compra.

R$ 1.000 em cada aplicação, por janela de tempo
JanelaEmpate com a inflaçãoDólarPoupançaCDB 100% CDI (líquido)
1 anoAbril/2025 a Abril/2026R$ 1.043,92R$ 870,22R$ 1.083,22R$ 1.122,35
5 anosAbril/2021 a Abril/2026R$ 1.334,45R$ 904,89R$ 1.420,95R$ 1.634,08
10 anosAbril/2016 a Abril/2026R$ 1.637,42R$ 1.411,49R$ 1.790,17R$ 2.230,20

Três leituras saltam da tabela. O CDB a 100% do CDI venceu a inflação nas três janelas, e foi o único. A poupança venceu por margens pequenas. E o dólar perdeu da inflação nas três janelas, chegando a perder em valor NOMINAL nas janelas de 1 e 5 anos, porque o câmbio de Abril/2026 (R$ 5,03) está abaixo dos picos de 2020-2021.

O colchão: a perda silenciosa

Antes de comparar aplicações, vale medir o custo de não aplicar. Os R$ 1.000 guardados em espécie em Abril/2016 continuam sendo R$ 1.000 no papel, mas compram hoje o que R$ 610,72 compravam lá. A inflação acumulada da década corroeu 39% do poder de compra, o mesmo fenômeno que nosso estudo do salário sem reajuste mostra pelo lado da renda. Qualquer comparação entre aplicações começa dessa linha de base: parado, o dinheiro sempre perde.

O mito do dólar guardado

O dólar subiu na década: de R$ 3,57 para R$ 5,03, uma alta de 41%. Como, então, perdeu da inflação? Porque a inflação acumulada foi maior que a alta do câmbio na mesma janela. A cédula de dólar não rende juros: ela só acompanha o câmbio, e o câmbio não tem compromisso nenhum com o IPCA. Nas janelas em que o real se fortalece, como na de 1 e 5 anos da tabela, o dólar guardado perde até nominalmente.

Isso não faz do dólar um erro em qualquer contexto. Ele é o instrumento certo para gastos futuros em dólar e funciona como seguro em crises locais agudas. O que os dados desmontam é o uso do dólar em espécie como poupança de longo prazo contra a inflação brasileira: nessa função, quem trocou o juro local pela cédula pagou caro. Dolarizar patrimônio rendendo juros lá fora é outra estratégia, com outros custos e riscos, fora do escopo deste estudo.

Poupança e CDI: a diferença dos juros sobre juros

A poupança terminou a década com R$ 1.790,17, um ganho real magro sobre os R$ 1.637,42 da inflação. O CDB a 100% do CDI terminou com R$ 2.230,20, já descontado o imposto de renda de 15%. A diferença, R$ 440,03 sobre um principal de R$ 1.000, é o preço de uma escolha que muita gente faz por hábito. Nosso estudo da poupança destrincha essa conta por prazo.

O motor da vitória do CDI foi o nível dos juros brasileiros: a Selic passou boa parte da década entre 10% e 15% ao ano. Juro alto é um problema para quem deve e um subsídio para quem aplica, e a década recente pagou generosamente quem simplesmente deixou o dinheiro no conservadorismo do CDI. Não há garantia de repetição: com Selic baixa, como em 2020-2021, o jogo aperta e a poupança chega a perder da inflação.

O que este estudo não diz

Duas ressalvas de honestidade estatística. Primeira: janelas importam. O estudo termina em Abril/2026, com o câmbio abaixo dos picos históricos; quem mediu a mesma corrida terminando em 2020, com o dólar perto de R$ 5,90, viu outro placar. A régua da inflação e do CDI, porém, vale para qualquer janela, e é contra ela que cada veículo deve ser julgado. Segunda: o estudo compara reservas de valor simples e acessíveis; não é recomendação de investimento, e ativos de risco (bolsa, fundos cambiais, cripto) têm dinâmicas próprias que uma comparação de década não captura.

Metodologia e limitações

Cálculo em build sobre as bases mensais versionadas do repositório: IPCA mensal do IBGE (BCB/SGS 433, a mesma série da nossa calculadora de correção monetária), dólar PTAX venda em média mensal (SGS 3698), CDI anualizado mensal (SGS 4390) convertido a taxa mensal equivalente, e rendimento mensal da poupança (SGS 196). Janelas terminam na última competência disponível do IPCA (Abril/2026); acumulação do mês inicial (exclusive) ao final (inclusive), convenção da Calculadora do Cidadão. CDB simulado a 100% do CDI com IR regressivo e sem taxas; dólar em espécie sem spread de compra e venda (o spread real piora o resultado do dólar). Entenda nossa abordagem em como validamos os cálculos.

Fontes oficiais

Conclusão

Na última década, o ranking das reservas simples ficou assim: CDB a 100% do CDI (R$ 2.230,20), poupança (R$ 1.790,17), inflação como régua (R$ 1.637,42), dólar em espécie (R$ 1.411,49) e colchão (R$ 610,72 de poder de compra). O juro brasileiro foi o único a vencer a inflação com folga, e o dólar guardado não cumpriu a fama. Simule o seu caso na calculadora de CDB, corrija valores pela inflação e veja os demais estudos do ValorFinal, com dados livres para citação.

Como citar esta página

Vai usar este dado em uma matéria, post ou trabalho? Copie a referência pronta. O número vem do ValorFinal (metodologia própria sobre dados oficiais); a página é atualizada automaticamente.

ValorFinal. Real x dólar x inflação hoje: R$ 2.230 x R$ 1.411. Disponível em: https://valorfinal.com.br/estudos/real-dolar-e-inflacao-em-10-anos. Fonte do dado: ValorFinal (metodologia própria sobre dados oficiais). Acesso em: 01/04/2026.

Para imprensa, blogs e professores

Os números deste estudo são livres para citação com crédito ao ValorFinal (licença Creative Commons BY 4.0). Você pode reproduzir as tabelas e o gráfico em uma matéria, post ou trabalho, desde que cite a fonte e o link desta página. Precisa de um recorte específico ou quer falar com a equipe? Veja a central de estudos e dados ou os widgets gratuitos para incorporar.

Calcule o seu caso

Como calculamos

Os números deste estudo são estimativas calculadas pelas mesmas engines abertas que movem as calculadoras do ValorFinal, a partir de tabelas oficiais (Banco Central (SGS: dólar PTAX 3698, CDI 4390, poupança 196), IBGE (IPCA, SGS 433); bases mensais versionadas do ValorFinal). Eles podem variar conforme a situação individual, convenção coletiva e atualizações da legislação. Entenda nossa metodologia em como validamos os cálculos.

Perguntas frequentes

O que R$ 1.000 de 10 anos atrás viraram em cada aplicação?
Na janela de Abril/2016 a Abril/2026: no colchão, continuam R$ 1.000 nominais, que compram o equivalente a R$ 610,72 de lá. Em dólar, viraram R$ 1.411,49. Na poupança, R$ 1.790,17. Num CDB a 100% do CDI, R$ 2.230,20 líquidos de IR. Para empatar com a inflação, precisavam virar R$ 1.637,42.
O dólar protegeu da inflação brasileira nos últimos 10 anos?
Não. O câmbio saiu de R$ 3,57 para R$ 5,03 na janela do estudo, transformando R$ 1.000 em R$ 1.411,49. A inflação exigia R$ 1.637,42 para empatar. Quem guardou dólar em espécie perdeu poder de compra no Brasil, embora menos do que quem deixou reais no colchão.
E em 5 anos, o dólar rendeu quanto?
Perdeu até em valor nominal: R$ 1.000 convertidos em Abril/2021 (câmbio a R$ 5,56) voltaram como R$ 904,89 em Abril/2026 (câmbio a R$ 5,03). Enquanto isso, a inflação exigia R$ 1.334,45 e o CDB a 100% do CDI entregou R$ 1.634,08 líquidos.
Quem ganhou a corrida da década?
O juro brasileiro. O CDB a 100% do CDI transformou R$ 1.000 em R$ 2.230,20 líquidos de imposto em 10 anos, única aplicação do estudo a superar a inflação com folga. A poupança (R$ 1.790,17) ficou pouco acima da inflação (R$ 1.637,42), e o dólar (R$ 1.411,49) ficou abaixo.
Quanto o dinheiro parado no colchão perdeu em 10 anos?
Cerca de 39% do poder de compra: os R$ 1.000 nominais de Abril/2016 compram hoje o equivalente a R$ 610,72. É o mesmo efeito que detalhamos no estudo da inflação sobre o salário: o dinheiro que não rende encolhe em silêncio.
Então nunca vale a pena ter dólar?
Não é o que o estudo diz. O dólar é proteção cambial: serve para quem tem gastos futuros em dólar (viagem, importação, mensalidade fora) e como seguro contra crises locais agudas, quando o câmbio dispara. O que os dados mostram é que, como reserva de longo prazo contra a inflação doméstica, o dólar parado rendeu menos que o juro local na última década.
O resultado depende da janela escolhida?
Depende, e o estudo declara isso. Quem comprou dólar num fundo de vale (como em 2011, a R$ 1,60) e vendeu num pico teve ótimo resultado; quem comprou no pico de 2020-2021 amarga perda nominal até hoje. As três janelas do estudo (1, 5 e 10 anos, terminando em Abril/2026) dão o retrato recente, não uma lei universal. A régua da inflação e do CDI vale para qualquer janela.
Por que comparar com o CDI e não com a bolsa ou o ouro?
Porque o CDI é o custo de oportunidade padrão do dinheiro parado no Brasil: é o que rende a aplicação conservadora mais comum (CDB grande banco, Tesouro Selic aproximado). Bolsa, ouro e cripto têm risco e volatilidade de outra natureza e fogem do escopo deste estudo, que compara reservas de valor simples que qualquer pessoa usa.
A poupança venceu a inflação na década?
Por pouco: R$ 1.790,17 contra R$ 1.637,42 exigidos pela inflação, um ganho real pequeno em 10 anos. Nos períodos de Selic baixa (2020-2021), a poupança chegou a perder da inflação por margem larga. Nosso estudo da poupança mostra quanto ela deixa na mesa em relação ao CDB.
O IR não come o rendimento do CDB?
Come uma parte, e o estudo já desconta: usamos a alíquota regressiva (15% acima de 2 anos, 17,5% em 1 ano). Mesmo líquidos, os R$ 2.230,20 do CDB em 10 anos superam com folga a poupança isenta (R$ 1.790,17). Prazo longo joga a favor: quanto mais tempo, menor a alíquota e maior o juro composto.
De onde vêm os dados deste estudo?
Das bases mensais versionadas do ValorFinal: IPCA do IBGE (série 433 do BCB/SGS, a mesma da nossa calculadora de correção monetária), dólar PTAX venda (média mensal, SGS 3698), CDI anualizado (SGS 4390) e rendimento mensal da poupança (SGS 196). As mesmas séries alimentam as páginas de índices e os CSVs abertos do portal.
Posso citar estes números?
Pode. Os números são livres para citação com crédito ao ValorFinal e link para esta página, sob licença Creative Commons BY 4.0. As janelas, fontes e convenções de cálculo estão descritas na metodologia; os dados brutos estão nos CSVs abertos da nossa central de dados.