"Vira MEI que você ganha mais" é uma das frases mais repetidas do mercado de trabalho brasileiro. Ela é verdadeira no extrato do mês e falsa no ano inteiro, e essa diferença raramente aparece na proposta. Neste estudo, o ValorFinal colocou lado a lado, faixa por faixa, quanto sobra de fato como MEI e quanto vale o mesmo valor como CLT, usando as engines da nossa calculadora do DAS do MEI e da calculadora de salário líquido.
Em R$ 5.000, a conta resume o dilema. O MEI de serviços paga só R$ 86,05 de DAS e fica com R$ 4.913,95 no bolso, bem mais que o líquido CLT de R$ 4.498,49. Mas o CLT recebe junto um pacote invisível, FGTS, 13º e férias com 1/3, que leva o total a R$ 5.870,71 por mês. No pacote, o CLT vale R$ 956,76 a mais, todos os meses. Em um ano, são R$ 11.481,09 de diferença.
A conta do mês contra a conta do ano
O erro clássico da comparação é olhar só o dinheiro que cai na conta no dia 5. O MEI quase sempre vence essa foto: o DAS é fixo, pequeno e não cresce com o faturamento. O CLT, por sua vez, tem INSS progressivo e, acima de R$ 5.000, Imposto de Renda na fonte. Só que o contrato CLT paga mais do que o salário do mês: deposita 8% de FGTS, acumula 1/12 de 13º e 1/12 de férias acrescidas de um terço. Esse pacote não é bônus, é remuneração com data de pagamento diferente.
A tabela compara as duas colunas honestamente: a sobra do MEI (faturamento menos DAS de serviços) contra o líquido CLT e contra o pacote CLT completo, no mesmo valor nominal.
| Valor mensal | Sobra MEI | Líquido CLT | Pacote CLT | Diferença (pacote - MEI) |
|---|---|---|---|---|
| R$ 2.000 | R$ 1.913,95 | R$ 1.844,32 | R$ 2.393,20 | R$ 479,25 |
| R$ 3.000 | R$ 2.913,95 | R$ 2.751,40 | R$ 3.574,73 | R$ 660,78 |
| R$ 4.000 | R$ 3.913,95 | R$ 3.631,40 | R$ 4.729,18 | R$ 815,23 |
| R$ 5.000 | R$ 4.913,95 | R$ 4.498,49 | R$ 5.870,71 | R$ 956,76 |
| R$ 6.000 | R$ 5.913,95 | R$ 4.963,95 | R$ 6.610,61 | R$ 696,66 |
| R$ 6.750 | R$ 6.663,95 | R$ 5.302,84 | R$ 7.155,34 | R$ 491,39 |
O resultado surpreende quem só conhece a conta do mês: no mesmo valor nominal, o pacote CLT supera a sobra do MEI em todas as faixas, do piso ao teto do MEI. A diferença é maior justamente em torno de R$ 5.000, onde a redução do IR de 2026 zera o imposto do CLT e o pacote fica R$ 956,76 acima da sobra do MEI.
Por que o MEI nominal nunca alcança o pacote
A matemática é direta. O pacote CLT adiciona cerca de 27% ao líquido (8% de FGTS, 8,33% de 13º, 11,11% de férias com o terço). Para o MEI compensar isso, o imposto CLT precisaria comer mais de 27% do salário, o que, como mostra nosso estudo do salário líquido, não acontece em nenhuma faixa até o teto do MEI: a mordida de INSS e IRRF fica entre 7,5% e 12% nessas faixas. O DAS fixo é imbatível como imposto, mas o que decide a comparação não é o imposto, é o pacote.
Vale repetir o que esse resultado significa: aceitar virar MEI pelo mesmo valor do salário é aceitar um corte de remuneração total, de R$ 479,25 a R$ 956,76 por mês conforme a faixa, além de perder as proteções que não têm preço na tabela, como seguro-desemprego e estabilidades.
O cenário em que o MEI vence: o repasse do custo
Existe uma versão honesta da proposta MEI: a empresa repassa ao prestador o que deixou de gastar com encargos. Um CLT de R$ 5.000 custa cerca de R$ 6.372,23 por mês para uma empresa do Simples, somando FGTS e as provisões de 13º e férias. Se o MEI fatura esses R$ 6.372,23, sobra R$ 6.286,18 depois do DAS, cerca de R$ 415,47 acima do pacote CLT.
Note o tamanho da exigência: para o MEI valer a pena financeiramente, o faturamento precisa ser uns 27% maior que o salário substituído. Propostas de "mesmo valor, como PJ" ficam muito longe disso. E mesmo o repasse integral não cobre a diferença de previdência, o próximo ponto, nem o risco de ficar sem renda entre contratos, que o CLT mitiga com aviso, multa e seguro-desemprego.
A diferença silenciosa: a previdência
O DAS do MEI embute R$ 81,05 de INSS por mês, 5% do salário mínimo. Isso garante cobertura previdenciária, mas no piso: aposentadoria por idade de 1 salário mínimo (R$ 1.621,00), auxílio-doença e pensão calculados sobre o mínimo. Um CLT de R$ 5.000 contribui R$ 501,51 por mês, mais de seis vezes o valor, e constrói benefício proporcional ao salário real.
Quem opta pelo MEI e quer mais do que o piso tem dois caminhos: o complemento de 15% sobre o mínimo (R$ 243,15 por mês), que faz o tempo contar para a aposentadoria por tempo de contribuição, mas mantém a base no mínimo; ou poupar por conta própria a diferença, com disciplina de longo prazo. O que não existe é almoço grátis: o DAS barato compra uma previdência proporcionalmente barata.
Quando o MEI faz sentido de verdade
Nada disso significa que o MEI seja má ideia. Ele é excelente para o que foi criado: formalizar o empreendedor de pequeno porte, com vários clientes, nota fiscal, CNPJ para comprar de fornecedor e acesso a crédito. Para o profissional autônomo de verdade, o MEI costuma ser a porta de entrada mais barata da formalização, como mostra a nossa calculadora "vale a pena ser MEI".
O problema é usar o MEI como fantasia de contrato de trabalho. Se há chefe, horário, exclusividade de fato e trabalho pessoal contínuo, o vínculo é de emprego, e a pejotização, além de ilegal, transfere para o trabalhador todos os riscos: da doença ao desemprego, da aposentadoria ao acidente. A conta deste estudo dá o tamanho financeiro dessa transferência; as proteções perdidas são o resto do iceberg.
Metodologia e limitações
Os números são calculados em tempo de build pelas engines do ValorFinal: DAS do MEI de serviços (R$ 86,05: 5% do mínimo + ISS fixo), salário líquido CLT com 0 dependentes (INSS 2026 e IRRF 2026 com a redução da Lei 15.270/2025) e pacote CLT com as mesmas provisões do nosso estudo CLT x PJ (FGTS 8%, 13º em 1/12, férias com 1/3 em 1/12). Ficam fora da conta: custos do negócio do MEI (equipamento, deslocamento, inadimplência, períodos sem contrato), benefícios CLT como vale-refeição e plano de saúde (que aumentariam a vantagem CLT) e a contabilidade, dispensada para o MEI. O teto do MEI é R$ 81.000 por ano. Entenda nossa abordagem em como validamos os cálculos.
Fontes oficiais
- Lei Complementar 123/2006 (Estatuto da ME/EPP; MEI incluído pela LC 128/2008).
- Portal do Empreendedor (gov.br) (valores do DAS, teto e obrigações do MEI).
- INSS (contribuição de 5%, complemento de 15% e benefícios do MEI).
Conclusão
De R$ 5.000 por mês, sobram R$ 4.913,95 no MEI e R$ 4.498,49 no contracheque CLT, mas o pacote CLT completo vale R$ 5.870,71: no mesmo valor nominal, o CLT vence em todas as faixas dentro do teto do MEI. O MEI só empata financeiramente quando fatura o custo integral que a empresa teria com o CLT, uns 27% a mais, e mesmo assim aposenta pelo mínimo. Faça a sua conta na calculadora do MEI, compare com o estudo CLT x PJ para faturamentos maiores e veja os demais estudos do ValorFinal, com dados livres para citação.