Todo mês, antes de o salário cair na conta, o INSS e o Imposto de Renda na fonte levam a primeira fatia. O tamanho dessa fatia muda de ano para ano, e quase nunca pelo motivo que as pessoas imaginam. Neste estudo, o ValorFinal reconstruiu as tabelas oficiais de INSS e IRRF de 2019 a 2026 e calculou, ano a ano, quanto perdeu quem ganha 1, 2, 3 e 5 salários mínimos. A régua em salários mínimos mantém a comparação justa: 2 mínimos de 2019 e 2 mínimos de 2026 representam um poder de compra parecido, ainda que os valores em reais sejam bem diferentes.
O resultado conta duas histórias opostas ao mesmo tempo. Para quem ganha até 3 salários mínimos, a mordida caiu, e caiu forte no fim do período: a reforma do Imposto de Renda de 2026 derrubou o desconto de quem ganha 3 mínimos de 14,5% para 9,9%. Para quem ganha 5 mínimos, a direção foi a contrária: a mordida saiu de 18,3% em 2019 para 25,8% em 2026, o maior nível da série.
Como a mordida evoluiu, faixa a faixa
As tabelas abaixo mostram, para cada ano, o salário da faixa (múltiplo do mínimo vigente), o INSS, o IRRF, o líquido e o percentual total descontado. O cálculo usa zero dependentes e a tabela vigente em dezembro de cada ano.
Quem ganha 1 salário mínimo
| Ano | Salário | INSS | IRRF | Líquido | % descontado |
|---|---|---|---|---|---|
| 2019 | R$ 998,00 | R$ 79,84 | R$ 0,00 | R$ 918,16 | 8,0% |
| 2020 | R$ 1.045,00 | R$ 78,38 | R$ 0,00 | R$ 966,63 | 7,5% |
| 2021 | R$ 1.100,00 | R$ 82,50 | R$ 0,00 | R$ 1.017,50 | 7,5% |
| 2022 | R$ 1.212,00 | R$ 90,90 | R$ 0,00 | R$ 1.121,10 | 7,5% |
| 2023 | R$ 1.320,00 | R$ 99,00 | R$ 0,00 | R$ 1.221,00 | 7,5% |
| 2024 | R$ 1.412,00 | R$ 105,90 | R$ 0,00 | R$ 1.306,10 | 7,5% |
| 2025 | R$ 1.518,00 | R$ 113,85 | R$ 0,00 | R$ 1.404,15 | 7,5% |
| 2026 | R$ 1.621,00 | R$ 121,57 | R$ 0,00 | R$ 1.499,43 | 7,5% |
No mínimo, nunca houve Imposto de Renda no período: a mordida é só INSS. Ela caiu de 8,0% em 2019 para 7,5% a partir de 2020, quando a reforma da Previdência trocou a alíquota única de 8% pela primeira faixa progressiva de 7,5%. Desde então, quem ganha o mínimo perde o mesmo percentual todos os anos, e o valor em reais só sobe porque o próprio mínimo sobe.
Quem ganha 2 salários mínimos
| Ano | Salário | INSS | IRRF | Líquido | % descontado |
|---|---|---|---|---|---|
| 2019 | R$ 1.996,00 | R$ 179,64 | R$ 0,00 | R$ 1.816,36 | 9,0% |
| 2020 | R$ 2.090,00 | R$ 172,44 | R$ 1,02 | R$ 1.916,55 | 8,3% |
| 2021 | R$ 2.200,00 | R$ 181,50 | R$ 8,59 | R$ 2.009,91 | 8,6% |
| 2022 | R$ 2.424,00 | R$ 199,98 | R$ 24,00 | R$ 2.200,02 | 9,2% |
| 2023 | R$ 2.640,00 | R$ 219,86 | R$ 0,00 | R$ 2.420,14 | 8,3% |
| 2024 | R$ 2.824,00 | R$ 237,70 | R$ 0,00 | R$ 2.586,30 | 8,4% |
| 2025 | R$ 3.036,00 | R$ 257,73 | R$ 0,00 | R$ 2.778,27 | 8,5% |
| 2026 | R$ 3.242,00 | R$ 277,64 | R$ 0,00 | R$ 2.964,36 | 8,6% |
Aqui aparece o efeito mais silencioso da série: o congelamento da tabela do IRRF. De 2020 a 2022, quem ganhava 2 mínimos pagava Imposto de Renda, porque a isenção estava parada em R$ 1.903,98 desde 2015 enquanto o mínimo subia (em 2019, a dedução do INSS ainda segurava essa faixa fora do imposto). Em 2022, 2 mínimos eram R$ 2.424,00 e pagavam R$ 24,00 de IRRF por mês. A correção de 2023 zerou esse imposto, e a redução de 2026 afastou ainda mais essa faixa do IR: hoje a mordida de 2 mínimos é só o INSS.
Quem ganha 3 salários mínimos
| Ano | Salário | INSS | IRRF | Líquido | % descontado |
|---|---|---|---|---|---|
| 2019 | R$ 2.994,00 | R$ 329,34 | R$ 57,05 | R$ 2.607,61 | 12,9% |
| 2020 | R$ 3.135,00 | R$ 297,85 | R$ 70,77 | R$ 2.766,38 | 11,8% |
| 2021 | R$ 3.300,00 | R$ 313,40 | R$ 93,19 | R$ 2.893,41 | 12,3% |
| 2022 | R$ 3.636,00 | R$ 345,32 | R$ 138,80 | R$ 3.151,88 | 13,3% |
| 2023 | R$ 3.960,00 | R$ 380,32 | R$ 144,40 | R$ 3.435,28 | 13,3% |
| 2024 | R$ 4.236,00 | R$ 411,86 | R$ 169,24 | R$ 3.654,90 | 13,7% |
| 2025 | R$ 4.554,00 | R$ 447,16 | R$ 212,54 | R$ 3.894,30 | 14,5% |
| 2026 | R$ 4.863,00 | R$ 482,33 | R$ 0,00 | R$ 4.380,67 | 9,9% |
A faixa de 3 mínimos é a que melhor mostra a virada de 2026. A mordida vinha subindo devagar, de 12,9% em 2019 até 14,5% em 2025, empurrada pela defasagem da tabela. Em 2026, com o IRRF zerado até R$ 5.000 pela Lei 15.270/2025, o desconto despencou para 9,9%: quem ganha R$ 4.863 deixou de pagar Imposto de Renda na fonte e ficou só com o INSS.
Quem ganha 5 salários mínimos
| Ano | Salário | INSS | IRRF | Líquido | % descontado |
|---|---|---|---|---|---|
| 2019 | R$ 4.990,00 | R$ 548,90 | R$ 363,12 | R$ 4.077,98 | 18,3% |
| 2020 | R$ 5.225,00 | R$ 590,45 | R$ 406,64 | R$ 4.227,91 | 19,1% |
| 2021 | R$ 5.500,00 | R$ 621,29 | R$ 472,28 | R$ 4.406,42 | 19,9% |
| 2022 | R$ 6.060,00 | R$ 684,58 | R$ 608,88 | R$ 4.766,54 | 21,3% |
| 2023 | R$ 6.600,00 | R$ 749,92 | R$ 723,81 | R$ 5.126,27 | 22,3% |
| 2024 | R$ 7.060,00 | R$ 807,22 | R$ 823,51 | R$ 5.429,27 | 23,1% |
| 2025 | R$ 7.590,00 | R$ 872,20 | R$ 938,67 | R$ 5.779,14 | 23,9% |
| 2026 | R$ 8.105,00 | R$ 936,21 | R$ 1.153,17 | R$ 6.015,62 | 25,8% |
Nas faixas mais altas, a história é de alta contínua. Quem ganha 5 mínimos perdia 18,3% do salário em 2019 e perde 25,8% em 2026. São quase 8 pontos percentuais a mais em oito anos, sem que nenhuma alíquota nominal tenha subido. O mecanismo é a defasagem: as faixas de 22,5% e 27,5% do IRRF seguem começando em valores nominais definidos em 2015, então cada reajuste do mínimo empurra uma fatia maior do salário para dentro delas.
A isenção do IR medida em salários mínimos
Uma forma direta de enxergar a defasagem e a correção é medir o limite de isenção do IRRF em número de salários mínimos. Quando a tabela fica congelada e o mínimo sobe, esse número cai, e trabalhadores cada vez mais pobres passam a pagar imposto.
| Ano | Isenção do IRRF | Salário mínimo | Isenção em mínimos |
|---|---|---|---|
| 2019 | R$ 1.903,98 | R$ 998,00 | 1,91 SM |
| 2020 | R$ 1.903,98 | R$ 1.045,00 | 1,82 SM |
| 2021 | R$ 1.903,98 | R$ 1.100,00 | 1,73 SM |
| 2022 | R$ 1.903,98 | R$ 1.212,00 | 1,57 SM |
| 2023 | R$ 2.112,00 | R$ 1.320,00 | 1,60 SM |
| 2024 | R$ 2.259,20 | R$ 1.412,00 | 1,60 SM |
| 2025 | R$ 2.428,80 | R$ 1.518,00 | 1,60 SM |
| 2026 | R$ 5.000,00 (efetiva) | R$ 1.621,00 | 3,08 SM |
Em 2019, a isenção alcançava 1,91 salário mínimo. No fundo do congelamento, em 2022, ela valia só 1,57 mínimo: quem ganhava pouco mais de um mínimo e meio já pagava IR. Em 2026, com a redução da Lei 15.270/2025, a isenção efetiva saltou para R$ 5.000, ou 3,08 salários mínimos, o maior patamar da série. Vale notar que a linha de 2026 usa a isenção efetiva (a redução que zera o imposto), e não o topo formal da primeira faixa da tabela.
O que mudou em cada virada
Três mudanças estruturais explicam a série inteira. A primeira foi a reforma da Previdência (Emenda Constitucional 103/2019), em vigor desde março de 2020: o INSS do empregado deixou de ter alíquota única sobre o salário todo e passou a ser progressivo por faixas, de 7,5% a 14%. Quem ganha o mínimo passou a pagar menos; quem ganha perto do teto passou a pagar um pouco mais.
A segunda foi o fim do congelamento do IRRF. A tabela ficou parada de abril de 2015 a abril de 2023, o período em que a mordida cresceu para todo mundo acima da isenção. A partir de maio de 2023, correções anuais elevaram a isenção para R$ 2.112,00, depois R$ 2.259,20 (2024) e R$ 2.428,80 (2025), sempre acompanhadas do desconto simplificado, que garante isenção a quem ganha até 2 mínimos.
A terceira é a reforma de 2026. A Lei 15.270/2025 criou uma redução que zera o IRRF de quem recebe até R$ 5.000 por mês e diminui o imposto de forma decrescente logo acima disso. É a mudança que aparece na queda abrupta da faixa de 3 mínimos entre 2025 e 2026. Acima da zona da redução, nada mudou, e é por isso que a faixa de 5 mínimos não sentiu alívio nenhum.
Por que a mordida de cima continua subindo
A pergunta natural é: se a tabela foi corrigida em 2023, 2024, 2025 e 2026, por que quem ganha 5 mínimos paga cada vez mais? A resposta está em qual pedaço da tabela foi corrigido. As correções recentes mexeram na base: isenção e desconto simplificado. Os limites das faixas de 15%, 22,5% e 27,5%, porém, continuam nos valores nominais de 2015. Um salário de 5 mínimos em 2026 (R$ 8.105) está muito acima do início da faixa de 27,5% (R$ 4.664,68), então praticamente todo reajuste vai para a alíquota máxima.
Somam-se a isso os reajustes reais do salário mínimo, acima da inflação, que elevam o salário nominal das faixas atreladas ao mínimo mais rápido do que a tabela do IR se move. O resultado é o que a série mostra: a mordida de 5 mínimos subiu em todos os anos do período, de 18,3% para 25,8%, mesmo sem nenhuma lei aumentar alíquota. Economistas chamam isso de aumento de imposto por defasagem, e ele não aparece em manchete nenhuma.
INSS não é tudo perda
Uma ressalva que este estudo repete sempre: das duas fatias da mordida, o INSS não é imposto puro. É contribuição previdenciária, conta para a aposentadoria, o auxílio-doença e a pensão, e tem teto. O IRRF, por sua vez, é imposto: sai do salário e não volta como benefício individual. Nas faixas de 1 e 2 mínimos, a mordida de 2026 é 100% contribuição. Na faixa de 5 mínimos, mais da metade da mordida já é Imposto de Renda.
Essa distinção importa para ler a série com honestidade. A queda da mordida nas faixas baixas veio toda do IR, sem mexer na contribuição. E a alta nas faixas maiores também veio toda do IR. O INSS progressivo de 2020 redistribuiu a conta dentro da folha, mas mudou pouco o total: o motor da variação, para cima e para baixo, foi sempre o Imposto de Renda.
Metodologia e limitações
Os números são calculados em tempo de build por uma engine histórica versionada no repositório do ValorFinal, que aplica, para cada ano, a tabela de INSS e de IRRF vigente em dezembro daquele ano: INSS por alíquota única até 2019 e progressivo desde 2020; IRRF com deduções legais e, a partir de maio de 2023, com o desconto simplificado quando mais vantajoso. O ano de 2026 usa a mesma engine da nossa calculadora de salário líquido, incluindo a redução da Lei 15.270/2025. O perfil é o empregado CLT com zero dependentes; dependentes e outras deduções reduzem o IRRF. Anos com troca de tabela no meio do ano (2020, 2023, 2024 e 2025) usam a tabela mais nova. Entenda nossa abordagem em como validamos os cálculos.
Fontes oficiais
- INSS - Tabela de contribuição mensal (Portarias Interministeriais anuais, 2019 a 2026).
- Receita Federal - Tabelas do IRRF por período (Lei 13.149/2015, Lei 14.663/2023, Lei 14.848/2024 e Lei 15.191/2025).
- Emenda Constitucional 103/2019 (reforma da Previdência, INSS progressivo).
- Lei 15.270/2025 (redução do IRRF até R$ 5.000 a partir de 2026).
Conclusão
Oito anos de tabelas contam uma história de dois Brasis tributários. Abaixo de 3 salários mínimos, o trabalhador de 2026 perde menos do que perdia em qualquer ano da série: a mordida de 3 mínimos caiu de 14,5% para 9,9% de um ano para o outro. Acima disso, a defasagem segue mandando: 5 mínimos perdem 25,8%, o recorde do período. Calcule a sua própria mordida na calculadora de salário líquido, confira o IRRF e o INSS isolados, e veja os demais estudos do ValorFinal, com dados livres para citação.